quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Por culpa de uma certa ortodoxia

Num artigo do jornal Público, Bárbara Wong dá conta de que a Comissão Nacional de Acesso ao Ensino Superior (CNAES) irá propor brevemente alterações à lei de acesso ao Ensino Superior.
Virgílio Meira Soares, presidente desta comissão considera que, se os alunos têm um percurso diferente não podem ser tratados da mesma maneira”. “Temos que dar condições para que nenhum seja prejudicado, mas também que uns não prejudiquem os outros. Todos têm de ter igualdade de oportunidades”, defende (...). Ontem, a comissão chamou os representantes das universidades e politécnicos para decidir que mudanças propor ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior.»
Alterações que a Ministra da Educação não considera relevantes e que são frontalmente contestadas pelo presidente da Agência Nacional para a Qualificação:

«“Não podemos permitir que as portas [do ensino superior] se voltem a fechar por culpa de uma certa ortodoxia”, apela Luís Capucha (...), responsável pelas Novas Oportunidades, criticando os “puristas” que querem o ensino superior só para alguns. “Se há coisa mais pura é o puro preconceito elitista, obsoleto e até ineficiente do que é o ensino superior”, acusa. Se o ensino superior se fechar aos alunos que vêm das Novas Oportunidades “voltaria a cheirar ao bafio do antigamente”, alerta.»

16 comentários:

  1. Responsabilidade fiscal - responde ele no exame da cadeira de Direito Fiscal que lecciono - é "quando as pessoas cidadãos tem o dever de pagar os seus impostos em dia".
    A nota de um valor que lhe lanço na pauta (numa escala de zero a vinte) trazem-no ao meu gabinete para rever a prova.
    - Ó professor, a sério, fiquei surpreendido. Eu estudei e o professor foi mauzinho. Não estava à espera. Não compreendo a minha nota. Um valor professor? Não compreendo.
    À mente vêm-me as palavras de Vasco Pulido Valente sobre a impossibilidade lógica de explicar a mediocridade a um medíocre. E vem-me também a explicação dada por um antigo professor a um colega meu que também jurava não compreender o quatro que recebera. "É natural - esclarecia mansamente esse mestre - se percebesse, não tinha tirado quatro."
    Enchendo-me também de paciência, lá perco o meu tempo a repetir ao aluno reclamante que o conceito de "responsabilidade fiscal" não é um conceito filosófico ou sociológico, mas técnico-jurídico e que se reporta à imposição que a lei faz a certas pessoas (aos gerentes e administradores das sociedades, por exemplo, que podem ser subsidiariamente responsáveis pelas dívidas de impostos dessas sociedades) de assumirem as obrigações fiscais de outras, caso estas não cumpram nem tenham no seu património bens penhoráveis que permitam garantir esse cumprimento.
    Conformado e simpático, ele justifica-se:
    - É que o professor nas aulas utiliza uma linguagem muito difícil que nós não compreendemos...
    E como exemplo de uma "palavra cara" (a expressão é dele) que eu terei utilizado no curso, cita o verbo "jorrar".
    Não tenho a certeza que os alunos que não vieram das "novas oportunidades" sejam muito melhores.

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  2. Vai ver, caro Funes, que se o aluno "premiado" se lembra de fazer uma exposição à Senhora Ministra, relatando a «impreparação verbal» do professor que lecciona a cadeira de Direito Fiscal, reclamando a causa da má avaliação, lhe ser devida... ainda irá ser convocado pelo reitor e "convidado" a frequentar um curso de actualização etimológica... na escola técnico-profissional da 24 de Julho, ou do Bairro Alto...

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  3. Assim não vamos lá!

    Mas nós é que temos a culpa, deixamos que aconteça e não fazemos nada a não ser falar falar e lamentar lamentar.

    SNG

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  4. Mãe de uma aluna que ficou retida (não é politicamente correcto dizer que chumbou!) no 9ºano:
    " não entendo...a minha filha sabe muito mais do que eu e ajudou-me nos trabalhos (N.O., claro!) Eu fiquei com o 12º ano e ela chumba!"
    É preciso dizer mais alguma coisa sobre a qualidade da NO?

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  5. Todo este clamor à volta das Novas Conveniências oportunas resulta, como opinava Montesquieu, do governar por decretos e éditos, que constitui “une mauvaise sorte de législation”, acrescentando que as leis “sont faites pour des gents de médiocre entendement” (“De l’esprit des lois”, ed. Flammarion, Paris,1979: II, 304). Trata-se indubitavelmente de uma imposição ditatorial de resolver problemas através do chico-espertismo.

