Avaliação e mentira
Eis a minha habitual crónica das terças-feiras do Público:
Há quem pense que a avaliação de professores imposta pelo Ministério da Educação visa melhorar o ensino, mas isto é falso. Pior: nem é por essa razão que os responsáveis ministeriais querem avaliar os professores. Pois se o fosse, a maneira mais óbvia de os avaliar, com menos custos e menos complicações processuais, seria através do tratamento estatístico dos resultados dos alunos em exames nacionais, cientificamente rigorosos e pedagogicamente lúcidos.
Há duas razões, oriundas de sectores diferentes do Ministério da Educação, que fazem os responsáveis insistir tanto na avaliação dos professores. Por um lado, a própria ministra afirmou desde que tomou posse que a situação no ensino era intolerável porque a um investimento crescente ao longo das décadas não tinha correspondido um aumento do sucesso escolar. Assim, as suas duas preocupações são diminuir custos e inventar um sucesso escolar de fantasia. Por isso, a avaliação dos professores tem, para a ministra, a finalidade única de poupar dinheiro, impedindo a muitos professores o acesso ao topo da carreira.
Por outro lado, muitos responsáveis educativos querem implantar nas escolas as suas ideias educativas pretensamente científicas. Estes responsáveis vêem então na avaliação uma maneira de impor aos professores os seus modelos pedagógicos positivistas. Neste caso, não se trata de desejar poupar dinheiro, mas apenas de uma crença lírica de que tais métodos são o segredo do sucesso escolar. Daí as grelhas infinitas, com itens absurdos, impondo um modelo pedagógico rígido e universal, quando o bom senso educativo nos diz que as estratégias educativas que funcionam com uma turma e numa escola, não funcionam com outra turma e noutra escola, não havendo receitas pedagógicas universais — excepto em estudos teóricos pretensamente científicos, alheados da realidade escolar.
Que a avaliação de professores nada tem a ver com a qualidade do ensino torna-se óbvio se pensarmos nos estudantes, directamente. Para um dado estudante, tanto faz que um professor seja titular ou não: se for mau, é mau, e nada mais há a fazer; acontece apenas que não chega supostamente ao topo da carreira. Mas continuará a contribuir para a falta de qualidade do ensino — e para o sucesso escolar de fachada, não reprovando alunos e dando notas elevadas, ao mesmo tempo que preenche fichas infinitas.
O que é relevante para um estudante é que o seu professor, titular ou não, seja competente. E isso significa duas coisas: dominar as matérias que tem de leccionar e saber dar aulas. Para dominar as matérias, tem de estudar, actualizar-se, rodear-se da melhor bibliografia da sua área; tem de ter curiosidade intelectual, hábitos de estudo e de raciocínio. Para saber dar aulas, tem de saber pôr-se do ponto de vista cognitivo, social e psicológico do estudante, e transmitir-lhe o gosto pelas matérias e pelas competências da sua área. Isto é o que conta para o estudante; é o que conta para a qualidade do ensino. O resto é uma mentira política.
Há duas razões, oriundas de sectores diferentes do Ministério da Educação, que fazem os responsáveis insistir tanto na avaliação dos professores. Por um lado, a própria ministra afirmou desde que tomou posse que a situação no ensino era intolerável porque a um investimento crescente ao longo das décadas não tinha correspondido um aumento do sucesso escolar. Assim, as suas duas preocupações são diminuir custos e inventar um sucesso escolar de fantasia. Por isso, a avaliação dos professores tem, para a ministra, a finalidade única de poupar dinheiro, impedindo a muitos professores o acesso ao topo da carreira.
Por outro lado, muitos responsáveis educativos querem implantar nas escolas as suas ideias educativas pretensamente científicas. Estes responsáveis vêem então na avaliação uma maneira de impor aos professores os seus modelos pedagógicos positivistas. Neste caso, não se trata de desejar poupar dinheiro, mas apenas de uma crença lírica de que tais métodos são o segredo do sucesso escolar. Daí as grelhas infinitas, com itens absurdos, impondo um modelo pedagógico rígido e universal, quando o bom senso educativo nos diz que as estratégias educativas que funcionam com uma turma e numa escola, não funcionam com outra turma e noutra escola, não havendo receitas pedagógicas universais — excepto em estudos teóricos pretensamente científicos, alheados da realidade escolar.
