sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Cunha & Cunha Ltda.


O post do Carlos levantou uma objecção interessante de um leitor: que dizer das cartas académicas de recomendação, que até são mais comuns nos países desenvolvidos do que em Portugal? Não será afinal universal a corrupção da cunha, sendo pacóvio pensar que só em Portugal essa prática é estatisticamente elevada?

Para responder a isto é preciso compreender o que é realmente a cunha. A recomendação baseada na avaliação e conhecimento pessoal não é por si corrupta nem uma cunha; o que é corrupto e uma cunha é a avaliação e conhecimento pessoal favorecer um candidato pior; presumivelmente, foi o que terá acontecido a Eça de Queirós. Se eu estou perante dois candidatos a uma dada função — assistente de lógica, por exemplo — e não conheço qualquer um deles; se ambos têm aproximadamente a mesma prestação da prova que lhes faço; mas se um deles tem uma carta de recomendação de alguém em cujo juízo académico confio, vou favorecer essa pessoa. Nada há de corrupto nisto: é antes uma forma perfeitamente justificada de escolher. Mas seria corrupto escolher um candidato objectivamente pior, só por ser sobrinho de um amigo meu: pois neste caso nem sequer é academicamente relevante o grau de parentesco nem estou a ter em consideração o meu amigo por força da minha confiança no seu juízo académico, mas apenas por ser meu amigo.

Espero que estas distinções sejam esclarecedoras.

Ilustração: Lichtzauber, de Emil Nolde (1867-1956)

7 comentários:

  1. Pertinente e oportuna esta achega que o Desidério faz ao post do Carlos Fiolhais.
    Assertivo e certeiro.

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  2. "Espero que estas distinções sejam esclarecedoras."

    Têm mais substrato do que as do Carlos Fiolhais mas mesmo assim falham no sentido em que não são aplicáveis na prática ao que escrevi. Realmente a cunha apenas teve ser considerada perniciosa quando não funciona como critério de desempate.

    Quem conhece o mundo académico sabe muito bem que isto não é o que se passa. É mais o contrário: entre cunhas de peso igual o lugar vai para quem tem melhores critérios objectivos.

    Até aqui por diversas vezes já vi alguém que se gaba de ter sido aceite para um PhD na Holanda mesmo tendo tido uma prestação académica miserável (não foi este o termo que utilizou mas pelo que descreveu foi mesmo miserável). Como não existem exames de seriação (como por exemplo para os EUA) a única coisa que realmente conta é a carta de recomendação. Quem pensar o contrário é muito ingénuo e quem faz estas decisões sabe muito bem que o que escrevo embora nem sempre verdade é o mais comum.

    Dos casos em que existem dados objectivos o único que conheço é o dos EUA. Aí existem exames de diversos tipos que de um modo geral parecem testes de regurgitação onde os alunos debitam definições (que nem costumam compreender) de palavras muito eruditas num teste de escolha múltipla. Algumas partes têm qualidade mas têm sido eliminadas nos últimos anos (ver parte analítica do GRE nos últimos 6 anos).

    Serve isto para dizer que na maioria dos casos a "carta de recomendação"/cunha não serve apenas, como inocentemente o Desidério tenta fazer passar, como factor de desempate porque os resultados dos testes são utilizados na melhor das hipóteses como factor de desempate dos factores não objectivos (não são apenas as cartas de recomendação) ou então estabelecendo mínimos abaixo dos quais o acesso costuma ser vedado (tipicamente percentil 70 ou mesmo menos).

    Quem tiver dúvidas pode ver os impressos de admissão a programas de pós-graduação em que quando o professor preenche a carta de recomendação tem de escrever também muitas vezes quem foram os professores dele e a escola em que estudou.

    Isto para nem falar nos casos em que o processo normal é completamente subvertido por uma aplicação "directa" muitas vezes tratada por telefonema.

    Dir-me-ão, "mas esses casos são justificados por trabalho de investigação fora do comum."

    Alguns poderão ser mas a maioria dos que conheço não são e o próprio acesso aos grupos de investigação é feito por critérios absolutamente pessoais o que retira mérito a esse argumento.

    Por fim, os casos mais interessantes de muitas universidades nos EUA em que nos próprios impressos é perguntado quais os membros da família que já frequentaram a escola, existindo vagas que são preenchidas quase exclusivamente com este critério (vide Bush(s)) Isto é feito às claras o que sempre tem algum mérito.

    Portanto reitero: as cartas de recomendação são uma institucionalização da cunha (o que as torna sempre mais transparente embora sejam privadas visto toda a gente saber que existem) e quem pensar que este fenómeno é exclusivamente ou predominantemente português está a ser vítima de provincianismo ou por falta de dados ou por não querer reconhecer a realidade.

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  3. Na verdade, faz parte do provincianismo a crença de que as coisas são particularmente escandalosas no nosso país, por oposição ao que se passa "lá fora". Veja-se este cómico sketch para se perceber o provincianismo do "lá fora":

    http://www.youtube.com/watch?v=T6IN4Rwy_zQ

    Este tipo de provincianismo confunde as coisas porque:

    1) Começa por pensar que o normal é ser bom. Isto é um disparate porque a maior parte de tudo no mundo (arte, filosofia, ciência, empresas, países) é uma porcaria. A excelência é sempre a excepção.

    2) Depois fica escandalizado porque no nosso país as coisas não são excelentes. Mas por que razão haveriam de ser? Para haver excelência é preciso um trabalho contínuo nesse sentido. O estado normal de um país ou de seja o que for é a caca. Portanto, se queremos excelência, temos de trabalhar nesse sentido, e encarar com normalidade a sua falta.

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  4. De facto assim é. Os portugueses têm a mania de se atribuir defeitos que eu tenho encontrado em larga escala noutros países, incluino países considerados muito desenvolvidos. Mais, em muitos países há mania idêntica à dos portugueses. O melhor é examinar os factos com espírito crítico sem estar sempre com o chavão "isto é à portuguesa" ou "isto só em Portugal". É uma tolice...

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  5. O que se chama cunha é, em geral, a simples influência de humanos sobre humanos. O que é inevitável em espécies sociais. Inevitável e benéfico. Se eu quiser recrutar alguém para uma tarefa, informo-me procura saber quem é, peço informações a quem as sabe e, assim se decide. Não somente em critérios ditos objectivos que, em muitos casos servem só para o decisor enjeitar responsabilidades em vez de as assumir pelas escolhas que fez.

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  6. Bem pensado. O problema português, como de muitas culturas e países, é certo, é que a caca existe em grande volume e não há quase espaço para a excelência. De resto é certo que uma cultura evolouída é como uma farmácia: há quase de tudo, caca e excelência.

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