POESIA E ASTRONOMIA 3
"A Lua e o Teixo", de Sylvia Path, tradução de Maria de Lourdes Guimarães
Esta é a luz do espírito, fria e planetária.
As árvores do espírito são negras. A luz é azul.
As ervas descarregam o seu pesar a meus pés como se eu fosse Deus,
picando-me os tornozelos e sussurrando a sua humildade.
Destiladas e fumegantes neblinas povoam este lugar
que uma fila de lápides separa da minha casa.
Só não vejo para onde ir.
A lua não é uma saída. É um rosto de pleno direito,
branco como o nó dos nossos dedos e terrivelmente perturbado.
Arrasta o mar atrás de si como um negro crime; está mudo
com os lábios em O devido a um total desespero. Vivo aqui.
Por duas vezes, ao domingo, os sinos perturbam o céu:
oito línguas enormes confirmando a Ressurreição.
Por fim, fazem soar os seus nomes solenemente.
O teixo aponta para o alto. Tem uma forma gótica.
Os olhos seguem-no e encontram a lua.
A lua é minha mãe. Não é tão doce como Maria.
As suas vestes azuis soltam pequenos morcegos e mochos.
Como gostaria de acreditar na ternura...
O rosto da efígie, suavizado pelas velas,
é, em particular, para mim que desvia os olhos ternos.
Caí de muito longe. As nuvens florescem,
azuis e místicas sobre o rosto das estrelas.
No interior da igreja, os santos serão todos azuis,
pairando com os seus pés frágeis sobre os bancos frios,
as mãos e os rostos rígidos de santidade.
A lua nada disto vê. É calva e selvagem.
E a mensagem do teixo é negra: negra e silenciosa.
Sylvia Plath

A arte, a poesia e o tempo. Em tempos, o teixo era a árvore dos cemitérios (daí a mensagem negra e silenciosa?). Na península, os romanos terão introduzido o hábito de transportar os cadáveres em carros puxados por cavalos, os quais pespontavam a ramaria dos teixos durante os enterramentos, e morriam... (mais mensagem negra?). Coitados dos teixos: árvores dos cemitérios e tóxicas... E só há poucas décadas viria a investigar-se medicamente a substância química chamada taxol, extraída da sua casca. E a dita substância mostrou-se um potente citostático de células cancerosas. Lance Armstrong que o diga, pois terá sido isso que lhe permitiu ser heptavencedor da volta à França, parar a carreira, recomeçá-la e sobretudo continuar a viver (atleticamente)livre da condenação oncológica. Mas, sobre estas coisas, quem dá gosto ouvir é o meu muito querido e "antigo" professor dos tempos de Coimbra - O Dr Jorge Paiva. Até a poesia se torna mais poesia.
ResponderEliminarEste texto afigura-se-me muito visual e sorumbático, uma paisagem escura numa noite de solidão onde a lua é a única companheira semi-escondida por trás do teixo. Não conhecia o teixo mas sabia o que era a lua. Agora sei o que são ambos (as coisas que se aprende).
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