Que a avaliação de professores nada tem a ver com a qualidade do ensino torna-se óbvio se pensarmos nos estudantes, directamente. Para um dado estudante, tanto faz que um professor seja titular ou não: se for mau, é mau, e nada mais há a fazer; acontece apenas que não chega supostamente ao topo da carreira. Mas continuará a contribuir para a falta de qualidade do ensino — e para o sucesso escolar de fachada, não reprovando alunos e dando notas elevadas, ao mesmo tempo que preenche fichas infinitas.
O que é relevante para um estudante é que o seu professor, titular ou não, seja competente. E isso significa duas coisas: dominar as matérias que tem de leccionar e saber dar aulas. Para dominar as matérias, tem de estudar, actualizar-se, rodear-se da melhor bibliografia da sua área; tem de ter curiosidade intelectual, hábitos de estudo e de raciocínio. Para saber dar aulas, tem de saber pôr-se do ponto de vista cognitivo, social e psicológico do estudante, e transmitir-lhe o gosto pelas matérias e pelas competências da sua área. Isto é o que conta para o estudante; é o que conta para a qualidade do ensino. O resto é uma mentira política.

17 comments:
Não sou professor, e nesta questão tenho muito mais dúvidas do que certezas.
Neste post:
Falemos de avaliação, falemos de educação.
tentei caracterizar em traços muito gerais, sistemas de avaliação de desempenho que conheçi em multinacionais, confrontando-os com o que o ME está tentar impor. Aí aponto para um post seu anterior, que tal como neste dá uma grande enfase, à preparação, hábitos de leitura e curiosidade intelectual dos professores, no que não posso estar mais de acordo.
Também estou de acordo que além da componente anterior, o outro critério de avaliação deve ser os resultados obtidos pelos alunos. Só que aqui não me pareçe que os resultados dos exames, mesmo melhorando a sua qualidade, possa dar mais do que uma indicação de ordem muito geral do desempenho dos professores. Para além das diferenças dos meios em que as escolas estão inseridas há que considerar as diferenças entre turmas, a mobilidade dos estudantes ao longo dum ciclo ou mesmmo dum mesmo ano, etc. etc.
E, objecção mais importante: vamos subordinar o ensino apenas à obtenção de bons resultados nos exames? e o estímulo à curiosidade cientifica e sentido critico dos alunos? e... tudo aquilo que a escola deve ser para além da transmissão de matérias?
Para terminar uma citação de Vitorino Magalhães Godinho:
Deixem-nos ensinar
Eduardo Lapa
Estou de acordo. Esta avaliação não contribui de modo nenhum para tornar o ensino melhor, torna o nível de sucesso maior, mas esse sucesso é só a resposta do professor à pressão de passar os alunos que sobre ele recai, de acordo com o que a tutela exige. Pernicioso o sistema pois subverte a neutralidade do professor no momento de classificar os seus alunos. Não percebo porque é que a maioria da opinião pública não entende que a luta dos professores é sobretudo muito incómoda para os professores e se existe é porque o que se pretende fazer é intolerável!
Caro Desidério,
O seu texto é intelectualmente desonesto e contraditorio. Repare que os seus argumentos poderiam ser dirigidos da mesmissima maneira contra qualquer ministro que tentasse implantar um método de avaliação, mesmo que estivesse de boa fé e que o método fosse bom...
Os seus argumentos so fariam sentido se pretendesse provar que a avaliação é ma em si, que não pode, nem nunca podera, contribuir para a melhoria do ensino (e isto independentemente da forma e do rigor com que é levada a cabo). E mesmo isso que você pensa ? Se fôr o caso, como é que acha que se podem melhorar as coisas no ensino ? Rezando à Virgem Maria ? Despedindo todos os professores em funções e substituindo-os por outros, doutorados em Harvard ?
