quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Há empolamento da gripe A?

Há empolamento da gripe A? Será um mal exagerado pelos media?

Sobre este assunto vale a pela ler o Cap. 15 do muito estimulante livro de Ben Goldrace, "Ciência da Treta", saído há pouco na Bizâncio:

"Estamos muito mal preparados para dar a volta a questões que envolvam risco, e a epidemiologia das doenças infecciosas é um assunto traiçoeiro: as margens de erro com base nos modelos são vastas, e é extremamente difícil efectuar previsões claras.

Eis um exemplo. Em Glasgow na década de 80, menos de 5% dos toxicómanos que se injectavam eram seropositivos. Na mesma altura a percentagem era de 50%, muito embora as duas localidades estejam à distância de 1 h de comboio. Muitas pessoas têm teorias sobre a razão de se haver verificado uma diferença tão grande no número de indivíduos infectados, e não se duvidará que é engraçado encontrar uma razão plausível post hoc. No entanto, seria certamente difícil de prever.

Talvez algum sujeito com VIH se apeasse do comboio na estação de Edimburgo, em vez de Glasgow, porque lhe deu na veneta, nalgum dia fatídico do início da década de 80. talvez predominasse uma outra cultura entre os heroinómanos, ou os serviços. Ao certo ninguém sabe.

Enfrentamos o mesmo problema com a gripe A. (...) Não dispomos de informações rigorosas. Disseram que cerca de 40% do mundo podia ser infectado. Não será um exagero? Bem, é um número elevado, e estou certo de que não passará de um palpite, mas talvez seja mesmo possível cerca de 40%. É uma maçada, não é , a incógnita?

Disseram também que poderiam morrer 120 milhões. Bem, suponho que até podiam: o cálculo foi, de certeza, efectuado nas costas de um envelope, estimando quantos seriam infectados e que proporção morreria, mas não me parece que alguém tivesse segundas intenções.

A possibilidade de alguém conseguir prever o que acontecerá neste caso será a mesma de alguém ter previsto a enorme disparidade na predominância de VIH entre Glasgow e Edimburgo."

Sobre as notícias dos médias e a desconfiança que as pessoas têm deles, o autor afirma:

"Um risco é isso mesmo. Nunca tive um acidente de viação, porém, não é absurdo pensar no assunto. Simon Jenkins [jornalista do Guardian, segundo o qual as notícias sobre as gripe A eram um empolamento] não terá razão se ninguém morrer, será um sortudo, tal como o resto de nós. As pessoas pensam desta forma confusa nos casinos? A terrível verdade é que sim".

E conclui :

"Foram os média que perderam toda a confiança na sua própria capacidade de nos apresentar os factos".

3 comentários:

  1. "Foram os média que perderam toda a confiança na sua própria capacidade de nos apresentar os factos", transcrito do post acima.

    E isto é tanto mais grave quando a apresentação dos factos é substituída por profecias com a margem de erro denunciada, de forma jocosa, por Mark Twain: "A profecia é algo muito difícil, especialmente em relação ao futuro".

    Mas apesar disso, deparamo-nos com profetas em cada esquina da nossa rua ou do nosso bairro: os chamados profetas da desgraça.

    Aliás, com todo o respeito pelos economistas (até porque tenho dois filhos economistas) não resisto à tentação da ironia saudável em repetir a definição de economista que li algures, e que cito de memória: "Economista é aquele indivíduo que leva metade do tempo a dizer o que vai acontecer e outra metade a dizer por que não aconteceu".

    Esperemos que no caso da "gripe A" as entidades que têm lançado o alarme da sua periculosidade venham no futuro a dar-nos as explicações de um alarme que se deseja infundado nas respectivas proporções. Oxalá!

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  2. "Foram os media que perderam toda a confiança na sua própria capacidade de nos apresentar os factos."

    Agora entendo por que razão Pio XII, numa recepção aos jornalistas, os advertiu:

    "Os jornalistas são responsáveis não só pelo que escrevem mas também pelo que calam".

    Sem dúvida que a escolha entre o "escrever" e o "calar" não se afigura fácil porque o primeiro a sofrer as consequências é o próprio jornalista, a quem se exige a perfeição, o acerto, a isenção, o bom senso.

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  3. Consegue-se perceber, mas faltam palavras:
    "Eis um exemplo. Em Glasgow na década de 80, menos de 5% dos toxicómanos que se injectavam eram seropositivos. Na mesma altura a percentagem era de 50%, muito embora as duas localidades estejam à distância de 1 h de comboio."
    M. Helena Cabral

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