quinta-feira, 19 de maio de 2011

NOVAS OPORTUNIDADES E ESTIGMA SOCIAL


“Um dos maiores males de Portugal, e digamos o maior, é a ignorância. A completa, a absoluta ignorância. Nunca houve em Portugal um ministério que propriamentes se dedicasse a dotar o país com um completo sistema de estudos populares” (Eça de Queiroz, 1845-1900).

O De Rerum Natura tem tido uma acção crítica constante e pertinaz sobre as Novas Oportunidades. Procurando posts da minha autoria sobre este tema contei-os até perfazerem dezassete (o primeiro publicado, intitulado PISA e Novas Oportunidades, é de finais do ano 2007).

Acontece que as próximas eleições legislativas trouxeram para o ecrã televisivo, uma vez mais, a questão das Novas Oportunidades, através do último frente a frente, realizado anteontem na TVI, entre Pedro Passos Coelho e Francisco Louçã, em que o primeiro defendeu uma auditoria externa às Novas Oportunidades (que já certificou mais de meio milhão de portugueses com diplomas do 4.º, 9.º e 12.º anos de escolaridade) e o segundo considerou esta medida como um estigma social com os seus usufrutuários. Ora, salvo melhor opinião, o estigma não incide tanto sobre aqueles que beneficiaram dos seus diplomas mas mais sobre as Novas Oportunidades por estas andarem a vender gato por lebre.

Pela actualidade que lhes reconheço, transcrevo, os dois parágrafos iniciais de um meu post aqui publicado, intitulado A Avaliação Externa das Novas Oportunidades (24/10/2010). Escrevi então:

“Mesmo num país em que a tolerância tem a elasticidade das conveniências dos seus corifeus, muito me admiraria que um estudo encomendado pelos próprios interessados para dar um determinado resultado o contrariasse.

Por outro lado, que interesse teriam os beneficiários das Novas Oportunidades em dizer mal de uma formação que transveste ignorantes em sábios, enquanto o diabo do oportunismo esfrega um olho? Ou, dito de outra maneira, em morder a mão que lhes deu um presente, ainda que envenenado, por saberem no íntimo das suas consciências que foram joguetes de uma viciada estatística para aumentar o número de portugueses prontos a tomarem de assalto as universidades, tirando, por vezes, como foi denunciado recentemente nos media, o lugar a estudantes do ensino regular?”

O papel do De Rerum Natura nesta discussão foi reconhecido inclusivamente pelo jornal Público que, numa ampla reportagem (07/07/2010), quis confrontar a posição crítica deste blogue com a opinião de Luís Capucha, director da Agência Nacional para a Qualificação, instituto público “que tem por missão coordenar a execução das políticas de educação e formação profissional de jovens e adultos, bem como assegurar o desenvolvimento e a gestão do Sistema de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências, assumindo um papel dinamizador no cumprimento das metas traçadas pela Iniciativa Novas Oportunidades”. Como era de esperar, porque, como dizem os franceses, “à louvre on connait l’artisan”, teceu Luís Capucha, julgo que mais por dever de ofício e menos por amor à verdade, rasgados elogios às Novas Oportunidades.


Assim, por amável indicação do Carlos Fiolhais, enviei a esse jornal um texto intitulado Novas Oportunidades ou Novos Oportunismos?, de que cito estes extractos:

"A réstia de esperança que pudesse haver sobre a bondade de uma segunda oportunidade, para quem desperdiçou uma primeira, foi abalada em seus frágeis alicerces pela leitura de uma extensa reportagem, sobre os Cursos de Educação e Formação, publicada no Expresso (8/12/2007). Por ela se ficou a saber que estes badalados cursos para aumentar as percentagens estatísticas de portugueses que terminam os 6.º, o 9.º e 12.º anos de escolaridade, não espelham uma situação minimamente verdadeira, credível ou séria.

Não querendo generalizar a todos estes cursos efeitos perversos, tenho razões para pensar que em sua grande maioria sirvam apenas de recreio buliçoso para passar o tempo de quem procura um diploma avalizado pelo Estado. A título de mero exemplo, extraio ainda do Expresso este elucidativo pedaço de prosa da autoria do formador que denunciou ao Presidente da República o verdadeiro escândalo que se acoberta por detrás destas actividades curriculares: ‘Estes frequentadores da escola aparecem nas aulas sem trazer uma esferográfica ou uma folha de papel. Trazem o boné, o telemóvel, os headphones e uma vontade incrível de não aprender e não deixar aprender’.”