    Parece oportuno o apoio de Foucault para quem a culpa dos totalitarismos do séc. XX, nunca foi dos governantes, mas sim dos governados. O próprio Hitler o reconheceu quando, momentos antes de se suicidar, exclamou que a culpa do desenlace cabia inteiramente ao povo alemão: pela sua subserviência. E parece que continuamos a ignorarmo-nos do nosso papel.

    Mas este comportamento do regime actual está factualmente descrito por Étienne de La Boétie, no seu manuscrito, com o título elucidativo De la servitude volontaire, ou Le contr’un, publicado em 1835, onde retratou, não o abuso do poder, mas o abuso da obediência.

    A referência à servidão parece compaginar-se com a de Herbert Spencer, que, em 1851, nos relembra The Right to Ignore the State.

    O retrato de como se constrói um ditador, di-lo Étrienne de La Boëtie, desta forma:

    “São sempre quatro ou cinco que mantêm o tirano; quatro ou cinco que lhe conservam o país inteiro em servidão. Sempre foi assim: cinco ou seis obtiveram o ouvido do tirano e por si mesmos deles se aproximaram; ou então por ele foram chamados para serem os cúmplices de suas crueldades, os companheiros de seus prazeres. Esses seis têm seiscentos que crescem debaixo deles e fazem de seu seiscentos o que os seis fazem do tirano. Esses seiscentos conservam debaixo deles seis mil e esses têm milhões” (“Discurso da Servidão Voluntária” , Ed Brasiliense, SP , 1982: 31-32). [No texto francês ínsito no link, este extracto figura a pp 128-129].

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  6. Funes ainda bem que esta em acelarada extinçao nao de 10 metros por segundo quadrado mas de 1000 metros por segundo quadrado.
    Os Funes tem a particularidade de empobrecerem o ensino.
    O mundo que se nos abre sem preconceitos anseia pela limpeza geral desta gente ortodoxa, bafienta e patetica.
    As novas oportunidades representam um avanço na sociedade.
    O argumento do facilitismo defendido por aqueles que consideram que o conhecimento deve estar num pedestal insuportavel de alacançar pelo comum dos mortais a execepçao evidente de alguns iluminados, os Funes; o conhecimento nao e sagrado mas nosso e ao alcance de todos, todos.
    Artur

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  7. Veja-se o exmplo de pessoas que "publicam" no youtube materias complexas de forma acessivel a todos e sem erros cientificos.
    Coloque no youtube equaçoes diferenciais e veja por si ou mecanica quantica.
    Em Portugal!!!! Nem pensar, tinha de tirar um curso para saber equaçoes diferenciais ou fisica geral e digo-lhe que seria arduo de tirar porque saber tal materias complexas exige muitissimo suor e dor.
    Estranho que sendo materias que tratam do nosso mundo, do seu funcionamento ou da nossa interpretaçao do mesmo mas que nos diga respeito a todos, como ser humanos, seja tao inacessivel!
    Aprender e um direito e nao tem de ser arduo, feito a lagrimas e suor mas antes de vontade e alegria em saber.
    Artur

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  8. Meu caro Artur, vou ter que lhe dar uma «nova oportunidade» para se exprimir em português inteligível. Não percebi quase nada do seu argumento.
    Percebi que, para si, o conhecimento não é sagrado, mas, ao invés, está ao alcance de todos. Concordo consigo quanto à natureza não sagrada do conhecimento. Admito também que esteja ao alcance de todos ou, pelo menos, de quase todos. Mas, acredite, para isso é preciso estudar, estudar muito, com muitíssimo suor e dor. E posso garantir-lhe que não é só em Portugal. Em Portugal o problema é até o inverso, o de se tentar aprender sem dor nem sacrifício algum.
    Embora não pareça capaz de o compreender, ao longo da História só é conhecido um episódio em que a ciência desceu infusa sobre a cabeça dos felizes contemplados e se entranhou neles de tal forma que começaram logo a falar vários idiomas que desconheciam. Não é credível que o milagre volte a repetir-se.
    Finalmente: o Artur chama-me iluminado. É relativamente comum chamarem-me isso. Mas não é título em que eu me reveja. Se pudesse escolher, gostaria de ser tratado por vice-Deus. Apesar deste desejo, estou em condições de lhe jurar por minha honra que não tive qualquer responsabilidade na criação deste nosso mundo. Não posso assim valer-lhe na estranheza que manifesta pela complexidade das regras que regem o seu funcionamento. Mas prometo-lhe solenemente: se um dia chegar a compreender os mistérios do nosso universo, faço-lhe um desenho. E coloco-o no Youtube.

