terça-feira, 31 de agosto de 2010

"A investigação que não usamos"

Grande parte dos trabalhos de investigação sobre questões educativas é feita em instituições de ensino superior, no âmbito de projectos, de trabalhos de doutoramento e de mestrado.

No texto de Guilherme Valente e a propósito dele (aqui e aqui), debate-se no De Rerum Natura a ideia de que esses trabalhos:
- são "irrelevantes para o conhecimento, para o ensino, a escola e os alunos";
- têm conduzido a educação ao (mau) estado em que ela se encontra.

Ambas as ideias são discutíveis e devem ser discutidas. Nesse sentido, recorro a um texto de Ana Maria Morais (in Público, Sábado, 7 de Janeiro de 2006), onde se explica que:
- nesta, como noutras áreas, produzem-se trabalhos com e sem qualidade científica, sendo que muitos dos que têm qualidade, podendo ser relevantes para o conhecimento, para o ensino, a escola e os alunos, são sistematicamente desprezados por quem tem o poder real de decidir os caminhos da educação escolar;
- assim, o (mau) estado da educação não se pode atribuir directa e linearmente aos investigadores da Educação, dada as determinações políticas que estão subjacentes a essas decisões.

"Têm sido muitos os que vêm culpabilizando as Ciências da Educação pelo actual estado de coisas. Não seria justo deixar para as Ciências da Educação todo o ónus da colossal falha da educação actual. Muito deve ser imputável a factores de decisão política. Mas também são muitos os professores e investigadores que têm vindo a ser responsáveis pela educação que temos. Uns por intervenção directa, como construtores de novas reformas e formadores de professores. Outros por omissão, porque se limitam ao papel de preparar os seus próprios alunos, futuros professores, e de desenvolver investigação que não ultrapassa o nível académico (...).
É necessário dizer aos decisores de política educativa e aos cidadãos em geral que há outras formas de organizar a educação. Que há investigação que suporta essas outras formas. Que é urgente aumentar o nível de exigência conceptual. Que não é uma inevitabilidade que o nível de educação baixe perante a inacção colectiva (...).
No que respeita, em particular, à avaliação dos alunos com recurso a exames, que também se aflorou nesse debate, se dúvidas houvesse quanto à afirmação da sua importância, esta professora de pedagogia não pode ser mais clara:

"... os exames são uma necessidade absoluta (poderemos inventar outro tipo de mecanismo regulador?). Mas, e este é um aspecto da máxima importância, exames que não se limitem à tradicional avaliação centrada em níveis baixos de literacia mas que avaliem conhecimentos e capacidades de elevado nível cognitivo. Tais exames iriam levar os professores e as escolas a modificar o nível de aprendizagem que promovem (...) Também aqui podemos encontrar investigação que suporta esta afirmação.
Temos a clara consciência dos múltiplos problemas que os exames podem acarretar, problemas que, contudo, têm vindo a ser sobrevalorizados (...) Numa cultura de sobreprotecção de crianças e adolescentes, todo o esforço, exigência e rigor têm sido desprezados, desprezando-se assim uma preparação necessária à vida activa dos futuros cidadãos.

Esta educação que temos não é educação. Falemos antes da educação que não temos... e da investigação que não usamos."

3 comentários:

  1. José Batista da Ascenção1 de setembro de 2010 às 12:18

    Só podemos falar da educação que não temos depois de falarmos, tanto quanto possível, da (miséria) de educação (?) que temos tido.
    Há investigação que não usamos? Pois há. Mas então, os que a realizam devem juntar a sua voz aos que se queixam e lutam para que optemos por outros caminhos.
    É que já ontem era tarde.
    E é dever de todos recusar a estupidez formal e autoritária a que nos têm obrigado. Ou pelo menos denunciar, gritar, enfim...
    É isso que aqui se tem feito.
    Continuemos pois. Porque não é o bem que está mal. O que está mal é o mal que deliberada e forçadamente nos impingem como se fosse o bem.
    E todos seremos poucos.

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  2. Por minha parte, diria que afirmar que foram as ciências da educação que conduziram a educação a «este estado de coisas» é uma afirmação que mereceria ponderação sociológica. Manifestamente, ciência a que muitos julgam poder furtar-se com base na lógica do preconceito. Senão, vejamos: afirmar a preponderância do conhecimento e duma forma particular de conhecimento (o das ciências da educação tal como produzidas nas universidades portuguesas) na estruturação de um campo social é algo que carece, no mínimo, de prova empírica. Não falo de «exemplos» ou ilustrações, mas de um quadro teórico bem afinado, uma metodologia de observação bem organizada e uma recolha e interpretação de dados cuidadas. Pelo menos. Nem vale a pena dizer mais, certo? Pois é: enquanto a discussão continuar na lógica do preconceito, mais ou menos escamoteado, isto vai...

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  3. Cara Helena Damião,

    Quando os decisores ouvem falar em trabalhar, a coisa fica difícil e assim decidiram ouvir os vendedores da banha da cobra.

    Os decisores políticos gostam de resultados de curto prazo e de populismo. Como os "cientistas" e "especialistas" da educação vendem facilidade e resultados imediatos e uma boa parte do eleitorado quer uma escola muito fácil e muito gira para que não lhes dê trabalho acompanhar os estudos dos seus educandos e quer ainda que a escola guarde os seus filhos o maior número possível de horas, é evidente que foi este o discurso vencedor...

    Como podem os nossos decisores políticos optar por uma solução que não apresente resultados de curto prazo, exija muito trabalho a professores, alunos e encarregados de educação e termine com uma imensidão de direcções, comissões, conselhos, escolas superiores de "eduquês", etc. ? Será que é isto que o eleitor quer? Tenho muitas dívidas...

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