Curiosamente, três meses mais tarde, Luís Capucha em resposta à pergunta se os processos de certificação são avaliados, declarou: “Sim, há a avaliação externa, o que implica que há regras e que as competências certificadas correspondem às possuídas” (Público, on line, 23/10/2010). Mas, como nos diz uma expressão popular, “não bate a bota com a perdigota”. E digo porquê, com três testemunhos por mim colhidos de entre outros: 1.º - Segundo denúncia de um formador das Novas Oportunidades ao Presidente da República (atrás citada): "Estes frequentadores da escola aparecem nas aulas sem trazer uma esferográfica ou uma folha de papel. Trazem o boné, o telemóvel, os headphones e uma vontade incrível de não aprender e não deixar aprender."

2.º - Numa esclarecedora peça jornalística de Isabel Leiria e Joana Pereira Bastos (Expresso, 18/09/2010), foi-nos dado o testemunho de Tomás Bacelos, ele próprio beneficiário das Novas Oportunidades: “Para mim foi óptimo. Mas é claro que é bastante injusto porque os outros [do dito ensino regular] passam anos a esforçar-se para terem boas médias. Com as Novas Oportunidades, uma pessoa que só tem o 7.º ano pode fazer o 9.º em seis meses e a seguir, em ano e meio, consegue tirar o 12.º ano”.

3.º -Finalmente, um comentário online (Público, 18/05/2011) tem o seguinte teor: “Foi Sócrates quem insultou a inteligência das pessoas quando lançou aprofunda vigarice das Novas Oportunidades. Trabalhei nisso como formador – por muito pouco tempo – e posso testemunhar que é a aldrabice mais escandalosa de todos os tempos em matéria de educação em Portugal. Até o meu gato tinha o 12.º ano se quisesse” ( Gil Fonseca - Lisboa).

Trazendo trunfos à posição de Pedro Passos Coelho, um artigo publicado no Público (18/05/ 2011), a página inteira (p. 14), de Clara Viana, intitulado Avaliação das Novas Oportuniddes não incide sobre a qualidade da formação, diz-nos que o investigador Joaquim Azevedo, “um dos peritos que têm acompanhado o trabalho de avaliação iniciado em 2008”, obriga-se a confirmar que "a avaliação externa do programa Novas Oportunidades não contemplou, até hoje, uma aferição directa da qualidade de formação ministrada no âmbito desta iniciativa”. Acresce, ainda, que em 2009, ainda segundo a mesma notícia, quando apresentou o primeiro relatório de avaliação externa a solicitaçãode Luís Capucha, director da Agência Nacional para a Qualificação, "Roberto Carneiro já tinha esclarecido que “o objectivo do trabalho da sua equipa [com a chancela da Universidade Católica] não era a qualidade e o rigor do processo de certificação em si, mas sim o de ‘avaliar a qualidade do ponto de vista da percepção das pessoas que estão envolvidas’” (id.;ibid.).

Quiçá porque, segundo Freud, “a maior paixão da humanidade é iludir a realidade”, ao arrepio da máxima latina de que “laus in ore próprio vilescit”, tratou-se de uma avaliação em que outra coisa não seria de esperar por não envolver qualquer sentido crítico auscultando, tão-só, a opinião, através de centenas de questionários, de bafejados pelas Novas Oportunidades com interesses pessoais e profissionais em abonar a sua “excelente formação”. Como diz o povo, "valha-nos Nossa Senhora da Agrela que não há outra como ela"!

Na fotografia: Pedro Passos Coelho e Francisco Louçã na TVI.

10 comentários:

  1. José Batista da Ascenção19 de maio de 2011 às 16:04

    Ora, Caro Rui Batista, tratou-se de uma avaliação à portuguesa.
    Os portugueses são extraordinários em matéria de sistemas de avaliação. Por exemplo, segundo o sistema de avaliação dos professores agora em vigor, um professor avaliador que se candidate às quotas de "muito bom" e "excelente" concorre com ("contra") os docentes que lhe cabe avaliar!
    Ora digam(-me) lá que tal sistema de avaliação não vale bem os encómios que tantos lhe prodigalizam!?
    E depois há ainda aquela coisa em que nos tornámos mestres: a "autoavaliação", um mito com (terríveis) consequências.
    E diz o meu caro Rui Batista que ninguém deve ser juíz em causa própria? Só se for no resto do mundo.
    Mas, que precisamos nós desse resto do mundo? Eles é que deviam aprender connosco. Às tantas...