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  9. Caríssimo Funes,
    é natural que não tenha compreendido o meu texto porque facilmente deduz-se do que escreveu que o Funes padece de um ego exponencial e portanto cega-o ou melhor impede-o de compreender além do seu próprio "quintal".
    Quanto ao não me poder valer de uma suposta estranheza a que me referi, esclareço que dei a titulo de exemplo a questão da Física ou seja o facto desta ser aparentemente um campo de difícil acesso para a maioria das pessoas quando devia ser o contrário; e isto porque há uma cambada de patetas ou melhor de Funes que se armam em proteger o conhecimento tornando-o complexo, árduo de obter o que é fácil e de direito UNIVERSAL.
    Quanto ao "acredite que é preciso estudar muito" deixe-me responder-lhe que para si deve ter sido dado que sendo de letras teve ter tido de "marrar" bastante, decorar toneladas de informação para debitar como um papagaio, ao contrário de mim, que fui e sou de ciências EXACTAS e portanto obter conhecimento para mim foi divertido e continua.
    Quanto ao "nova oportunidade" ou deva escrever novas oportunidades, acrescento que felizmente alguém teve a coragem de dar esse avanço civilizacional, ao permitir que cada um, ao seu ritmo, e com as suas farramentas próprias possa aprender sem ter de ser depositado no convés da sociedade e isto para que alguns palermas se sintam no direito de se acharem superiores. Quanto ao "não só em Portugal" permita-me classificar a sua afirmação como pedante.

    Artur

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  10. "Aprender e um direito e nao tem de ser arduo, feito a lagrimas e suor mas antes de vontade e alegria em saber."

    Para aprender alguma coisa nova é sempre difícil. Essa ideia peregrina de que aprender deve ser uma festa está lentamente a afundar o país.

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  11. Rafael, aprender uma coisa nova não deve ser difícil:
    Essa "lei" separa as pessoas e é discriminatória e torna o conhecimento indesejável.
    Conhecer coisas novas é EXTRAORDINÁRIO e deve ser fácil, SEMPRE.
    Vou-lhe dar um exemplo, O MONSTRO DA RELATIVIDADE RESTRITA.
    Expliquei à minha namorada alguns dos pilares desta teoria e sabe, ela respondeu-me no fim,
    - Só isso?
    Evidente que não aprofundei a questão nem era de interesse mostrar-lhe a matemática que estava subjacente a todas aquelas conclusões mas a verdade é que ela compreende por exemplo porque é que surge diferença de tempo relativamente a dois referenciais em movimento relativo e sabe quantificar segundo a fórmula conhecida.
    Artur

