domingo, 25 de janeiro de 2009

CIÊNCIA E RELIGIÃO


Como o tema da ciência e religião tem sido aqui muito discutido, transcrevemos a opinião de Frei Bento Domingues na última parte da sua crónica dominical no "Público". Sobre as convicções religiosas de Darwin o melhor é ver o seu depoimento na "Autobiografia" que se encontra aqui.

"(...) Não me parece que a ciência de R. Dawkins vá substituir a religião. Como dizia o poeta Eliot, "não há nada neste mundo ou no outro que possa ser substituto de outra coisa". Já referi a obra de resposta de Alister McGrath a Dawkins que termina com um convite: "Temos muito a ganhar com um debate comum, cordato e rigoroso. A questão acerca da existência de Deus - e como será Deus se existir - mantém ainda toda a sua importância intelectual e pessoal nesta época pós-Darwin. Encontramos mentes fechadas de ambos os lados da barricada. Os cientistas e os teólogos têm muito a aprender uns com os outros". Foi, aliás, nesse processo, que este biólogo passou de ateu a cristão, sentiu a necessidade de se doutorar em Teologia e, sem deixar a prática científica, tornou-se padre da Igreja anglicana.

Para superar este abismo entre as mentes fechadas, fundamentalistas, de ambos os lados, um outro biólogo, presidente da American Association for the Advancement of Science, Francisco J. Ayala (1), escreveu uma obra, mostrando que não há contradição necessária entre a ciência e as crenças religiosas. "A ciência procura descobrir e explicar os processos da natureza: o movimento dos planetas, a composição da matéria e do espaço, a origem e a função dos organismos. A religião trata do significado e propósito do universo e da vida, as relações apropriadas entre os humanos e o seu criador, os valores morais que inspiram e guiam a vida humana. A ciência não tem nada a dizer sobre essas matérias, nem é assunto da religião oferecer explicações científicas para os fenómenos naturais. (...) O Deus da revelação e da fé cristã é um Deus de amor, misericórdia e sabedoria". Como se dizia na antiga Missa, o Deus que alegra a minha juventude.

Ayala, no balanço final do seu percurso, verifica que "a evolução e a fé religiosa não são incompatíveis. Os crentes podem ver a presença de Deus no poder criativo do processo de selecção natural de Darwin". Era esta, aliás, a convicção do próprio Darwin."

(1) Francisco J. Ayala, Darwin y el Diseño Inteligente, Madrid, Alianza, 2008

Frei Bento Domingues

16 comentários:

  1. Também li esta treta no original, e devo dizer que o senhor Frei está a ter ataques de nervos perante R.Dawkins, os quatro cavaleiros do apocalipse (Dennett, Dawkins, Harris e Hitchens) e a sua legião de anti-teístas, ou os chamados de "novos ateus". Sem grandes razões para tal, parece-me também.

    A ideia de que Dawkins e todos os ateus em geral pretendem substituir a Religião pela Ciência é uma treta malandra, tentando colar a acusação de Cientismo aos ateus, e chamando Allister McGrath a defesa central. O que também é pena, pois este senhor é uma fraude intelectual, os vídeos da discussão com Dawkins estão no seu site (procurem por Dawkins na net), e ele evade sempre às questões colocadas, nunca dando respostas satisfatórias, nunca enfrentando de frente qualquer oponente ateu (as suas discussões com Hitchens são ainda mais relevantes neste aspecto).

    A evolução em si não é incompatível com a fé religiosa. Mas que a abana, ai isso abana.

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  2. O argumento de Richard Dawkins acerca da "complexidade" de Deus (e consequente improbabilidade), desenvolvido no seu livro The God Delusion, é absurdo.

    No entanto, ele tem o mérito de reconhecer a sintonia do Universo para a vida, bem como esta se basear em quantidades inabarcáveis de informação, ambas as coisas de probabilidade ínfima.

    De acordo com o argumento de Richard Dawkins, se o Universo e a vida são altamente improváveis, por serem complexos, Deus só pode ser ainda mais improvável, por ser ainda mais complexo.

    Daí que a existência de Deus seja muito improvável.

    Qual é o ponto fraco deste argumento? É simples.

    Ele supõe que Deus, à semelhança do que sucede com o Universo e a vida, é o resultado de combinações improváveis de matéria e energia pré-existente.

