quarta-feira, 23 de junho de 2010

O Mundial de 2010, Carlos Queiroz e Miguel Esteves Cardoso

esf “O que finalmente mais sei sobre a moral e as obrigações do homem devo ao futebol” (Albert Camus, 1923-1900).

Não posso deixar de lamentar a intervenção de Sílvio Cervan, comentador num programa desportivo televisivo da SIC, um dia após a vitória de Portugal sobre a Coreia do Norte por um expressivo 7-O.

Em testemunho pouco propício a uma análise desapaixonada, desmereceu Sílvio Cervan a vitória de Portugal, cantada nos quatro cantos do globo, com o argumento de que a equipa da Coreia do Norte era a mais fraca do Campeonato Mundial de Futebol. Ou seja, Sílvio Cervan dixit, esquecendo-se que o Brasil, sendo um dos países mais cotados para ascender ao ceptro deste mundial, teve dificuldade em vencer esta equipa da Coreia do Norte, ainda que mesmo pela diferença de um único golo. Aliás, equipa que era tida, quase unanimemente, como uma séria ameaça para a equipa portuguesa.

Num meu post aqui publicado (09/06/2010), intitulado “Miguel Esteves Cardoso, o futebol e a política”, reproduzi na íntegra um seu artigo, saído em “O Jogo” (08/06/20), com o título “Que Ganhe Moçambique”, que tive, como escrevi na altura, como “apaixonante prosa que merece ser lida por amantes ou indiferentes do futebol, intelectuais ou simples letrados”.

Por esse motivo, passei aí a ler as crónicas diárias de um homem da cultura portuguesa porque, como escreveu Jurgen Roth, "o futebol e os intelectuais têm uma relação íntima ao mais alto nível". No passado dia 20 de Junho, por exemplo, escrevia Miguel Esteves Cardoso (MEC) numa crónica com o título, “Contra o treinadorismo”:

“2010 representa o pico do poder dos treinadores. Mourinho é um dos culpados. Ele faz a diferença. Mas o mesmo não se aplica a treinadores menores. E muito menos a todos os treinadores. Os treinadores forçam os jogadores a jogarem em posições onde não jogam bem. Não admitem qualquer discordância. Tanto em Capello como em Queiroz como em Domenech, para não dizer todos os treinadores excepto três ou quatro, pressente-se um autoritarismo absurdo e ineficaz”.

Seja aqui recordado, o exemplo de insulto do mais baixo e reles, por parte de um jogador da equipa francesa a este mundial, a Domenech. Relativamente, a crítica de Deco a Carlos Queiroz, ao ser substituído quase no final do jogo com a Costa do Marfim, assume as proporções de uma birra de menino mimado. O seleccionador nacional, ao aceitar o desabafo de Deco, sanando prontamente a situação, não merece, de forma alguma, a simples suspeita de estarmos em presença de um “autoritarismo absurdo e ineficaz”. Hoje, atrevo-me a julgar que MEC concordará comigo.

No dia a seguir à vitória de Portugal sobre a Coreia do Norte, na sua crónica igualmente em "O Jogo", intitulada "O primeiro dia de verão", contrastando com "O inverno do nosso descontentamento" anterior, apropriando-me do título de um romance de Jonh Steinbeck, MEC teve a nobreza de carácter de reconhecer o seu erro sem recorrer à desculpa esfarrapada da má qualidade da equipa norte-coreana que entrou em campo com a responsabilidade de uma espécie de jogo de vida ou de morte pelas consequências gravosas em não conseguir satisfazer os objectivos políticos exigidos por um dos últimos, e tido até como o mais opressor, redutos do comunismo mundial.

Cito desta última crónica dois breves excertos: “De nada serve dizer mal da Coreia do Norte. O Brasil não foi além de 2-1 contra eles [sem desmerecimento do Brasil, mesmo contando com a “distracção” de um árbitro que não assinalou um golo ajeitado com o braço]. Desconjuntaram-se. Porque Portugal os desconjuntou”. E logo acrescenta, em jeito de mea culpa: “Tenho de tirar o chapéu a Carlos Queiroz. Confesso que o detestei e desconfiei dele. Afinal, o plano dele – empatar com a Costa do Marfim, golear a Coreia e perder à vontade com o Brasil – era mesmo inteligente. Custa-me admitir, mas ele tinha mesmo razão. Ainda bem que não fui eu”.

Com todas as televisões nacionais a repetir, ad nauseum usque, o jogo excepcional de Portugal e na idiossincrasia de um povo que passa do oito ao oitenta, sem se contentar com uma vitória à tangente ou simples empate, terão razão os que embandeiraram agora em arco considerando como adquirido um resultado folgado de Portugal sobre o Brasil? Sexta-feira próxima se verá porque, como escreveu Mark Twain, “a profecia é algo muito difícil, especialmente em relação ao futuro”.

Na imagem, o troféu do Campeonato do Mundo em ouro maciço.

2 comentários:

  1. Independentemente do que V. diz das opiniões de Sílvio Cervan (que é das mais irritantes figuras da tv portuguesa, mesmo se entendido no eixo do painéis futebolísticos) parece-me que lhe está a escapar a típica auto-ironia de Esteves Cardoso

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  2. Caro JPT:

    Quanto à prosa de MEC, neste caso,
    julgo que não. Mas concordo com a interpretação que faz de uma"auto-ironia" característica da maioria da suasua prosa.

    No que respeita a Sílvio Cervan, subscrevo a sua opinião. A sua exaltação dialogante não lhe consente uma análise desapaixonada e calma...como aconteceu, uma vez mais, no exemplo por mim apresentado.

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