quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Caro Leitor...



Crónica escrita a partir do "Poema Para Galileu”, de António Gedeão (in Linhas de Força, 1967), e elaborada para o Exploratório Infante D. Henrique, Centro de Ciência Viva de Coimbra, no âmbito da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, a decorrer entre 22 e 28 de Novembro de 2010.

Limpe os olhos da luz do dia e, ao entardecer, projecte o olhar para o horizonte, contemple a abóbada celeste. Nesta semana, o leitor pode observar a face visível da Lua totalmente iluminada pela luz solar. Mesmo à vista desarmada de lentes de ampliar, conseguirá notar certas sombras, nuances de crateras no mar prateado do único satélite natural da Terra.

Também pode facilmente identificar o planeta Júpiter, a “estrela da tarde” em serviço por estes dias e que se destaca brilhante ao lado da Lua terrestre. Se observar com atenção, verá que esse astro se move no horizonte no sentido retrógrado, isto é, no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio. Se o seu relógio for digital, não se preocupe: verifique se a estrela da tarde descreve um arco no firmamento da direita para a esquerda. Comprova?

Há pouco mais de 400 anos, em Março de 1610, Galileu Galilei fez as primeiras observações científicas dos astros utilizando um telescópio, instrumento que ele melhorou. A sua luneta permitia-lhe aumentar o tamanho aparente de um objecto até cerca de 30 vezes. Por isso, terá sido o primeiro ser humano a contemplar, com admiração, as crateras lunares com um pormenor que deixou desenhado nas suas ilustrações, que serviram de registos científicos das suas observações.

Também na aurora do século XVII, e ao observar o planeta Júpiter, Galileu descobriu, para seu grande espanto, que outros corpos celestes orbitavam ao redor desse planeta gigante: Júpiter também tem luas, luas só suas! Esse momento, que o leitor pode imaginar e reviver hoje ao contemplar a “estrela da tarde”, é um marco da história da ciência e logo da humanidade.

O facto de alguns corpos celestes rodarem à volta de outros corpos celestes que não a Terra fez ruir concepções anteriores, baseadas na primeira aparência das coisas. Com a simples atitude de registar o que observava, Galileu reuniu dados para corroborar um modelo mais aproximado do comportamento do Universo então observável: o modelo heliocêntrico proposto antes por Copérnico.

As observações sistemáticas dos corpos celestes, efectuadas por sucessivas gerações de cientistas, adicionaram novos dados às observações precedentes, o que permitiu elaborar teorias sobre o universo distante, mas também válidas à nossa humilde escala humana. Por exemplo, a mesma interacção gravítica que faz com que os astros se movam uns à volta dos outros, que uma qualquer maçã, golden ou bravo de esmolfe (tanto faz), seja atraída e atraia a Terra. O leitor, quer experimentar, se faz favor?

Ponha de lado os preconceitos e, por sua vez, experimente deixar cair da mesma altura e ao mesmo tempo duas moedas diferentes: uma de um cêntimo e outra de um euro. Está assim a repetir uma outra experiência, a da queda dos graves, que Galileu Galilei terá feito no cimo da torre de Pisa embora usando outros objectos. Se o leitor quiser estar mais alto, suba, com cuidado, para cima de uma cadeira e repita a experiência. Os dois objectos voltam a chegar ao chão ao mesmo tempo? Pois é. Mesmo que repita vezes sem conta até se cansar, verá que o resultado é sempre o mesmo. E se não fosse?

Saberá porventura o leitor que esta experiência também foi realizada na Lua, que agora observa em fase cheia, por astronautas da missão Apollo 15, em 1971: o comandante David Scott deixou cair, da mesma altura e ao mesmo tempo, uma pena de ave e um martelo. E não é que também caíram ao mesmo tempo no chão lunar! Como teria gostado Galileu de ter observado, através da sua luneta, a réplica da sua experiência na Lua…

O facto é que a mesma experiência, feita por pessoas e em locais e épocas diferentes, tem dado sistematicamente o mesmo resultado. O conhecimento que resulta desta atitude experimental é, assim, reprodutível nas mesmas condições e esta é precisamente uma das características do conhecimento que resulta da aplicação do método científico.

