sábado, 26 de março de 2011

Tudo se repetirá...

O modelo de avaliação do desempenho docente, vigente até à passada sexta-feita, foi concebido, planeado, implantado, alterado e voltado a alterar, e, agora, revogado, por razões políticas, económicas, retóricas… Os protagonistas principais – políticos, sindicatos, ideólogos… – invocaram, contudo, critérios de ordem ética, filosófica, pedagógica. Critérios que sempre vi ausentes desse modelo, ou nele deturpados em função das circunstâncias.

Novo governo virá e, com ele, um modelo de avaliação do desempenho docente surgirá (já se fala dele, por sinal). Arrisco dizer que tudo o que escrevi acima se repetirá...

E isto porque as funções docentes estão longe de estarem definidas, bem como as competências que se requerem para as concretizar. O mesmo se podendo dizer para os referências pedagógico-didácticas que permitem operacionalizá-las, trespassados que estão de teorias da mais variada proveniência e com a mais variada produção.

Na imagem: A estrutura da Avaliação do Desempenho Docente, proposta num determinado momento.

7 comentários:

  1. José Batista da Ascenção26 de março de 2011 às 21:27

    O que seria verdadeiramente importante era que só fossem admitidas como professores pessoas devidamente credenciadas e rigorosamente avaliadas, pelas universidades (com qualidade insuspeita). Também era importante de tempos a tempos (de cinco em cinco anos?), submeter os docentes a exames médicos para aquilatar da sua saúde física e sobretudo mental.
    Claro que há aspectos que podem ser quantitativamente avaliados como a assiduidade ( que não as faltas por motivos de doença comprovada ou de luto por familiares próximos: avós, pais, marido/mulher, filhos, tios..., o cumprimento dos programas (mesmo os de duvidosa qualidade...) ou o apoio disponibilizado aos alunos.
    Agora, os modelos que até ao momento se tentaram impor não passam de porcarias (peço desculpa...) sem exequibilidade, justiça e utilidade. Um só exemplo: depois de tanto trambolhão, o que está (?) em vigor consegue ter professores avaliadores que competem com os seus avaliados pelas mesmas quotas de muito bom e excelente. Isto é possível? É! E anda a (ainda) senhora ministra a arrepelar-se porque lhe reprovaram a monstruosa progenitura. Melhor faria se não se cansasse, porque "a coisa" não tinha viabilidade...
    Porém, agora está na moda tudo ser (supostamente) avaliado por todos em todos os momentos. E assim continuará por mais uns anitos, até se conseguir sair da espiral de absurdo e loucura em que rodopiamos. É claro que este movimento não é gratuito e há muitos interessados e beneficiários que vão continuar a estimulá-lo. Mas não será duradouro. É a minha convicção.
    Até lá, vamos comendo e vendo...

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  2. José Batista da Ascenção26 de março de 2011 às 21:42

    Mesmo que quiséssemos não transformaríamos as escolas em "campos de neutralidade".
    Temo-nos porém esforçado em torná-las espaços de hipocrisia (em que professores e alunos procuram conviver...) e inutilidade, quando não de deseducação pura e dura. Com cobertura legal (veja-se quantos agressores de professores foram presos...) e exemplificação comportamental dos mais diversos intervenientes no sistema educativo...

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  3. Voltamos novamente à docimologia, sem saída plausível, com o desencanto proporcionado ao ambiente escolar, com incidência no professorado, não pela racionalidade do desempenho no magistério mas pela racionalidade económica, que atinge irracionalmente a paixão, ou o amor, ou a dedicação dos quem se posicionam frente a uma turma com a disposição de se centrarem no alvo aluno.

    A preocupação economicista, por mais que se não queira, ou por mais inocente que pareça, é uma máquina trituradora que atinge indevida e inquestionavelmente o professor que, em vez de ser incentivado no seu trabalho intelectual quotidiano, o vê postergado para valores materiais laterais, como se, o pedagogo avaliado no mercado escolar, viesse resolver a insolvência do Estado.