    Mas o Deus da Bíblia revela-se como o criador da matéria e da energia!

    Ele não é uma combinação improvável de uma e outra.

    Estas é que devem a sua existência a Deus, já que a energia não se pode criar nem destruir a ela própria.

    Assim, diferentemente do que se passa com o Universo e a Vida, Deus não é constituído por um conjunto de "peças" externas e independentes, de combinação altamente improvável.

    Ele não é composto por matéria e energia pré-existentes, como sucede com a vida.

    De resto, a própria vida não é só matéria e energia, mas também informação, uma grandeza imaterial que não tem uma origem material, mas sim imaterial, mental.

    A matéria e a energia não criam informação. Só uma inteligência cria informação.

    O DNA tem uma componente imaterial (informação codificada, código ou cifra) e material (compostos químicos).

    Ele é inteiramente consistente com a ideia de que um Deus sobrenatural criou a vida num mundo material.

    Mas a vida não é só matéria e energia.

    Ela também é informação. E a informação não surge por processos naturalísticos.

    Pelo menos, tal nunca foi observado.

    Deus não tem as propriedades da natureza. Deus é sobrenatural. Ele é Espírito.

    Pelo que não faz qualquer sentido tentar averiguar estatisticamente a complexidade de Deus, como se ele fosse o resultado de uma combinação acidental de peças componentes (hipótese sobre a qual Dawkins chega mesmo a fantasiar).

    Tentar comparar a probabilidade da existência de Deus com a probabilidade do Universo e da Vida é comparar grandezas qualitativamente incomensuráveis entre si, sendo que Deus é espiritual, eterno, infinito, omnipotente e omnisciente.

    Em toda a sua aparente racionalidade, o argumento de Richard Dawkins manifesta toda a sua estultícia.

    Considerando que este pretendia ser o argumento irrespondível e decisivo do livro The God Delusion, imediatamente vemos que se trata de um exercício de profunda ingenuidade intelectual, destituído de qualquer plausibilidade.

    Na verdade, o argumento de Richard Dawkins refuta a existência de um “deus” composto de matéria e energia pré-existentes, combinados numa entidade divina constituída por múltiplas peças.

    Nesse ponto, os criacionistas concordam inteiramente com Dawkins.

    Só que esse argumento está longe de refutar a existência de um Deus vivo, espiritual, infinito, eterno, omnisciente e omnipotente, pessoal, moral, criador de toda a matéria e energia, como o que se revela na Bíblia.

    Pelo contrário.

    Todo o livro de Richard Dawkins, na medida em que reconhece a sintonia do Universo para a vida, e a sua radical improbabilidade, acaba, inadvertidamente, por tornar ainda mais claro que só a existência de um Deus com essas características é que é racionalmente plausível.

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  3. "Todo o livro de Richard Dawkins, na medida em que reconhece a sintonia do Universo para a vida, e a sua radical improbabilidade, acaba, inadvertidamente, por tornar ainda mais claro que só a existência de um Deus com essas características é que é racionalmente plausível."

    Apenas para quem quer, à força, que tudo tenha uma origem e um sentido/propósito. O Universo é Dada é outro explicação racional plausível embora para muitos mais difícil de engolir (sem "Causador", nem "Eternidade", nem "Propósito", que sentido faz existir? perguntam-se).

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  4. É típico das mentes pensadoras religiosas, citar poetas. Aliás, quase todas as suas respostas a perguntas objectivas recorrem à poesia.
    O que o pensamento racional faz é evitar a poesia como resposta a questões objectivas. Há sempre uma resposta objectiva para todas as questões, nem que seja reconhecer que não se sabe!

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  5. «Reconhecemos o grande valor da Teoria Neodarwiniana e de seus pressupostos básicos - a evolução das espécies, a mutação e a seleção natural - já comprovados pela investigação científica. Ela, porém, tem se revelado insuficiente para explicar a evolução como um todo, porque tem no acaso um dos seus pilares. O mesmo acontece com todas as outras teorias que buscam complementá-la, mantendo a mesma base explicativa, como as de Orgel, Eigen, Gilbert, Monod, Dawkins, Kimura, Gould, Kauffman. Demonstrou-se, por exemplo, através de cálculos matemáticos, a impossibilidade estatística (101000contra um) de se juntar , ao acaso, mil enzimas das duas mil necessárias ao funcionamento de uma célula. Do mesmo modo, já se constatou que o acaso é insuficiente para explicar, passo a passo, de forma detalhada, científica, o surgimento de estruturas complexas, como o olho, o cílio ou flagelo, a coagulação sanguínea.

