sábado, 26 de dezembro de 2009

Pode a Educação Especial deixar de ser especial?

É comum supor-se que as pessoas da pedagogia (e das ciências da educação em geral) comunicam nessa “linguagem perigosa” a que o Prof. Marçal Grilo chamou «eduquês» e que muito bem definiu como uma “trepadeira de palavras um pouco sem sentido”. É comum pensar-se também que, em termos epistemológicos, tais pessoas se acomodam na linha dura do pós-modernismo, sendo, nessa medida, avessas a qualquer raciocínio científico (o raciocínio que se baseia na lógica e na evidência empírica para se chegar à verdade objectiva), escudando-se numa estranha ideologia, onde se misturam opiniões mal urdidas do senso-comum, tendências políticas e reivindicações sociais.

Entendo que este retrato está longe de abarcar a totalidade do real. E explico porquê: ainda que se aplique a algumas pessoas que trabalham e opinam na área da educação, não se aplica a outras que adoptam as regras de pensamento que a ciência tem por necessárias.

Chega-me às mãos um livro coordenado por duas destas pessoas: uma portuguesa - João A. Lopes, da Universidade do Minho - e outra americana - James Kauffman, da Universidade da Virgínia -, onde o «politicamente correcto» e as «ideias correntes» só são contempladas para serem devidamente desmistificadas.

De facto, neste livro, que tem por título Pode a Educação Especial deixar de ser especial? e está escrito de forma admiravelmente compreensível, os autores, além de tratarem científicamente e no quadro dos saberes actuais a questão da educação especial, explicam em pormenor os gravíssimos erros em que os sistemas de ensino têm incorrido ao adoptar para esta área tão crítica um enquadramento pós-moderno, de teor marcadamente acientífico.

São as palavras do prefácio, de João Lopes, que melhor explicam o espírito da obra, pouco comum no nosso panorama educativo:

"Este livro tem como objectivo apresentar uma perspectiva da educação especial que, no entender dos seus autores, veicula a melhor evidência científica disponível relativamente aos assuntos que nele são abordados. É importante salientar este aspecto, porque (…) o denominado relativismo pós-moderno tem impregnado a educação especial com ideias e concepções que não só não têm em consideração a investigação desenvolvida nesta área, como a reduzem à condição de «opiniões entre opiniões». Neste contexto, aquilo que é característico da ciência (como por exemplo o valor da prova ou evidência) é frequentemente apresentado como inútil, quando não nefasto.

Os movimentos científico não conhecem fronteiras e, por isso (…) é possível constatar que as questões fundamentais com que se debate a educação especial em Portugal e nos Estados Unidos são perfeitamente miméticas. Digamos que o sistema português constitui uma cópia tardia do sistema americano, não tendo infelizmente aprendido com os erros deste último (…)
A educação especial é possivelmente um dos sectores em que é mais fácil vender ilusões, avançar com soluções milagrosas e invocar falsos sucessos (…).

O ponto é que, na educação especial estratégias sem suporte científico, como a inclusão de alunos deficientes em salas de aula regulares ou conceitos sem validade diagnóstica ou categorial como as denominadas «necessidades educativas especiais». são tomadas como verdades inequívocas ou dogmas, pelo que se dispensa qualquer investigação ou sequer discussão a seu respeito.

Este livro pretende marcar uma posição de defesa dos métodos da ciência, na educação em geral e na educação especial em particular, discutindo o que tem que ser discutido e rejeitando liminarmente postulados de fé ou de autoridade. O conhecimento progride no contraditório e dá-se sempre mal com os absolutos. Seja em biologia ou em educação".
Em suma, diz-se na apresentação que consulto na Internet, o livro "questiona frontalmente alguns conceitos e práticas apresentados como indiscutíveis nesta área, nomeadamente o inoperacional conceito de necessidades educativas especiais ou a denominada inclusão educativa, que em múltiplas situações nada mais significa do que atirar alunos com deficiências para salas de aulas regulares, onde consabidamente não há condições para lhes fornecer apoio ou ensino."

Referência: Kauffman, J. & Lopes, J. A. (2007). Pode a Educação Especial deixar de ser especial? Braga: Psiquilíbrios.

6 comentários:

  1. José Batista da Ascenção26 de dezembro de 2009 às 23:11

    Ora, cá está outro livro a entrar na minha lista de aquisições.
    Ainda há dois ou três anos, na freguesia de Frossos, em Braga, uma criança totalmente incapaz, permanecia durante as horas de aulas deitada num colchão estendido no chão, enquanto as professoras estupefactas tentavam leccionar às outras crianças. Não sei como a coisa acabou. Mas isto era apresentado como um procedimento inclusivo... Também conheço outros casos de alunos com fortes limitações que frequentam as aulas com os outros miúdos nas mais bárbaras situações pedagógicas, tudo a coberto da ideia de que assim está bem. E os pais, muitas vezes,aceitam facilmente esta ideia, até para terem alguém que os ajude a suportar a carga que são essas crianças. Mas igualdade ou,melhor, respeito, é tratar como diferente as pessoas que são diferentes. E todos somos diferentes? É claro que somos. Mas há diferenças e diferenças...
    Depois há aqueles cargos e supostas "especializações" que dão uns lugarzitos muito apetecíveis para uma série de pessoas que não conseguem melhor. E então lá vêm as auto-avaliações que tudo superlativizam: os pais, os alunos, os professores, as escolas, e até a sociedade a enganarem-mse zelosamente, como é costume entre nós.
    E perdem os deficientes e perdemos todos, porque iludir a realidade não é resolver problemas, é apenas mascará-los.

