sábado, 30 de outubro de 2010

A QUEIMA DAS FITAS DE COIMBRA


“Não se exijam ao povo metamorfoses de hábitos e gosto que a tradição lhes inveterou secularmente” (Fialho de Almeida, 1857-1911).

De um oportuno post de João Boavida, professor jubilado da Universidade de Coimbra, intitulado “A universidade nas mãos dos putos”, aqui publicado com a data de ontem, peço vénia para transcrever este breve excerto:

“Note-se que a praxe entre os estudantes, e Elísio Estanque refere-o, é só a parte visível e chocarreira do formalismo que estrutura e continua a estruturar a Universidade, Mas que, curiosamente, as instituições mais recentes se apressaram a copiar numa tentativa de criar uma história e uma tradição que as justifique, lhes dê segurança, talvez até respeitabilidade”.

Na verdade, como nos adverte o autor de “Os gatos”, é muito difícil mudar o formalismo de que enferma uma universidade vetusta, como a Universidade de Coimbra, que, justiça lhe seja feita, tem sabido resistir aos ventos de uma mudança em que a democratização tem sido substituída pelo facilitismo, haja em vista o exemplo das mudanças havidas no ensino superior criando escolas que mais não são do que "liceus superiores", no feliz dizer de alguém. Difícil, e talvez mesmo arrojado, pela possível descaracterização das suas festividades académicas e seu relacionamento estreito com a população não estudantil, quer tenham ou não filhos estudantes.

Mas, para mim, onde João Boavida, com a sua longa vivência da academia Ccimbrã, age com bisturi de hábil cirurgião da massa tumoral de uma má prática académica é na denúncia corajosa das “chocarreiras praxes académicas universitárias” a que, pelo menos em parte, se subtraíram as universidades da capital, Universidade Clássica de Lisboa (1911) e Universidade Técnica de Lisboa (1930), quiçá,pela dispersão das respectivas faculdades e institutos.

Com a criação do ensino politécnico passou a ser mais evidente a tendência para a colagem às tradições universitárias, através da Queima das Fitas da Universidade de Coimbra, em que os seus estudantes, no desleixo do uso completo da capa e batina, se passeiam pela cidade, eles, apenas, com calças pretas e camisas brancas e elas de saia preta e camisa branca, em desrespeito pelo regozijo de um caminho académico responsável. Os excessos da praxe fazem-se sentir de forma mais ampliada entre os alunos do ensino politécnico não sujeitos a um código académico que os advirta de situações extremas, sujeitas a sanções de tribunais civis chamados a sancionar conflitos que fazem perigar a integridade física e moral de estudantes.

Ora, parece-me que a “respeitabilidade” do ensino politécnico passa por criar um espirit du corps que o identifique como tal estabelecendo as diferenças, por exemplo, entre as actividades relacionadas com um uso, apenas de décadas, e uma tradição coimbrã secular. Por assim pensar, num pequeno texto de um dos meus livros, escrevi em 2005:

“De início, nas festividades da Queima das Fitas da Universidade de Coimbra, foi vedado ao ensino politécnico a participação no cortejo dos respectivos carros alegóricos.

Pelo acatamento, embora contrariado, do conselho popular de que 'a boda e a baptizado não vás sem ser convidado', passaram os carros do ensino politécnico a estarem estacionados numa rua que conflui com a Praça do Comércio para aí tentarem receber a graça de se integrarem no cortejo como caudatários. Tempos depois, passam a participar directamente no séquito, embora sob a condição de ocuparem os últimos lugares de um cortejo que assume proporções de corso carnavalesco que, 'ipso facto', se transformou numa mole descaracterizada de carros em desfile de várias horas que nada contribui para um espectáculo condigno de uma festividade académica, um dos 'ex-libris' da 'cidade dos doutores'.

Entretanto, continuam excepcionados de uma festa comum a alunos universitários e politécnicos o 'Baile de Gala' (dedicado, apenas, a finalistas do ensino universitário) e, de cero modo, as 'Noites do Queimódromo', em que cada uma delas é destinada a uma das suas oito faculdades”
(“O Leito de Procusto”, SNPL, 2005, ps. 114-115).

Seja como for, o ensino politécnico já demonstrou ter maturidade suficiente para se constituir num corpus próprio que se distinga e valorize por si próprio sem necessidade do bordão de uma queima das fitas, tradicionalmente universitária. Recentemente foram dados passos nesse sentido por parte do politécnico. Pode ser que a transfusão de um sangue depurado de práticas más possa fazer regressar a Coimbra a dignidade de jovens que aí chegam todos os anos para estudarem e se valorizarem como cidadãos sem a discutível rigidez de uma dura praxis, sed praxis universitária ampliada nos seus defeitos por cópias grotescas sempre piores que os respectivos originais, mas sempre desculpadas.
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Em um afastar de culpas que Eça, atrevo-me a escrever, teria como “a bonacheirice e relassa fraqueza que nos enlaça a todos nós Portugueses, nos enche de culpada indulgência uns para os outros, e irremediavelmente estraga entre nós toda a disciplina e toda a ordem”. Coimbra bem merece duas Queimas das Fitas, uma da Universidade de Coimbra e outra do Instirtuto Politécnico. Ambas disciplinadas e ordeiras!

3 comentários:

  1. Palavrório

    é similar aos dos CNO's que vocês tanto atacam
    e sinceramente já vi melhor

    melhores argumentos em adultos com 30 anos e o 7ºano

    se calhar dever-se-ia dar-lhes regência de cadeiras nas universidades

    Pode ser que a transfusão de um sangue depurado de práticas más possa fazer regressar a Coimbra a dignidade de jovens que aqui chegam todos o anos para estudarem e se valorizarem como cidadãos sem a discutível rigidez
    que é vosso apanágio....

    além de faltarem vírgulas, claro está.

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  2. Qualquer universidade
    tem a sua tradição;
    o que importa, na verdade,
    é pôr termo ao canelão!

    JCN

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  3. Da Queima foi no cortejo
    que meu amor conheci:
    diferente nunca a vejo
    da vez primeira que a vi!

    JCN

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