sábado, 31 de julho de 2010

Nomes próprios e apelidos

Comentários no meu post, “José Hermano Saraiva ‘versus’ José Saramago” (25/07/2010), sobre o apelido de pessoas com consoantes dobradas, sugerem-me este pequeno texto sobre nomes próprios que criam, por vezes, situações embaraçosas. Senão vejamos:

Uma Sofia ignorante? É uma questão de antonímia!

Ana é um doce nome de mulher. Perde a musicalidade com o casamento: senhora D. Ana. É uma questão de estado civil!

Uma feia Anabela, não se livra do comentário. “Anabela? Hum! Ana…feia! É uma questão de genética!

Minha Mãe teve uma amiga, de sua graça Felisbela que, de quando em quando, pondo os olhos em alvo, em longo e inconformado suspiro, dizia: “Bela não direi que não, agora feliz?!” Em boa verdade, era muito, mas mesmo muito, infeliz. Tanto como uma desgraçada nubente a quem o noivo foge, com a sua melhor e bela amiga, na véspera da boda. Mas essa não a sua desdita maior: era bem mais feia do que infeliz! Feia como as coisas feias. Apesar de tudo, tivera sorte. Ninguém se chama Infelizfeia! É uma questão de bom senso!

Há também aquela história verídica de um pai que à pergunta do funcionário da Conservatória do Registo Civil sobre o nome a registar à filha, respondeu: “Prante-lhe Ana”! E ela ficou “Prantelhana”. É uma questão de um regionalismo desconhecido do funcionário e de cacofonia!

Para terminar, agora, uma questão de apelido embaraçoso. Acerca de uma polémica, recordo-me de uma verrinosa resposta de Camilo a um literato brasileiro – cito de memória, sem garantir a exactidão dos nomes - que, de terras de Santa Cruz, encarregou alguém de Portugal de tirar um desforço físico do violento polemista de São Miguel de Seide. Sabedor do caso, respondeu Camilo no mesmo jornal: “O senhor António da Silva Filho deputa e delega no senhor fulano de tal a incumbência de me espancar". É uma questão de filiação!

Outros exemplo há, mas que normas da boa educação desaconselham a referência...

11 comentários:

  1. Boa colheita de disfunções onomásticas! JCN

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  2. Caro Professor JCN:

    Agradeço-lhe os seu comentários referenciados, embora não transcritos, neste post. Foram eles o "leitmotiv" deste meu despretensioso (mas não despropositado, julgo eu!)texto.

    Já o tenho escrito, e repito: os comentários, por vezes, são o mote para que um post surja, sem ser um tanto ou quanto, metido a martelo..

    Ademais, se são feitos com fina ironia, como foi o caso dos seus!

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  3. Prezada Marta:

    Do meio cultural e académico brasileiro, surge um comentário da sua pena, que muito me sensibilizou por em duas palavras, utilizando uma riqueza de expressão tão peculiar dos brasileiros, ter dito mais do que aquilo que a minha escrita merece.

    Seja como for, e servindo-me de uma expressão
    bem portuguesa:Bem haja!

    Um abraço grato.

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  4. Lembram-se de um General Buceta Martins que esteve para ir ao Brasil numa comitiva de um visitante (não me recordo qual)?
    Pois o homem teve de ser retirado da comitiva a pedido dos brasileiros.

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  5. Anónimo (31 de Julho, 17:27):

    Ora aqui está uma maneira elegante de relatar um acontecimento que dito de forma grosseira a boa educação não só desaconselhava como até reprovava num tempo em que a linguagem mesmo obscena assumiu o papel do calão de há poucos anos para cá.

    Mesmo que possa ser tido como bota-de-elástico, que a minha idade desculpa, eu sou do tempo - ainda que não da época em que a velhinha do anúncio da televisão dizia que um quilo de arroz custava o que custa hoje uma mão cheia de grãos desse cereal - em que o meu Pai me chamava a atenção para a palavra chatice, dizendo-me: "Isso não se diz!". Deve dizer-se aborrecimento!

    Já nesse tempo, eu sabia que eram palavras sinónimas, embora com significados ligeiramente diferentes. Ir a um filme que nos dava sono era um aborrecimento. O mesmo assistirmos a uma aula monótona de um professor monocórdico. Agora sermos massacrados por algo que nos incomoda constantemente é uma chatice.Essa distinção deixou de ser feita,e a palavra chatice vingou em toda a linha.

    Deparei-me, em tempo, com uma expressão bem típica para demonstrar o desagrado por um filme sem interesse e muito extenso, dizendo tratar-se de “um filme chato e comprido como o peixe espada!”

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    1. No Brasil, além de utilizarmos aborrecimento e chato, também utilizamos "xarope". (enjoativo)

      --Puxa, deixa de ser xarope e para com isso menino!

      --Vamos embora, rápido, lá vem o xarope do Gilrikardo, ninguém agüenta aquelas histórias de futebol.

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  6. Lembro-me do Jô Soares contar que um jornalista brasileiro disse uma vez que estava de visita ao país a grande escritora portuguesa: Sara Mago.
    Lembrei agora desta treta nem sei porquê...
    luis

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  7. A onomástica brasileira e africana é pródiga na liberdade imagética, mas Platão no seu "Crátilo" apresenta curiosas congeminações sobre a origem dos nomes.

    Lembro-me de ter lido numa revista de literatura a infinidade de nomes excêntricos e inimagináveis, um deles como registo histórico associado à eleição de Juscelino. Determinado cidadão que o apoiava teve um filho antes da eleição e atribuiu-lhe o nome de Juscelino Ganhará. Quando teve o segundo filho, depois da vitória do Presidente brasileiro, ficou com o nome de Juscelino Ganhou.

    A este propósito vale a pena ler, da brasileira Mary Julia Martins Dietzsch, Crátilo e a Origem dos Nomes, publicado na Revista Internacional d’Humanitats, 12, de 2007, da Universidade Autónoma de Barcelona.

    Para quem tiver tempo e disposição para ler o Crátilo, em inglês, basta bater à porta de Platão.

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  8. Meu caro João Boaventura:

    O Brasil, como diz,e apresenta exemplos, é o paradigma de nomes estranhíssimos e, pior do que isso, ridículos. Será que além-Atlântico não existem conservatórias do registo civil que proibam essa proliferação?

    Se fosse essa lacuna também portuguesa, não haveria o perigo de aparecer uma criança baptizada com o nome Manuel Perdeu Outra Vez, por exemplo?

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  9. Aqui no Brasil temos o clássico caso do Millôr Fernandes, escritor, jornalista, pensador, recentemente falecido. Na verdade, seu pai ao registrá-lo disse "Milton", mas devido à caligrafia do cartorário, o traço da letra "t" deslocou-se para cima da letra "ô" parecendo um circunflexo, e para ajudar, a letra "n" ficou mais parecida com "r". Assim, nosso querido escritor tornou-se Millôr, talvez, único no mundo.

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