Como você proprio confessa, a politica da ministra parte da premissa que os resultados atingidos hoje são maus, o que mostra que (contrariamente ao que você afirma) ela liga aos resultados dos exames nacionais e aos estudos nacionais e internacionais sobre aproveitamento escolar. Agora esses estudos, e esses resultados, não chegam para sabermos o que esta mal, nem como se deve proceder para atingir melhores resultados (na realidade, e não so no papel). Isto so se alcança com um trabalho de avaliação, sério, objectivo, rigoroso e seguido de medidas concretas (o que implica meios, claro). Não conheço outra forma e não me parece que exista, em pais algum, outra maneira de proceder. Uma boa avaliação permite, desde logo, ver onde estão as insuficiências e corrigi-las, mesmo nos professores mediocres, pois ninguém é irremediavelmente condenado à mediocridade. Alias, a mediocridade assumida de alguns professores desculpa-se muitas vezes com as insuficiências do ministério. Este ciclo, em que o que esta mal é sempre culpa dos outros, é que é necessario quebrar. O seu texto vai precisamente na direcção oposta...
Critique o método, mas faça-o de forma positiva, propondo melhorias ou apontando soluções viaveis. E perfeitamente demagogico, e irresponsavel, e indigno de um filosofo, vir dizer : " isto tudo são balelas, o que é preciso são melhores professores, mas a avaliação não tem esta finalidade".
Ou então, defenda que a situação actual esta bem como esta...
Desculpe a minha franqueza mas, embora não tenha lido o seu blogue ultimamente, não esperava ler um texto tão pobre assinado por si. O meu amigo não tera aceite demasiados compromissos com a imprensa, a ponto de ter de escrever textos mesmo quando não tem nada para dizer ?
E atenção que a minha critica não tem a ver com os méritos ou os defeitos do sistema de avaliação proposto pela ministra. Acho bem que se disctuta e estou perfeitamente disposto a ouvir criticas às modalidades propostas, desde que fundamentadas, e vocacionadas para propôr de boa fé uma alternativa viavel para melhorar o ensino, objectivo que todos aceitam como sendo uma prioridade.
Mas o seu texto não entra nessa matéria, tenho pena.
Parabéns por muitos outros textos que tem escrito e que eu leio, ocasionalmente, com prazer e proveito.
Caro Desidério,
Deixe-me felicitá-lo pelo seu artigo.
Não me parece que alguém tenha resumido de forma tão correcta as falácias envolvidas em todo este processo.
Nem a verdadeira questão que deveria servir de base a todo esta "guerra" - a qualidade da Educação.
Luís Azevedo Rodrigues
"a maneira mais óbvia de os avaliar, com menos custos e menos complicações processuais, seria através do tratamento estatístico dos resultados dos alunos em exames nacionais, cientificamente rigorosos e pedagogicamente lúcidos."
Grande ideia. Um bom professor com maus alunos teria uma má avaliação e um mau professor com bons alunos uma má avaliação. Porque não por moeda ao ar?
De resto, não vejo no seu post nenhuma proposta: só críticas, e a maioria demagógicas e de raciocínio circular.
Correcção à ligação à citação de Vitorino Magalhães Godinho:
Deixem-nos ensinar
Dizer que os exames não devem contar para a avaliação não faz sentido.
Obviamente, como qualquer pessoa racional em bom juízo concluirá, contaria para a avaliação dos professores a variação na nota dos alunos relativamente a anos passados. Assim, um professor teria mais mérito se o seu aluno subisse de um 8 para um 10, do que se descesse de 18 para 17.
"Por outro lado, muitos responsáveis educativos querem implantar nas escolas as suas ideias educativas pretensamente científicas. Estes responsáveis vêem então na avaliação uma maneira de impor aos professores os seus modelos pedagógicos positivistas."
Dou um exemplo desta situação: como aluno, os testes de avaliação a Inglês apenas contam 55% para a nota...desta forma, há apenas uma variação de 7, 8 ou 9 valores entre o melhor e o pior aluno.INCRÍVEL!!!!
O que os professores querem é trabalhar o menos possível e subir na carreira o mais depressa possível. Aliás o que todos queremos. Por essa razão, tem de existir avaliação definida pela tutela, de forma a contrariar estes dois vectores: Ou seja, que os professores trabalhem mais e que se restrinja a evolução aos melhores por razões de ordem financeira. O resto é dialética.
