Quarta-feira, 14 de Julho de 2010

A educaçãorrota

O (extracto do) texto que se segue, da autoria de Santana Castilho e publicado no jornal Público, (23 de Junho) tem quase um mês, mas (infelizmente) não perdeu actualidade. Os problemas da educação afiguram-se crónicos e irresolúveis!

"Aos Magalhães, aos quadros interactivos e a toda a corte de gadgets electrónicos, enganosos salvadores da ignorância que floresce, acrescentam-se agora os gadgets pedagógicos e organizacionais do momento: a learning street e os megagrupamentos de escolas. Sob os auspícios da Parque Oculta (...) as direcções regionais iniciaram a fusão dos agrupamentos existentes. Trata-se de arrebanhar crianças de tenra idade, retirá-las do seio familiar contra a vontade dos progenitores e abandoná-las numa comunidade de milhares de alunos com idades que vão até aos 18 anos (apontam os 3000 como limite, mas com a credibilidade que lhe conhecemos, só eles sabem onde a loucura os pode deter).

Perfilam-se surreais ligações administrativas e pedagógicas de escolas separadas por dezenas de quilómetros, com projectos educativos tão idênticos como a velocidade e o toucinho. Adivinham-se os inerentes megagrupamentos de docentes e a megamobilidade dos ditos, com o primeiro tempo da tarde a quilómetros do local onde leccionaram de manhã (...). Com esta desumana fórmula de gerir escolas, a decantada qualidade do ensino deteriorar-se-á ainda mais. Desaparecerá a gestão de proximidade que o acto educativo não pode dispensar. O que restava da pedagogia cederá passo ao centralismo administrativo que, sendo já mau, agora fica gigantescamente deplorável. O caciquismo vai refinar-se, a burocracia expandir-se e a indisciplina aumentar. Não esperem que se aprenda mais ou que o abandono e o insucesso escolar diminuam. Só florescerá a aldrabice das estatísticas e a crista dos galos que permanecerem nos poleiros.

Toda a lógica gestionária, entronada há apenas um ano como a (e sublinho o artigo definido) solução, já vai de arrasto, directores às urtigas, órgãos dos agrupamentos às malvas. Não é exequível qualquer projecto educativo com tais loucos ao leme. Não são criminosos no sentido penal do termo. Mas são hediondos criminosos pedagógicos. Não só escaqueiraram o que encontraram, como deixam armadilhado o caminho dos que se seguirem, que outra alternativa não terão senão voltar a virar tudo do avesso, salvo se forem tão insanos como eles.

O sistema educativo não aguenta tamanha instabilidade. Tudo o que possa ser sério e válido é visceralmente incompatível com este tumulto. Para fazer o que a nação reclama que seja feito, quem se seguir tem que se alicerçar num diálogo social e num pacto político que gere estabilidade à volta do que é estruturante. Doutra forma o sistema soçobra. Percebo bem que os portugueses se preocupem com a bancarrota.

Não entendo que não reajam à "educaçãorrota". Depois de lhes sacrificarem os filhos, ainda não se dispõem a defender os netos? O ano lectivo vai terminar de forma grotesca. De fanfarronada em fanfarronada, os sindicatos foram ao tapete: cederam na aberração da avaliação do desempenho; aguardam com a paciência dos desistentes um estatuto de carreira por promulgar que, em boa verdade, só muda as moscas; assistiram ao sacrifício dos contratados e ao adiamento de tudo o que libertasse os professores da escravidão em que caíram. Pactuaram quando tinham que ser firmes. Persistiram no erro quando puderam reconhecê-lo. E, não contentes, espadeiraram contra os que estavam do seu lado, cegos pela ganância de não partilharem o protagonismo das negociações eternas.

Cabe aos professores rejeitarem vigorosamente o papel de simples sujeitos mercadoria que o gadgetismo irresponsável lhes reserva, impondo-lhes, como se desejo seu fosse, toda a sorte de porcaria perniciosa. Mas não cabe só aos professores. É tempo de (...) dizer (...) a dissimulada mas escandalosa privatização do Ministério da Educação, que o polvo da Parque Escolar vai sorvendo; dizer, com urgência, se acompanha ou não a subalternização da sala de aula e a substituição do ensino pelo entretenimento atrevido e ignorante do "eduquês" pós-moderno (...)."

5 comments:

  1. Mas um texto acertado e corajoso de Santana Castilho. Admiro muito este Professor Universitário. É dos poucos professores deste grau de ensino que observa com atenção como os professores do ensino secundário foram funcionalizados e as escolas politizadas.

    Teve e tem a coragem de dizer na cara dos complexados com o 25 de Abril que o PREC nas escolas tem que terminar. Teve e tem a coragem de dizer na cara e na casa dos liberais que não é a privatização deste sector que vai resolver os problemas instalados, antes pelo contrário.

    Sempre apontou o dedo aos vendedores da banha da cobra.

    Agradeço muito o seu serviço cívico e desejo-lhe coragem para assim continuar.

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  2. Fala-se de um governo europeu para a economia. Devia-se também falar de um governo europeu para a educação. É óbvio que os políticos portugueses não dão conta do recado. Precisamos que mandem em nós!

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  3. José Batista da Ascenção14 de Julho de 2010 17:29

    Sim, este como outros textos de Santana Castilho diz o que deve ser dito e o que (não) deve (devia) ser feito.
    Também eu lhe sou grato.

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  4. Infelizmente, não tive oportunidade de ler o texto integral. Obrigado pelo excerto que aqui colocou.

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  5. Não li o texto integral. Parece-me que a abordagem de Santana Castilho é muito mais objectiva nas críticas que faz ao ensino actual. Só usa uma vez a palavra eduquês e indica claramente o que entende por ela: "entretenimento atrevido e ignorante".

    Quanto ao gadgetismo electrónico, estou 100% de acordo com ele. Perdeu-se completamente a noção do que é essencial e do que é acessório, do que é meio e do que é fim. Conspiração? Só se fosse das empresas que produzem e comercializam os gadgets. O que há é um tremendo aproveitamento político do provincianismo, da ignorância generalizada sobre tecnologias.

    Quanto ao gadgetismo organizacional, penso que se trata mais ou menos do mesmo. O que antes já se vinha a fazer em relação aos programas escolares foi agora transposto para a organização das escolas. Mas alguém esperaria que um primeiro ministro que fez a guerra que fez aos professores na legislatura passada tivesse alguma preocupação com a educação? Mais uma vez provincianismo (agora mais sofisticado) daqueles que achavam que qualquer avaliação era melhor do que a que havia.

    Quanto ao entretenimento atrevido e ignorante, combate-se com o trabalho bem pensado. Ao contrário daqueles que pensam que o ensino tem que ser chato e doloroso para ser eficaz (nos tempos que correm há muita gente que defende a inflição de dor económica e outra como método), creio que a vida vivida a sério é suficiente para ser educativa. Tal como no desporto, um ensino bem feito tem momentos em que é necessário fazer esforços, suportar coisas desagradáveis, etc. Não devemos fugir disso mas não devemos procurar isso como objectivo.

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