segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

A escola do Cerco, os ovos e os fantasmas

Do nosso colaborador habitual Rui Baptista vem um comentário ao caso da escola do Cerco no Porto:

Do editorial de Nuno Pacheco do jornal “Público” de 27/12/2008 extraio um pequeno pedaço de prosa: “O coro de indignações que se seguiu à divulgação do vídeo da escola do Cerco é essencialmente hipócrita”.

Assim sucedeu, por exemplo, com Mário Nogueira, porta-voz da Plataforma Sindical de Professores, que surgiu, de imediato, nos média a repudiar o sucedido. Tudo estaria bem não se desse o caso de os exemplos deverem vir de cima. Com efeito, há quem veja o argueiro no olho alheio e não veja a trave no próprio olho. Isto porque os dirigentes sindicais são professores de raiz mesmo que afastados da docência quase que a partir da data em que obtiveram o respectivo diploma. Apesar deste afastamento do dia-a-dia das escolas, deviam ser os primeiros a ter um comportamento cívico irrepreensível, que servisse de exemplo aos alunos.

Mas, para que se não se pense haver da minha parte aproveitamento oportunista deste caso na crítica que acabo de fazer, nada melhor do que a transcrição de linhas finais do meu livro “O Leito de Procusta” (2005, p.119):

”Neste livro, em cronologia de artigos publicados que permitem um historiar do que ocorreu no universos educativo (apenas em década e meia), pus, diversas vezes, em causa posições vindas do mundo sindical quando defende capelinhas de interesses dos seus dirigentes ou dos seus associados. Descurando, nos corredores do poder, a Catedral do Conhecimento e seus devotos maior número de vezes do que é tolerável! Outras tantas, em manifestações de rua pautadas por um comportamento pouco digno de aplauso!”

Acresce que certas manifestações ruidosas com palavras de ordem pouco correctas de dirigentes sindicais à porta das escolas na presença dos respectivos alunos, aquando da visita oficial de figuras da hierarquia do Estado, não constituem, de forma alguma, lições de civismo que possam contribuir para uma desejável formação dos jovens escolares. Depois não nos podemos admirar que alunos atirem ovos a essas figuras sem que se ouça por parte dos sindicatos quaisquer palavras de reprovação. Os fins não justificam os meios.

Perante a desconfiança, por parte do presidente da Associação de Pais do Porto, Manuel Valente, de alguma cumplicidade dos sindicatos na divulgação do vídeo da pistola de plástico, Mário Nogueira “reagiu com indignação, acusando-o de ter ‘fantasmas’ ” (Público”, 27/12/2008). Até posso admitir a indignação do seu protesto. Mas nada justifica o facto de os sindicatos terem como que passado uma esponja sobre o arremesso dos ovos e serem agora intolerantes para com o caso da escola do Cerco. Ou seja, como escreveu ainda Nuno Pacheco, no mesmo texto, “muitos dos candidatos a justiceiros deviam olhar primeiro o espelho”.

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