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  2. Nem todas as pessoas que trabalham no Ensino Especial lá foram parar à procura de um "lugarzito muito apetecível", nem todas defendem o "Eduquês" e a pseudo-inclusão. Além disso, algumas delas trabalham imenso e esforçam-se por fazer o melhor possível. Se calhar são uma minoria, mas existem.

    Mas é preciso reconhecer que nos extensos relatórios que são obrigadas a escrever nem mesmo as pessoas pertencentes a essa minoria denunciam o falhanço dessa pseudo-inclusão, apesar do observarem quase diariamente.

    Porquê? Serão todas pessoas completamente conformistas e sem coragem? Não. O que sucede é que o sistema "enguliria" essas denúncias e em vez das assumir como críticas pertinentes e lúcidas, considerá-las-ia como sinais de incompetência e de falta de empenho dos seus autores. É um meio em que, nas cabeças que mandam e que avaliam, vigora o pensamento único do "eduquês". Tais denúncias se fossem feitas nem sequer viriam a público.

    Quem perde são os alunos com necessidades educativas especiais e, é bom não esquecê-lo (embora para os defensores do "eduquês" seja heresia dizê-lo), os outros alunos. Ou seja: todos nós. Quando ganha o "eduquês" perde a educação.

    Maria Dias

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  3. O lobby das "ciências" da educação não permitirá de forma nenhuma que o pensamento único se desvie um milímetro da fé! Espero que o autor português desse livro esteja bem protegido...

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  4. Educação Especial e Sistema Jurídico Brasileiro
    Uma análise da legislação brasileira para a Educação Inclusiva
    Autor: Rosana Cristine de Limas Felipe
    Descrição :
    A educação especial no Brasil ainda engatinha, apesar dos esforços de muitos profissionais. Após o esforço conjunto de várias pessoas ao redor do planeta ainda é possível perceber a discriminação e a falta de iniciativa do poder público para promover não somente a educação inclusiva mas para coibir todas as formas de discriminação existentes. Há ainda um longo caminho a percorrer. A proposta dessa obra é facilitar aos profissionais envolvidos com o tema a compreensão do sistema jurídico brasileiro voltado para a temática.
    www.clubedosautores.com.br

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  5. O tema da educação especial (EE) ou necessidades educativas especiais (NEE) é uma questão eminentemente social, muito para além de qualquer vertente médica ou científica. Logo, convém não misturar alhos com bugalhos, uma coisa são as terapias e outra a pedagogia!

    Seja como for, o conceito de escola inclusiva (EI) é ainda muito recente, logo é natural que se continue a procurar o melhor modelo de integração.

    Ainda a propósito daquilo a que aqui se chama "eduquês", mai-lo o pós-modernismo de teor marcadamente acientífico - algo que por certo se refere à ciência "pós-normal" à la IPCC, será?! -, há algo importantísismo que não é demais salientar:

    Não existe conhecimento objectivo naquilo que se refere ao próprio Ser Humano!

    A pedagogia, bem como a medicina ou as ciências sociais, não se pode reger pela mesma bitola das ciências exactas, o elemento humano é SEMPRE imprevisível!

    Claro que existem muitos graus de deficiências ou incapacidades e os casos graves requerem um tipo de tratamento pedagógico específico. A inclusão de certos alunos em turmas regulares é apenas viável durante pequenos períodos, em especial quando os défices cognitivos são muito profundos. Mas convém não esquecer que as NEE vão muito para além das deficiências cognitivas e motoras, essa é apenas uma parte do edifício bem mais amplo da inclusão.

    Anyway... James Kauffman é um professor e autor muitíssimo conceituado nesta área da EE, logo deve ser lido com atenção.

    Por fim, volto a repetir que os conceitos de EI ou NEE são essencialmente sociais mais do que pedagógicos ou científicos. Porque se não há condições para lhes fornecer apoio ou ensino, elas DEVEM ser criadas... hard as it may be!

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  6. Gostaria de conhecer a opinião do Sr. José Batista da Ascensão (1º. comentário deste "post"), sobre qual lhe parece ser então, a "politica" mais adequada para fazer face às necessidades das crianças com deficiencia, para que não estejamos todos a perder neste momento (como diz)?
    Quero aqui de dar conhecimento, que existem inúmeros casos de sucesso devidos à referida inclusão nas escolas regulares, à qual eu prefiro chamar integração.
    Gostaría ainda de dizer que à parte das tais pessoas que mencionou, "que gostam dos tais cargos e especializações que dão lugares apetecíveis a quem não consegue fazer melhor", existem profissionais especializados em Educação Especial, dedicando grande parte das suas vidas, tanto a estudos e formação, como em concreto no importante apoio que prestam a crianças com deficiencias, conseguindo como nenhum profissional de outra àrea (Medicina, terapeutica, etç), avanços significativos nas suas incapacidades.
    Ainda sobre o que diz o Sr. José Batista da Ascensão relativamente aos pais, quando refere que "aceitam determinadas situações até para terem alguém que os ajude a suportar a carga que são estas crianças" - com o devido respeito por opiniões diferentes, e salvo os casos excepcionais que concerteza existirão, como em tudo - gostaría de saber se fala com conhecimento de causa? Da forma convicta como expressa a sua opinião, presumo que sim deve ter filho/os com deficiencia... logo pergunto se alguma vez sentiu necessidade dessa espécie de ajuda dada a esse seu filho, aceitando portanto fácilmente, a ideia das "bárbaras situações pedagógicas" eventualmente aplicadas a ele?
    Para terminar faço minhas a quase totalidade das palavras do Sr. Rui (ultimo "post"), sobretudo quando afirma: "se não há condições para lhes fornecer apoio ou ensino, elas devem ser criadas"

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