    Por isso, acreditamos que a Teoria do Planejamento Inteligente, que não tem por base o acaso e é defendida por cientistas competentes, como o bioquímico Michael Behe, a bióloga Lynn Margulis, e os físicos Ígor e Grischka Bogdanov, possui argumentos científicos bem mais sólidos para explicar a evolução dos seres vivos. Behe, em seu livro A Caixa Preta de Darwin, afirma que não importa o nome que se lhe dê, mas, para ele, indiscutivelmente, a vida tem um Planejador. Esta mesma conclusão está em Deus e a Ciência, obra de J. Guitton e dos irmãos Bogdanov. Na mesma linha de raciocínio, Margulis e Sagan (2002, p. 289) afirmam: "nem o DNA nem qualquer outro tipo de molécula, por si só, é capaz de explicar a vida".

    Esses autores foram buscar suas argumentações científicas no estudo da extraordinária maquinaria celular; no jogo de convenções inexplicáveis, como as ligações covalentes, a estabilização topológica de cargas, a ligação gene-proteína, a quiralidade esquerda dos aminoácidos e direita dos açúcares; como também , nos cálculos matemáticos das enzimas celulares e na análise de estruturas complexas, já referidos. Enfim, um mundo de complexidade, que não pode ser reduzido à simples obra do acaso.

    O fato é que o cientista nem de longe nem de perto tem conseguido "fabricar" moléculas da vida. Ele desconhece, portanto, como reproduzir , em laboratório, as forças que entram em jogo neste intrincado fenômeno. Nessas circunstâncias, deveria adotar uma atitude mais humilde, mais reverente, diante desse bem maior que é concedido ao ser humano, o de viver.»

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  6. Anónimo das 13:04,
    "Demonstrou-se, por exemplo, através de cálculos matemáticos, a impossibilidade estatística (101000contra um) de se juntar , ao acaso, mil enzimas das duas mil necessárias ao funcionamento de uma célula. Do mesmo modo, já se constatou que o acaso é insuficiente para ..."

    Demonstrou-se o tanas !

    O anónimo perspectiva é um aldrabão, mentiroso e desonesto.

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  7. Já cá faltava o Jónatas para animar a festa. Fala do livro do Dawkins como se o tivesse lido, e é claro como água que não lê nada senão a Bíblia e o Answers in Genesis, que é formatado para robôs como o Jónatas.

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  8. Este comentário foi removido pelo autor.

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  9. Penso que todos conhecem, ou pelo menos deviam conhecer, o famoso Candide (de Voltaire). Para o Dr. Pangloss todo o que existe tem uma finalidade útil, assim os apologistas do princípio antrópico (que regra geral são, de facto, extremamente ridículos)poderiam argumentar que: o nariz existe com o objectivo de servir para colocar os óculos,ou a versão que mais gosto, as pernas servem para vestir calças! No fundo defendo que qualquer abordagem científica que não tenha por base os princípios da experiência, da adquação de hipóteses a factos, não passa da maior barretada intelectual, desde a craniometria de Galton e Broca.

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  10. «Demonstrou-se, por exemplo, através de cálculos matemáticos, a impossibilidade estatística (101000contra um) de se juntar , ao acaso, mil enzimas das duas mil necessárias ao funcionamento de uma célula. Do mesmo modo, já se constatou que o acaso é insuficiente para ...» - postei anonimamente este excerto de um texto, precisamente para ver se o mesmo era tomado por si e não pelo autor ou pelo divulgador de circunstãncia. Não sou o Jónatas Machado, animador habitual desta caixa de comentários. Verifico, contudo, que os fanáticos ateístas estão ao nível do Jónatas: limitam-se a negar. Fanáticos religiosos e fanáticoas ateus são igualmente fanáticos.

    Os cientistas citados no texto provaram que o acaso é insuficiente para gerar vida. O acaso gerar vida seria como um vendaval construir uma casa por acaso, arrastando ao acaso materiais de construção ao acaso.

