Domingo, 2 de Janeiro de 2011

POR ESTE ANOITECER…

Poema de Jorge de Sena, enviado por Paulo Rato, que devia ter sido publicado no De Rerum Natura no dia 31 de Dezembro… Apesar do atraso, não poderíamos deixar de o partilhar com os leitores.

POR ESTE ANOITECER…

Por este anoitecer, o ano acaba.
Cinzento e azul no céu por entre as árvores,
acaba o calendário. Muitos crimes dele
serão futuras efemérides nos outros
que, folha a folha, acabarão também.

Como anoitece igual este ano às noites
com que, dia por dia, o ano foi passando
gregorianamente. O mundo ocidental,
cesáreo, atlântico, ex-mediterrânico,
conta do Cristo. Mas os outros mundos

também contarão dele, quando este ocidente
deixar de fingir dele — os deuses morrem —
para funções de calendário laico.
O tempo passa, os calendários mudam,
na vida e morte as horas se sepultam.

E, no entanto, o tempo vai connosco;
é desta terra só, e só por haver outros
que de outros astros são por haver este
diverso tanto a cada movimento.
Por este anoitecer, o ano acaba.


Jorge de Sena

7 comments:

  1. Acaba como começou: pessimamente, à Jorge de Sena. JCN

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  2. Receita de Ano Novo

    Para você ganhar belíssimo Ano Novo
    cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
    Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
    (mal vivido talvez ou sem sentido)
    para você ganhar um ano
    não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
    mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
    novo
    até no coração das coisas menos percebidas
    (a começar pelo seu interior)
    novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
    mas com ele se come, se passeia,
    se ama, se compreende, se trabalha,
    você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
    não precisa expedir nem receber mensagens
    (planta recebe mensagens?
    passa telegramas?)

    Não precisa
    fazer lista de boas intenções
    para arquivá-las na gaveta.
    Não precisa chorar arrependido
    pelas besteiras consumadas
    nem parvamente acreditar
    que por decreto de esperança
    a partir de janeiro as coisas mudem
    e seja tudo claridade, recompensa,
    justiça entre os homens e as nações,
    liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
    direitos respeitados, começando
    pelo direito augusto de viver.

    Para ganhar um Ano Novo
    que mereça este nome,
    você, meu caro, tem de merecê-lo,
    tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
    mas tente, experimente, consciente.
    É dentro de você que o Ano Novo
    cochila e espera desde sempre.

    Carlos Drummond de Andrade

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  3. Recomeça….
    Se puderes
    Sem angústia
    E sem pressa.
    E os passos que deres,
    Nesse caminho duro
    Do futuro
    Dá-os em liberdade.
    Enquanto não alcances
    Não descanses.
    De nenhum fruto queiras só metade.
    E, nunca saciado,
    Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
    Sempre a sonhar e vendo
    O logro da aventura.
    És homem, não te esqueças!
    Só é tua a loucura
    Onde, com lucidez, te reconheças…

    Miguel Torga

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  4. Tudo o que já não é
    A dor que já não me dói
    A antiga e errónea fé
    O ontem que a dor deixou
    O que deixou alegria
    Só porque foi, e voou
    E hoje é já outro dia.

    Fernando Pessoa

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  5. Há um tempo em que é preciso
    abandonar as roupas usadas,
    que já tem a forma do nosso corpo,
    e esquecer os nossos caminhos,
    que nos levam sempre aos mesmos lugares.
    É o tempo da travessia: e,
    se não ousarmos fazê-la,
    teremos ficado, para sempre,
    à margem de nós mesmos.

    Fernando Pessoa

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  6. Jamais haverá ano novo, se continuar a copiar os erros dos anos velhos.

    Luís de Camões

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  7. Ano Novo

    De tudo, ficaram três coisas:
    A certeza de que estamos sempre começando...
    A certeza de que precisamos continuar...
    A certeza de que seremos interrompidos antes de terminar...
    Portanto devemos:
    Fazer da interrupção um caminho novo...
    Da queda um passo de dança...
    Do medo, uma escada...
    Do sonho, uma ponte...
    Da procura, um encontro...

    Fernando Pessoa

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