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  12. Meu caro Artur,

    Desta vez, o seu texto é inteligível e fez-me lembrar Adolfo Simões Mullër e a sua obra "Os Lusíadas contados às crianças e lembrados ao povo".
    O Artur confunde conhecimento com ter umas luzes.
    No dia em que a minha filha nasceu quis fazer uma coisa que marcasse esse dia. Li um livrinho intitulado "O último teorema de Fermat". Percebi tudo e fiquei com uma ideia da coisa. Como percebi tudo quando li recentemente o primeiro número de uma nova colecção de divulgação matemática intitulado "A proporção áurea". Como percebi tudo sobre a teoria da relatividade (restrita e geral) e sobre os números transfinitos que li numa colecção de livrinhos de divulgação publicada há uns 20 anos.
    Simplesmente, perceber tudo não significa que eu seja capaz de demonstrar o último teorema de Fermat ou de acompanhar cada um dos passos dessa demonstração. Como perceber o livrinho da teoria da relatividade não implica que eu faça alguma ideia de como lançar uma nave no espaço, aproveitando a gravidade de Jupiter para a fazer chegar até Urano ou Neptuno.
    Perceber tudo significa normalmente que não se percebeu nada.
    Ora, conhecer implica dominar um assunto, compreendê-lo na sua dimensão global. Não, ter umas luzes sobre a coisa e proclamar que olhar o céu é olhar o passado ou que o tempo se contrai com o aumento da velocidade e que dois relógios acertados entre si marcam horas diferentes depois de uma viagem a velocidades diferentes, com uma delas próxima da velocidade da luz.
    Por muito que lhe custe admitir, estudar uma ciência é muito mais do que ver uns filmes no Youtube ou ler uns livros (de resto, excepcionalmente meritórios) de divulgação da Gradiva. Eu, que não sou físico nem matemático, posso ver esses filmes e ler esses livros com enorme prazer e proveito. Mas em circunstância nenhuma contratava um físico ou um matemático cuja formação se reduzisse a tais filmes e leituras. Como estou certo que o Artur, se um dia se tornar necessário, não vai colocar o seu caso nas mãos de um advogado cujos conhecimentos jurídicos derivem da leitura de "O advogado em casa", da velha colecção de livros de bolso da RTP.
    O prazer e a alegria do conhecimento são privilégios de dois tipos de pessoas: de quem faz do ter umas luzes um hobby fora do seu projecto de vida (como eu, por exemplo, em relação à Lógica e a alguns temas da Matemática) e de quem superou a fase difícil e custosa da aprendizagem e atingiu o deleite de chegar a dominar (dentro das humanas limitações) uma qualquer área do saber.
    Não nos iludamos: quem quiser chegar a Maria João Pires e tocar divinamente Chopin tem obrigatoriamente de passar pela aprendizagem dolorosa e fastidiosa do Dó, Ré, Mi. Não há outra maneira e, como salientou Rafael Ortega, pensar o contrário é pregar um prego no caixão do país.
    Numa coisa sou forçado a dar-lhe razão: anda por aí (especialmente em certas escolas filosóficas francesas) muita treta barata e vazia que é vendida como se fosse ciência e embrulhada num linguajar hermético e cerrado, destinado justamente a ocultar o seu essencial vazio. Mas esses já foram denunciados por Skodal (era assim que se chamava o denunciante, não era?). Não me confunda, por favor com essa gentalha. Ao contrário da imagem que formou de mim (e que eu, por certo alimentei) não defendo que o conhecimento deva ser servido numa linguagem inacessível. Defendo, sim, que há conhecimento que, em si mesmo, é complexo e postula o domínio de uma linguagem complexa (designadamente, matemática) cuja aprendizagem não logra alcançar-se sem esforço e suor.
    Finalmente, duas notas:
    1- Não sei exactamente a que se refere quando fala em "CIÊNCIAS EXACTAS".
    2- Chama-me pedante. Não posso desmenti-lo. Escrever na caixa de comentários de um blog e manter uma polémica nessa caixa significa que quem o faz se acha suficientemente importante e digno de ser lido. Nessa ilusória vaidade consiste precisamente o pedantismo.
    Seja como for, terem sido avançados por um pedante não desmente, só por si, a validade dos argumentos que aduzi.

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  13. O Artur deve ser um jovem estudante que ingressou no ensino superior há pouco tempo. Como tal, deve ter feito todo o ensino secundário a assobiar para o ar convencido de que sabe imenso. Artur, você não sabe imenso.

    Se estiver a frequentar uma universidade não muito má, suponho que se vá começar a aperceber que há que trabalhar muito para poder ter esse tal gozo que é perceber algo com clareza e em profundidade.

    Se quiser fazer carreira em investigação, espero que tenha optado por uma universidade que puxe por si o suficiente para conseguir ganhar disciplina de trabalho e endurance.


    Finalmente, veja se melhora a sua expressão escrita, está mesmo muito pobrezinha.

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  14. Caro anónimo Brazileiro, relativamente à expressão escrita deixe-me dar -lhe alguns exemplos seus pobrezinhos:
    -"não muito má"; "que se vá começar a aperceber"; " a assobiar para o ar.
    Quanto ao facto de me interpretar como alguém que julga que sabe imenso não compreendo como é que deduziu tal afirmação! Penso que está com a leitura enviesada.
    Como é que sabe que eu não sei imenso?
    Conhece-me?
    O que é imenso?
    Escrevo que antes de tudo deve ter um espelho, olhar bem para ele e depois criticar.
    Artur

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  15. É este o status quo! Não se admirem por tantos o defenderem com unhas e dentes, é que é graças a ele e à entropia por ele lançada que se alimentam todos os dias...

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  16. Caro Artur, dei-lhe um conselho sincero e bem-intencionado. Não percebo essa reacção exaltada e com laivos xenófobos. Já percebi que não vale a pena.

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1) Identifique-se com o seu verdadeiro nome.
2) Seja respeitoso e cordial, ainda que crítico. Argumente e pense com profundidade e seriedade e não como quem "manda bocas".
3) São bem-vindas objecções, correcções factuais, contra-exemplos e discordâncias.