Obrigado a todos pelos comentários. O que está em causa é o seguinte: nem esta nem qualquer outra avaliação concebível de professores poderia funcionar para melhorar o ensino. Esta não funciona porque não tem sequer a pretensão de avaliar a qualificação profissional dos professores, mas apenas 1) poupar dinheiro e 2) pressioná-los para dar boas notas aos estudantes de qualquer maneira, quer os estudantes saibam quer não.
A verdadeira questão é esta: como estimular os professores a fazer um trabalho melhor com os estudantes? A resposta óbvia é: fazendo melhores programas, publicando melhores livros, dando formação de qualidade aos professores, orientando o seu estudo e o seu trabalho. O resto é mentira política centralista. Mas é mais fácil e dá mais currículo fazer tolices legislativas do que o trabalho duro e modesto de fazer trabalho real em prol da excelência educativa.
A fantasia paga-se caro e neste caso é a fantasia de que é possível fabricar sucesso escolar por decreto. O resultado é a confusão conceptual profunda entre sucesso escolar e índices de reprovação. O que os responsáveis educativos querem é menores índices de reprovação; mas como não distinguem isso de sucesso escolar, não vêem que a um menor índice de reprovação pode não corresponder mais sucesso escolar, mas sim menos — no sentido em que o estudante até pode saber menos, desde que não reprove.
Um tratamento estatístico dos resultados em exames permite saber com razoável precisão os casos em que um professor está a fazer um mau trabalho. Imagine-se a turma X, que tem resultados excelentes em vários exames, excepto no exame U. Imagine-se que alunos da turma Y, da mesma escola, têm bons resultados nesse exame U. Basta cruzar estes dados para se perceber que há algo errado com o professor. Isto estatisticamente é fácil de fazer. Contudo, não defendo que o professor deva ser castrado, queimado vivo ou mandado para os corredores do Ministério da Educação. Defendo apenas que se torna evidente que esse professor precisa de receber formação, de estudar e de mudar de hábitos de trabalho. Se ele ganha mais ou menos ou se progride mais ou menos na carreira é irrelevante para o estudante. Tudo o que interessa para o estudante, e para o país, é que esse professor passe a dar melhores aulas. Não é do interesse dos estudantes nem do país um sistema em que uns professores ganham mais e outros menos, mas todos continuam a dar aulas da treta porque os programas são maus, os livros que usam são maus e as exigências para progredir na carreira nada têm a ver com a qualidade do ensino mas unicamente com critérios burocráticos, preenchimento de fichas e delírios falsamente pedagógicos.
Nem esta nem qualquer outra avaliação concebível de professores poderia funcionar para melhorar o ensino.
Caro Sr. Desidério Murcho,
A sua opinião é perfeitamente clara com essa frase, mas permita-me que lhe pergunte uma coisa acerca da sua solução óbvia:
Imaginemos que eu sou professor. Por que razão haveria eu de investir tempo, esforço, atenção, na melhoria do meu desempenho? Se o meu desempenho não tem resultados na minha carreira nem no meu vencimento fazer esse investimento não é uma decisão racional.
"Um tratamento estatístico dos resultados em exames permite saber com razoável precisão os casos em que um professor está a fazer um mau trabalho."
Esse tipo de análise estatística não é tão simples assim. No caso a que se refere, por exemplo, a sua conclusão padece de um falácia grosseira: presume que as turmas são comparáveis o que pode não se verificar. Eu sei que no meu tempo havia disparidades grandes nos resultados de diferentes turmas.
Em todo o caso admito que seria possível aferir o desempenho de um professor caso se fizessem exames anuais em todas as disciplinas. Seria um trabalho complexo que demoraria alguns anos a elaborar e seria sempre polémico, mas eu concordo que valia a pena investir nisso.
Desculpe Desidério, mas acho que esta a desconversar. O que você esta a dizer é que a avaliação deve ser feita em função de resultados objectivos e significativos. Acho que ninguém contesta essa afirmação. Nesse sentido, os resultados alcançados pelos alunos em exames nacionais podem ser um instrumento a ter em conta, mas não chegam, porque podem nalguns casos não ser significativos (um professor de alunos menos dotados não é necessariamente um mau professor, nem um professor de alunos dotados necessariamente um bom professor).
