segunda-feira, 22 de junho de 2009

O evangelho segundo Albino Almeida


Rui Baptista pronuncia-se contra a ideia de escola-armazém, que um "representante" dos pais parece desejar:

A educação consiste em saber dar à criança a quantidade certa de amor” - Sigmund Freud (1856-1939)

Em noite de canícula, deparei-me com esta notícia fresquinha da Agência Lusa (20/Junho2009,):
“O Conselho Geral da CONFAP (Confederação Nacional das Associações de Pais) fez hoje .um ‘balanço positivo do ano lectivo 2008/2009 e da actual legislatura’, que critica apenas por ‘falha apenas da componente de apoio à família’”.
E que falha é essa? Segundo Albino Almeida, presidente da CONFAP, “falhou apenas a componente de apoio à família, relacionada com a organização de espaços para que as crianças possam ficar na escola quando os pais não podem estar com elas”.

Sem devaneios de retórica, habituado que estou a este tipo de panegírico de Albino Almeida à política do actual Ministério da Educação, passo ao lado do “balanço positivo do ano lectivo 2008/2009 e da actual legislatura”. Portanto, detenho-me, apenas, na crítica “à falha da componente de apoio à família” feita pelo corifeu e porta-voz da CONFAP relativa à “organização de espaços”.

Como escreveu António José Saraiva, uma referência maior da cultura portuguesa, “tudo o que existe tem razão de ser, até o nariz dos humanos se explica pela necessidade de se encarrapitarem lá em cima os óculos”. Mas, no caso em referência, estamos, apenas, em presença de uma mera proposta sem apresentação de soluções, implicando, como tal, algumas perguntas no direito democrático que assiste ao cidadão comum em ser informado e ao dever das instituições em o informar.

As informações pedidas são estas: De que espécie de espaços estamos a falar? De espaços do tipo armazém onde se depositam as crianças até o sol se pôr no horizonte? A quem competirá a supervisão desses espaços? Aos professores, depois de um dia recheado de actividades lectivas e trabalho de manga-de-alpaca a preencherem papéis, feitos bábás ou prefeitos de colégio? Ou aos próprios progenitores que, saindo mais cedo dos empregos, possam exercer essas funções em regime de voluntariado ao serviço da comunidade, uma vez abolidas as tertúlias de café dos pais ou as visitas aos centros comerciais das mães?

Estamos em presença de um assunto que se agudiza particularmente em nossos dias mas que transcende soluções ocasionais de natureza política, que têm aliás preocupado gerações de cidadãos. Olhando para um passado de mais de um século, julgo ser de interesse a transcrição de um texto de Ramalho Ortigão, escritor muito atento aos problemas educativos do seu tempo. Escreveu ele (“As Farpas” , 1871):
“Trata-se da infância. Não nos dirigimos aos políticos. Conversamos honrada e sinceramente contigo, leitor amigo. Leitora honesta. Pesa sobre vós uma responsabilidade tremenda. No estado em que se encontra a sociedade portuguesa, a família é um duplo refúgio – do coração e do espírito. A família é dos pouquíssimos meios pelos quais ainda é lícito em Portugal a um homem honrado influir para o bem no destino do seu século. Querido leitor! O modo mais eficaz de seres útil à tua pátria é educares o teu filho. Consagra-te a ele”.
Em contrapartida, Albino Almeida sugere um Estado educador que se dedique a todas as horas do dia, quase que em exclusividade, à formação das crianças deste país - o cidadão de amanhã. Duas perspectivas diferentes de ver um mesmo problema separadas entre si por mais de um século. Na actual relega-se para a família, não já o “duplo refúgio – do coração e do espírito”, mas o papel de depositar (ou mandar depositar) o filho na escola com o cuidado de não se esquecer de o ir buscar (ou mandar buscar) ao fim do dia ou ao princípio da noite.

O optimismo filosófico de Leibniz levou-o a considerar que Deus criou o “melhor dos mundos possíveis”. Mas que razões terá Abílio Almeida para acreditar que o actual sistema educativo português vive no melhor dos mundos com o único senão de “não ter avançado com a componente de apoio à família”?

Rui Baptista

11 comentários:

  1. maria , a mesma de sempre22 de junho de 2009 às 01:43

    Não se preocupe. Já há um movimento subterrâneo , imperceptível , ainda , de pais que não confiam na escola para a educação dos filhos.
    O novo escol , seguramente.
    Engraçado , a família , com a bandalheira da escola , recuperará o seu papel principal de socializador. Cá está a lei : a um movimento sucede sempre o seu inverso ; e a maldição : nunca saberemos chegar à virtude.