    O que as religiões dizem sob forma velada desde a mais remota Antiguidade é que há algo que nos transcende. Na mitologia hindu há uma deusa que fecha os olhos e sonha. De cada vez que sonha cria-se um Universo. De cada vez que acorda este é destruido. Onde o povo "comum" vê deusas e fábulas, os Antigos iniciados viam verdades profundas que hoje a Ciência pode desvendar.

    Deus é "científico", dependendo do modo como seja concebido. Chame-se-lhe Deus ou seja o que for, nós somos pequenos demais, ainda, para entender tudo, e seria pretencioso afirmar que já sabemos tudo. O acso não gera nada, e o nada é incapaz de gerar seja o que for. Daí Darwin, p. ex., se considerar agnóstico e não ateu. A Sabedoria é humilde.

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  11. Deus é uma ideia,não passa disso. Acredito que alguns possam ter deus como um meio para atingir a felicidade, nunca como um fim em si mesmo!
    Pergunto-me que cálculos matemáticos fazem os criacionistas...como encarar o teorema da incompletude de K. Godel? Todos os cientistas lidam bem com o acaso, os criacionistas não.
    No fundo defendo que qualquer abordagem científica que não tenha por base os princípios da experiência, da adquação de hipóteses a factos, não passa da maior barretada intelectual, desde a craniometria de Galton e Broca.(citado do meu post anterior)

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  12. Anónimo das 13:31,
    é irrelevante se é o Jónatas ou não, o conteúdo do seu discurso é idêntico ao dele.
    O que o comentador está a fazer é a repetir acriticamente uma afirmação (em 2ªmão) que alguem fez a respeito de um alegado cálculo matemático.
    Isto demonstra desconhecimento a vários niveis:
    1) do processo de validação científica, designadamente, através de confirmação independente e de peer review.
    2) da diferença entre verdade formal e verdade contingente: - a alegada "demonstração" não é mais que conformidade imaginada. Por outras palavras pretendeu-se que a partir de atributos conjecturados sobre o acaso e usando um processo imaginado deduzir que características idealizadasda vida são impossíveis estatisticamente
    3) da noção de probabilidade condicionada. Também poderia dizer, e ainda com mais propriedade, que é estatisticamente impossivel encontrarmo-nos os dois em confronto nesta caixa de comentários.
    4) do trabalho experimental que tem vindo a ser realizado, nomeadamente, replicação auto-sustentada de enzimas e vida artificial.

    E por aí fora...

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  13. O que o Sustelo afirma, em contrapartida, chama-se apenas sofisma. Cresça e apareça...

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  14. Não, não,Sustelo... o Jónatas é um criacionista bíblico, que crê na "Terra Jovem", e que molda as evidências científicas ao que vem escrito num livro antigo. Eu creio que existe algo que nos transcende, a que podemos chamar Deus.
    "Alguém" fez um cálculo matemático, não! Os cientistas que refiro defendem, com base nesse cálculo matemático, que as chances de o acaso gerar vida inteligente são tantas quantas a de um vendaval construir "por acaso" um jeep Land Rover Defender de 1998.

    Os ateus, hoje, fazem exactamenet o mesmo papelo que fez a Igreja Católica com Giordano Bruno ou Galileu Galilei. Ignoram hipóteses plausíveis em nome da sua crença.

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  15. EstouaenviarcomoAnónimoporqueesatcoisanãoestáafazerespaçosnempermiteoutrasopções...

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  16. Discutir a existência de deus... parece que já houve alguém que lhe arranjou uma fórmula, mas deve estar errada - não, senhores científicos?

    Esta dicussão é um dos grandes paradoxos do ser humano e é tempo perdido discutirmos isso com os outros... ou se tem «insight» daquilo de que se fala ou não se tem. Acho que a procura é mais interior do que silogística. Fazendo um pouco de advogado do diabo diria que o «tertium datur» cabe perfeitamente nesta questão. Explico: há uns que crêem (em deus, claro) e outros que não; logo, deus existe para os que acreditam (nisso) e não existe para os outros. E, portanto, as questões de nomenclatura e/ou definições/conceitos, é vazia para uns e não para os outros. E, no entanto, todos poderão ter a mesma dignidade - perante conceitos e teorias sobre o inefável.

    Agora, sobre a questão ciência/religião, claro que «não se pode servir a dois senhores» (seria fastidioso expor aqui as razões, ficando como tema de meditação a quem interessar).

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