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  2. Disse Freud " A maior Paixão da humanidade é a de iludir a realidade".
    E aplica-se na perfeição ao texto publicado pelo Rui Batista.

    O autor do texto escreve com a sua posição de partida já tomada, para ele este programa "Novas Oporunidades" como diz o lider do PSD é uma "fraude".
    Vai recolher todos os testemunhos de casos onde este programa tem falhas e razões para ser criticado, e toma isso como o todo. È tudo assim, é tudo mau. Um programa que abrange milhares de pessoas, pessoas que se têm esforçado para melhorar as suas qualificações, e de seguida tornam este processo numa discussão ideológica, sem sentido.
    Dizer que o que o Programa Novas Oportunidades faz é "passar certificados à Ignorancia", é um atestado de ignorancia de quem profere essa frase.
    É de facto um insulto a quem se tem esforçado para ter mais qualificações.
    Mas o que é que esta gente quer, que não haja formação para pessoas que não a têm. E o Estado não deve fazer um esforço Financeiro para qualificar estas pessoas?
    É de lamentar que o lider do PSD tenha uma atitude de aproveitamento politico de um programa que é nacional, não é partidário.
    Péssimo exemplo que ele dá ao falar de forma tão demagógica.
    Muita Razão tem O Francisco Louçã. Quem não quer dar hipóteses de formação a quem não teve essas oprtunidades de partida, é uma pessoa que está a ter um preconceito e é um Estigma Social.

    Espero que também publiquem as opiniões contrárias à do autor.
    Luis Neves

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  3. "Estes frequentadores da escola aparecem nas aulas sem trazer uma esferográfica ou uma folha de papel. Trazem o boné, o telemóvel, os headphones e uma vontade incrível de não aprender e não deixar aprender.”

    Já assim era quando andei na universidade nos anos 90, o que me leva a pensar que é um problema cultural, generalizado. Não há ambição, desculpabiliza-se a mediocridade instalada e ataca-se ferozmente quem não alinha ou tenta mudar alguma coisa.

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  4. Nas NOP´s cabe muita coisa. Validação de competências não é o mesmo que EFA ou CEF, por exemplo.
    Confesso que me enterneço ao ver aquelas mulheres e homens que frequentam o curso EFA de pastelaria. Seja qual for o resultado foi muito bom terem voltado à escola, creiam que aprenderam muita coisa .
    Quanto aos meus alunos do CEF, embora por vezes com muita vontade de lhes "apertar o pescoço",mas também com muita ternura, não vejo outra solução para quem não gosta e não quer andar na escola, não saem com as mesmas competências dos restantes, mas levam uma "ferramenta" para a vida , sobretudo não são excluídos e não continuaram a impedir que os outros aprendessem.
    Inquietam-me os 12 anos de escolarização para alunos, como estes, que não têm curiosidade alguma e não gostam da escola. Colocá-los num turma comum é empurrá-los para a marginalidade e impedir que os restantes aprendam.

    É preciso não generalizar. Estes alunos e (todos nós) merecem mais do que politiquice.

    Ivone Melo

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  5. Caro Luís Neves

    Tem razão em dizer que há pessoas que têm o direito de terem qualificações, mas o que ocorre é que a Política tem andado cem passos à frente das Novas Oportunidades.
    O que é que isto quer dizer ?

    Quer dizer que as Novas Oportunidades vão tapar todos os fracassos escolares, os meninos que desistem, os meninos que chumbam… Portanto, vamos acelerar a formação desses jovens, não com o sistema escolar instituído que não resultou mas com o sistema escolar simplex, que acelera o ensino, catapultando meninos com o 5.º ano para o 12.º, meninos com a 4.ª classe recebendo diplomas do 9º ano...

    E para que o logro seja maior a Política colocou milhares de blogs na rede informática a propagandear as Maravilhas simplificadoras das Novas Oportunidades, em vez de darem a conhecer o sistema, os termos do funcionamento das Novas Oportunidades, os programas de formação e as fórmulas das qualificações.

    A este propósito o tema foi ridicularizado no youtube como pode ver aqui, bem satirizado.

    Para não ir mais longe ofereço-lhe para leitura atenta os tipos de Novas Oportunidades espalhadas pela Europa, que constituem relatórios de Case Study, entre os quais o de Portugal, que pode consultar na p. 148, com o título Portugal, Centre for New Opportunities, elaborado pelo Instituto Alemão para a Educação dos Adultos, com base nos documentos cedidos pela Política nacional.