Deixe cair o cansaço rotineiro e descanse o olhar no céu estrelado. Deixe o tempo estender-se no espaço, até ao infinito, e deslumbre-se com a aparente serenidade da astronómica noite semeada de miríades de constelações de estrelas. Seja humano. Sonhe. Ponha questões e experimente.

António Piedade

6 comentários:

  1. Não é assim como toda a gente sabe. Se eu deixar cair, cá na Terra, um martelo e uma pena o martelo é mais rápido. Não acredita? Ponha a cabeça em baixo á espera que caia a pena e depois o martelo. Há gente que só vê a realidade à martelada...dói e não esquece!!

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  2. SEARA ALHEIA

    Todos os cientistas,
    de género diverso,
    que as origens pesquisam do universo
    seguindo as mais inopinadas pistas,
    visando metas
    nunca alcançadas,
    deviam ser poetas
    mesmo incapazes sendo,
    de se expressar em verso,
    pois com certeza,
    segundo o que eu entendo,
    não perderiam nada
    em ver no fundo das retortas
    e nos tubos de ensaio
    ou na força do raio
    e no funcionamemto das comportas
    a acção da natureza
    com o poder divino conjugada
    em toda a sua mágica beleza!

    JCN

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  3. Acho que o António Piedade deveria responder ao anónimo das 11:30. É que ele tem razão, fiz a experiência, não com a cabeça mas com um pé (confiei nos que se dizem cientistas) e saí machucado. De agora em diante não vou mais em charlatanices, pensarei pela minha cabeça ajudado pela experimentação.
    J. Ramos

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  4. Eu sugeri deixar cair duas moedas e não um martelo e uma pena. Outros factores como a densidade e o atrito devido à resistência do ar atmosférico explicam porque é que no nosso planeta, martelo e pena não chegam ao chão ao mesmo tempo.
    Por isso é que a experiência foi efectuada na Lua, na ausência de atmosfera.
    Muito mais haveria a dizer sobre a queda dos graves...

    António Piedade

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  5. Aí é que está...Galileu abstraiu do atrito, e aí é que está o golpe de génio. Só que isso nunca é salientado pelos comentadores. Se Galileu fizesse a experiência...concluiria que as suas ideias estavam erradas...O problema está em escolher bem aquilo que deve ser ignorado (ou abstraído). Galileu não se baseou na experimentação mas sim no pensamento.

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  6. Mensagem recebida de Guilherme de Almeida:

    Guilherme de Almeida disse...
    A experiência pode ser feita com comodidade , facilidade e muita evidência com o chamado "Tubo de Newton". Trata-se de um dispositivo tubular em vidro (fechado e com uma torneira acoplada) contendo no seu interior uma pena, um pedaço de cortiça e um grão de chumbo. Com ar dentro do tubo, cai primeiro o chumbo, depois a cortiça e finalmente a pena. Ligue-se o tubo a uma máquina pneumática que extrai quase totalmente o ar que estava lá dentro (do tubo. Fecha-se a torneira por onde saiu o ar, retira-se o tubo de Newton da máquina pneumática e inverte-se o dito tubo de Newton. Resultado: caem os três corpos rigorosamente ao mesmo tempo! Atenção: isto não é um palpite: é uma experiência que fiz muitas vezes para os meus alunos. Virando o tubo, podemos repetir "n" vezes a experiência, para nos convencermos. Depois abre-se a torneira, deixando entrar novamente o ar. Voltamos a ver cair primeiro o chumbo, depois a cortiça e finalmente a pena.
    Fiz também uma outra experiência com o ar normal envolvente, deixando cair uma esfera de aço de cerca de 16 mm de diâmetro e outra de uns meros 5 mm de diâmetro, também de aço, caindo ambas da mesma altura (80 cm). Cronometrada a queda, sem factor humano (dispositivos automáticos de detecção de início e fim de queda), e até ao centésimo de segundo, não houve diferença no tempo de queda.
    É preciso considerar a aerodinâmica dos corpos que caem, a extensão da queda (que pode levar ou não ao estabelecimento da velocidade terminal), etc.
    Boas experiências
    Guilherme de Almeida

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