Diz também, e isto faz sentido, que a avaliação não deve ser concebida (principalmente) como um instrumento de progressão na carreira, mas antes como uma forma de medir o que deve ser melhorado, inclusive por acções de formação. Mas também ninguém contesta este facto e parece-me obvio que, num processo de avaliação, a questão da formação deve ser abordada sistematicamente (a formação pedida pelo avaliado, a sugerida pelo avaliador, etc.).
Vamos dar de barato que você tem razão quando afirma ser acima de tudo necessario acompanhar os professores na sua formação e na aquisição de competências pedagogicas. Como é que se faz para saber se os esforços feitos nesse sentido estão ou não a surtir efeitos ? Pela avaliação dos professores... E como é que se faz para saber em que medida os programas estão adaptados às necessidades dos alunos e dos professores ? Também é pela avaliação...
Recusar a avaliação por principio é, quanto a mim, uma evidente contradição. Mais ainda falando de professores cujo trabalho consiste, numa larga medida, em saber avaliar correctamente os seus alunos para ver se eles adquiriram ou não as competências e os conteudos que a escola tem o dever de transmitir...
Caro Desidério, li tudo na diagonal e tenho a dizer o seguinte:
"seria através do tratamento estatístico dos resultados dos alunos em exames nacionais, cientificamente rigorosos e pedagogicamente lúcidos."
É mentira isto. Eu fui aluno de 18 a física e tirei 6 no exame nacional. Porquê? Porque já não precisava da nota de Física para entrar na Universidade. E como o meu exemplo há vários. É complicado arranjar uma maneira de avaliar justamente um professor. Talvez até seja impossível. Há matérias que, por muito tempo que passe, mantêm-se iguaia. Há outras que evoluem, exponencialmente, mas não há necessidade de ensinar essa evolução, porque não faz parte da matérias a leccionar. Há professores que, por muito cultos, auto-didactas e dedicados que sejam, simplesmente não sabem dar aulas. É preciso arte, sinceramente, trabalho também é necessário, mas não é qualquer pessoa que aguenta 8 horas a dar aulas por dia, chegar a casa e ter família para cuidar. Eu cheguei a fazer um post sobre o que é ser um bom professor:
http://mindmakers.wordpress.com/2008/10/28/o-que-e-um-bom-professor/
Até que ponto é possível verificar os pontos que eu viso são, de facto, cumpridos, é algo que me transcende.
Rui Peres
Mindmakers e João Viegas:
Factos como um aluno de 18 ter 6 ou 7 no exame nacional por não precisar da nota ou haver alunos menos dotados que outros (nomeadamente, mas não só, em meios desfavorecidos) não são realmente objecções contra a ideia de que os resultados dos exames nacionais devem ser tidos em conta numa avaliação dos profs.
Porque quem defende isso normalmente defende também que os alunos para terem aprovação na disciplina (ainda que o prof lhes desse 20) deveriam ter pelo menos 9,5 no exame. Por outro lado, o que contaria não seria a média dos exames mas a coerência entre esta e as notas dadas pelo professor.
E claro que se avançasse com uma tal avaliação outros critério teriam que existir (como a qualidade dos testes e outros materiais didácticos concebidos pelo professor) e a qualidade das próprias aulas.
Mas sem considerar os exames e outras formas de avaliação externa a avaliação dessa qualidade seria rapidamente distorcida por diversos factores subjectivos: relações afectivas e pessoais entre avaliadores e avaliados e sobretudo diferentes concepções pedagógicas.
O Desidério Murcho tem razão quando diz que tem de se apostar e insistir na elaboração de bons programas, de bons livros, etc. Mas precisamente a existência de formas de avaliação externa como os exames (tendo estes reflexos na avaliação dos profs) seria um estímulo, uma saudável pressão, para que mais professores tentassem ler bons livros e apostassem a sério na sua formação científica.
Sem uma pressão desse género duvido que se consiga, por bons que sejam os livros e por competente que seja a acção de alguns autores e formadores (como é o caso do próprio DM).