    Contudo, repare que o relator põe dúvidas sobre a eficácia do sistema português.

    Só um final. As Novas Oportunidades não ofereceram Novos Empregos… aumentaram os Novos Desempregados. Com a pressa de tapar o fracasso escolar destapou o êxito do desemprego.

    O Estado caiu na própria armadilha e enganou-se a si mesmo. E pode gabar-se de ser o autor da Era de Ouro do Desemprego Nacional.

    Cordialmente

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  6. Há uma constante ambiguidade semântica nos defensores das NO: dizem que as pessoas têm direito a melhorar as suas qualificações (outras vezes falam mesmo em "formação"). Mas o que está na natureza do projeto não é a qualificação, mas sim a CERTIFICAÇÃO.

    Como diz muita gente que por lá passa, é pena não haver mais formação. O que se pede é que as pessoas demonstrem o que já tinham aprendido. E mesmo aí os critérios são muuuuuito abrangentes.

    Melhorar as qualificações dos portugueses seria excelente. Mas nas NO o que se faz não é isso, é simplesmente atribuir diplomas. Isso não é qualificar.

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  7. José Batista da Ascenção20 de maio de 2011 às 16:22

    Caros Rui Baptista e João Boaventura:

    Sobre o tema talvez valha a pena ver a carta que o senhor secretário de estado Walter Lemos dirige ao Dr Luís Capucha sobre os resultados conseguidos nas Novas Oportunidades. A gente lê e fica pasmo. Essa é que é essa.
    Pelo interesse do conteúdo da missiva envio-a, de seguida, para o De Rerum e para o João Boaventura

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  8. José Batista da Ascenção20 de maio de 2011 às 16:32

    Como todas as pessoas têm direito ao nome bem grafado corrijo, no comentário que fiz há pouco, o nome "Walter" para Valter.

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  9. Começa Luís Neves o seu comentário por sonegar o pensamento de Freud do contexto em que o apliquei, deturpando, assim, por completo, a intenção com que ele foi por mim utilizado. Pior do que isso, tentando virar o feitiço contra o feiticeiro. Coisa feia!

    O que eu escrevi, foi: “Quiçá porque, segundo Freud, ‘ a maior paixão da humanidade é iludir a realidade’, ao arrepio da máxima latina de que “laus in ore próprio vilescit”, tratou-se de uma avaliação em que outra coisa não seria de esperar por não envolver qualquer sentido crítico auscultando, tão-só, a opinião, através de centenas de questionários, de bafejados pelas Novas Oportunidades com interesses pessoais e profissionais em abonar a sua ‘excelente formação’".

    Ou seja, a ilusão da realidade está em confundir a avaliação das Novas Oportunidades (como escreveu Jeff Bush, “quem não mede não se preocupa com as coisas") com um inquérito aos próprios formandos.

    Este passe de mágica foi repetido em Vila Franca de Xira numa sessão (numa sala cheia de “diplomados” pelas Novas Oportunidades) de (des)agravo a Pedro Passos Coelho com uma lágrima furtiva e embargo da voz de José Sócrates em aplauso público de uma obra prima para despertar sentimentos… e tentar ganhar votos!

    Da referida cerimónia retenho duas passagens:1. Um antigo Vereador da Câmara local, “habilitado “ com o 12.º ano das NO desafiando publicamente Passos Coelho, licenciado em Economia por uma Universidade Pública, para uma sabatina para se saber quem era o ignorante: se ele ou “lui même”!; 2. uma senhora, “bafejada pelas NO” reconhecendo, ela própria, não se considerar “de todo” ignorante. Salvífica e honesta expressão: “de todo”. Ora, aqui está, mais uma vez, uma prova pública, como escrevi acima, de “interesses pessoais e profissionais em abonar a sua ‘excelente formação’”.

    Em longa agonia, morreu a Universidade Independente! Vivam as Novas Oportunidades e as provas de acesso ao ensino superior para maiores de 23 anos!

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  10. Sábias palavras de Ivone Melo: “É preciso não generalizar. Estes alunos e (todos nós) merecem mais do que politiquice” (sic.).

    Assim é minha Senhora, eu próprio defendi este princípio no meu post: “Não querendo generalizar a todos estes cursos efeitos perversos, tenho razões para pensar que em sua grande maioria sirvam apenas de recreio buliçoso para passar o tempo de quem procura um diploma avalizado pelo Estado”.

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