    E faz-se da avaliação a litania da educação, como o salvatério da melhoria do ensino, de uma falsa melhoria da aprendizagem do educando, de uma abstracta insinuação de destrinçar o bom do mau professor.

    O mal estar no âmbito escolar nasceu na incapacidade e na eficiência do Estado em querer apagar tudo quanto o Estado Novo fez, como se todo o ensino tivesse sido disforme, em vez de seleccionar o bom, aproveitá-lo, e reverter para a reciclagem o que estaria contra os novos horizontes que a nova Constituição prenunciaria.

    A educação passou a ser o atabalhoamento perante os novos espaços abertos à renovação (qual?), aos ensaios (quais?), às reformas (como ?), ensaio e erro em permanentes tropeços, proliferação de cursos ao deus dará, profusão de universidades e politécnicos para aumentar a confusão e baralhar um sistema nunca definido à partida.

    Perante este quadro dantesco, as mãos a medir ficou sem mãos para medir; a educação continua aos rebaldões, e o Estado, para cobrir os erros vitalícios que vão aumentando a sua inépcia, encontrou na avaliação dos professores, a fórmula mágica de fazer esquecer a sua incapacidade de resolver os problemas maiores, através do empolamento do avaliativo.

    E como os erros fazem apelo aos erros, os sugerem e estimulam, e porque no quadro político que se avizinha a valência dos deputados se equilibram, eis que a oposição varre de uma assentada a decantada avaliação com a promessa de a melhorar em novos moldes, porque ela vai permitir aos novos governos continuar a tapar o sol com a nova peneira. Mas desta feita, ou porque ignoram o estado de degradação do ensino, ou porque, se o conhecem, esperam que o FMI do tempo tudo resolva.

    Parafraseando o que Adorno ponderava sobre a miséria, podemos considerar que:

    “A degradação do ensino persiste. Como outrora. Eliminá-la completamente, não podes. Mas vais torná-la invisível.”

    Aí está a “avaliação” a servir de véu.

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  4. José Batista da Ascenção26 de março de 2011 às 22:59

    O meu segundo comentário desta série era para ter sido feito no "post" seguinte (mais recente). Algum cansaço e falha na atenção fez-me escrevê-lo fora do sítio. Paciência.

    Mais uma nota para agradecer a João Boaventura a qualidade, a pertinência, rigor de análise e a honestidade do seu comentário. Obrigado.

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  5. De facto, se se pretende ser eficaz e democrático, deviam-se criar multidões de psicólogos,futurologistas,ecologistas, pedagogos, pedófilos e outros quejandos que definissem com precisão os objectivos da educação pública.

    Ódespoisz podia-se abaliar
    e pôr 13 disciplinas no 3º ciclo pode não dar azar mas... (o termo disciplinas inclui as ditas A.Curriculares nã disciplinares

    isto do Jargão técnico
    e do abuso de adjectivos
    ou é de advérbios
    a minha educação gramatical foi fracota
    queria estar lá fora longe do ruído professoral

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  6. Em Portugal, as casas fazem-se quase sempre a partir do telhado e tenho sérias dúvidas que isto se altere a curto/médio prazo. Esta insanidade da "avaliação" docente é apenas e só mais um exemplo da nossa mediocridade, desorganização, preguiça e falta de brio profissional...

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  7. Tudo se repetirá, porque esta abolição temporária da avaliação dos professores é apenas uma jogada de caça ao voto. Prevendo a insanidade partidária disjuntiva do costume.

    Mas nada se repetirá, se houver uma alteração significativa, mesmo que simplesmente partidária (ou anárquica, ainda imagino que um dia ninguém vai votar)...

    Há sinais de mudança, primeiro Obama, agora os verdes na Alemanha. A guerra civil não me parece possível nesta "ocidental praia lusitana" mas, nunca se sabe, a ocasião faz o ladrão e a necessidade pode descambar, se se massificar.

    Como outros, vou resistindo: amor "à camisola" e sobreviência, em idênticas proporções. Mas se deus ou o diabo me esbarrar contra uma alternativa, garantidamente que sairei deste manicómio inqualificcável.
    HR

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