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  2. É esta a escola que muitos portugueses querem, não nos devemos enganar...

    Quando ouvimos alguém dizer: "Pronto, os miúdos já estão de férias outra vez...! Onde os vamos deixar? Estes professores não fazem nada!", estão a dizer o quê? Estão a afirmar que a escola deve ser uma armazém de crianças e jovens!

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  3. Caro Fartinho da Silva: Obrigado pelo seu comentário: "É esta a escola que muitos portugueses querem..." Seja!

    Mas será esta escola que os professores deverão aceitar, em nome da diginidade da sua profissão? Não é essa a Escola que ambos defendemos, e pela qual devemos lutar? E os pais que desejam uma Escola a sério, e pela qual fazem sacrifício? A questão é esta!

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  4. Caro Rui Baptista:

    Sem dúvida que que os professores devem lutar por um escola que digne a sua profissão e sem dúvida que todos os professores e todos os pais que querem uma Escola a sério devem lutar com todas as forças e energias por ela. Porque sem uma Escola a sério, a sociedade portuguesa não poderá de forma alguma competir no mercado global como, aliás, sem tem visto.

    Os pais que querem uma Escola a sério não podem permitir que se continue nesta senda da transformação deste fundamental espaço numa espécie de Centro de Guarda e Entretenimento de Crianças e Jovens. Estes pais, que acredito que se estão a transformar na maioria, devem lutar com todas as suas forças para que a Escola se transforme num centro de conhecimentos e cultura e devem lutar para que os professores voltem a ser... professores. É esta a única forma de os seus filhos puderem aspirar a ter uma vida melhor que a deles.

    A minha luta, caro Rui Baptista, é esta! É lutar por uma Escola com "E" grande e não por esta escola com "e" pequeno que os lobbies transformaram e tem excluído quase todos aqueles que a frequentam.

    E o problema é mesmo este, se no tempo de Salazar eram excluídos todos aqueles que a não frequentavam, hoje, na escola "inclusiva" e pós-moderna, são excluídos todos aqueles que a frequentam!

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  5. Caros Rui Baptista e "Fartinho da Silva":

    Neste momento não tenho tempo de desnvolver a resposta às várias posições aqui tomadas. Espero consegui-lo mais logo.

    João Moreira

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  6. "Estes pais, que acredito que se estão a transformar na maioria, devem lutar com todas as suas forças para que a Escola se transforme num centro de conhecimentos e cultura e devem lutar para que os professores voltem a ser ... professores."
    Com este seu comentário, até parce que a culpa é dos docentes!!! Fale com professores sobre o assunto, informe-se do que realçmente se passa!!!

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  7. Sinceramente, caro Anónimo não percebi como tirou tão incrível conclusão desse meu texto!!!!!!!!!!!!

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  8. Caros Fartinho da Silva e anónimo /19:04):

    Na verdade, julgo haver uma grande confusão por parte do anónimo. O seu comentário (Fartinho da Silva) é bem denunciador da defesa do professor e da dignidade do seu múnus.

    Uma reflexão do anónimo, certamente, reconhecerá isso mesmo. Por vezes, as mesmas coisas são interpretadas de forma diferente. Será isso que aconteceu?

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  9. a questão é que a escola pública se irá tornar um depósito de pobres. os que têm dinheiro , um pai ou mãe , o que ganhar menos ( vidé Holanda ) ficará em casa a acompanhar os filhos. a escória irá para a escola a tempo inteiro tipo armazém , a elite ficará em casa e no exigente e caro colégio privado.
    é assim a vida..quando os com mais possibilidades veêm que o grátis (?) dá bosta encontram logo soluções para que a diferença continue. e nem podem ser insultados. filhos medíocres? você quer ? eu não.

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  10. Sou o anónimo das 19:04 de 22. Realmente, tenho q dar a mão à palmatória: está-se tão habituado a ler e ouvir "maldades" acerca dos profs q reagi intempestivamente. Fiz uma leitura "selectiva", "estranha", ... nem sei como a classificar!!!
    Assim, venho, por este meio, redimir-me e apresentar a tds as minhas mais sinceras desculpas! A sério!

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  11. Caro Anónimo,

    Percebo-o perfeitamente...! Também eu estou estou cheio do populismo de criticar os professores por tudo e por nada mas, enfim, é o país que vamos tendo...

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