Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

Poema X

Outro poema de José Gomes Ferreira, escrito entre 1957-1958.

(A carteira da escola, onde andei, estava cheia de cascas de amendoim.)

Euquanto me ensinavam
a exactidão de desenhar a bilha verde
para a minha boca
de-não-ter-sede...

... no papel que via?

Uma bilha torta
onde apodrecia
a água para a outra boca,
a secreta,
de sede infinita
no fundo da saliva.

E foi assim que me fiz poeta.

Com a exactidão inexacta.

In Poeta Militante II, Morais Editores, 1983, página 34-35.

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  1. DURANTE UM EXERCÍCIO DE FILOSOFIA

    Estou aqui sentado na cadeira que
    me cabe como professor, a secretária, o estrado
    o negro quadro com restos de giz e marcas de
    apagador. A ardósia coberta de falhas, pequenas
    feridas nas horas de aprendizagem.
    Os alunos aí estão à minha frente, quietos e presos
    à rapidez da sua escrita ou à
    lentidão que faz de outros a extrema hesitação.
    São alunos do curso nocturno e respondem a um
    exercício sobre Platão. É tão pouco o que conheço
    do mover das suas mãos e deles sei quase e deles
    sei tanto sob a distância e a proximidade desta mesa,
    deste estrado de aula.
    Uma turma pequena, apenas sete alunos, posso
    dizer-lhes os nomes: Susana, uma negra de quarenta
    anos que vive num seminário adventista(mal
    percebo o seu português e irá, decerto, na
    pergunta sobre a acusação de Sócrates, escrever
    -me deuses com letra maiúscula e falará deles no
    singular); Gonçalo que tem dezassete anos e que,
    filho de emigrantes, fala melhor alemão do que
    a nossa língua. Vem às vezes contar-me de Ian
    Curtis, de Patty Smith, de Jim Morrison e de
    Rimbaud e em qualquer livraria descobriu um livro
    meu por causa de um dos primeiros. Por causa
    dessa leitura, oblíqua, junto à estante da livraria,
    veio dizer-me que também era monárquico e desde
    então, sempre que vem às aulas, traz na lapela,
    nos solenes dias de blazer, as armas coroadas
    de Portugal.
    O Zé Alberto que é o melhor aluno, todos os dias
    tenho que interromper o seu discurso sobre a vida
    e os esforços para estar vivo, aqui, nesta difícil
    cidade. Depois, as raparigas, Mavilde e
    Belmira - lembro-me sempre da Benilde do
    Régio -, chegam, nunca faltam, são um confuso
    poço de silêncio, sem dúvidas, sem questões,
    por demais crédulas e indiferentes à
    enunciada mentira dos filósofos.
    Ainda há a Filomena, mas não é aluna inscrita,
    apenas vem assistir aos meus longos monólogos
    sobre o Fédon.
    Por último o Zé Manel - o único com quem
    gostaria de tomar um café depois da prisão
    das aulas e saber que livros lê, que vinho
    bebe, de que música gosta. (Interrompeu-me
    a Susana perguntando se saber e conhecer
    são coisas diferentes.)

    Mas os meus alunos vêm quase todos embrulhados
    em kispos, em coisas pardas e tudo sempre se
    passa num tom neutro, pedagógico
    até que chegue a hora de nos irmos: eu para
    viver, eles para viverem e todos para morrer
    e como na Apologia nenhum de nós saberá quem tem
    a melhor sorte. Ninguém, excepto
    o deus.


    João Miguel Fernandes Jorge

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