Basta ver as tiragens dos livros em Portugal: temos cerca de 143 mil profs - se estes tivessem quase todos hábitos regulares de leitura e de estudo as tiragens seriam decerto maiores.
Caro Peres,
Se foi aluno de 18 a física e foi ao exame tirar 6 é porque não sabia física. Se soubesse porque razão isso aconteceu? Recusou-se a fazer o exame? Essas situações não são comuns. Um aluno de 18 em regra só por uma situação excepcional é que tira 6. então o Peres sabia, mas porque não precisava do exame, esqueceu-se? Isso prova somente o que o Desidério tem defendido, que teve um mau ensino em física, formal e baseado na memorização, razão pela qual, de repente, deixou de saber física. Espero que não me leve a mal.
Carlos Pires, parabenizo-o pelo seu discurso!Concordo com ele a 100%.De facto, apesar de concordar, em traços gerais com a opinião do Desidério Murcho, penso que ele não tem razão na questão da avaliação.
Mesmo que os programas sejam bons, que haja acções de formação, etc, apenas se pode esperar que os professores realmente melhorem se para isso forem "obrigados".E penso que isto nem sequer é controverso:é inerente ao comportamento humano!Não se pode esperar que toda uma classe evolua só porque PODE.Terá que ser OBRIGADDA.
Caro Rolando Almeida, concordo consigo, em certa medida...
Vamos supor que o sistema de ensino me encorajou a ter um sistema de estudo do estilo do "decorar".Se a nota do exame for irrelevante para o acesso à faculdade, não estudarei e terei uma má nota.Deverá o meu professor ser penalizado por isso?NÃO!Qual a solução?Tornar os exames relevantes para a entrada à faculdade!Para evitar que um "azar no exame" fosse demasiado prejudicial para um dado aluno, deveria existir mais e mais bem feitos exames.E isto dito por um aluno (sim, também há aqueles(eu)que defendem os exames...)
Numa nota final, queria acrescentar que a avaliação externa, como já alguém postou, faz muito mais sentido:a interna leva a promiscuidades...;mesmo no caso dos alunos, a avaliação interna põe em desigualdade os alunos do sector privado e público, não tendo em conta a diversidade do nível de exigência entre as várias escolas.
Concluindo, quero reforçar que, na minha óptica, mais exames (porque não uma vez por período a todas as disciplinas?) ajudariam a resolver muitos dos problemas do nosso sistema educativo!
Cuidado, nunca disse que a minha nota se devesse 100% à não necessidade da nota naquele exame. Apesar de não precisar da nota e ir na "desportiva" também admito, sem qualquer vergonha, que os conhecimentos que possuía para aquele exame eram baixos. Mas até que ponto um professor deve ser responsabilizado? É que além do trabalho na escola, também existe o trabalho do aluno em casa. Ou estão à espera que 4 horas semanais de física são suficientes para passar, por muito bom que o professor seja? Parece que com isto estamos a responsabilizar o professor de tudo. E depois também há o caso em que o professor é incompetente, mas o aluno passa porque tem explicações. E como estes casos há muitos mais. Por outro lado, a relação nota do exame/ qualidade do docente não é, pelo que eu disse e por mais razões que neste momento me lembro, tão fiável como se está a fazer crer aqui. Rolando, claro que não levo a mal.
Rui Peres
Carlos Pires,
Concordo com o que você diz, que é diferente do que diz o texto do Desidério (na medida em que ele se afirma contra qualquer tipo de avaliação, por principio).
Apenas acresentaria que, se é certo que uma avaliação puramente interna é critivavel (é evidente que a avaliação se deve referir a elementos objectivos, mensuraveis e não so aos palpites dos avaliados e dos avaliadores), também não devemos cair no extremo oposto, porque uma avaliação puramente externa é um mito. Ou então, deixa de ser avaliação para ser controlo, que é uma coisa diferente. A avaliação deve ser um instrumento em que o avaliado se confronta, de forma séria e honesta (e construtiva), com as dificuldades que ele encontra no exercicio das suas funções. E normal (embora não seja suficiente) que o avaliado comece por se pronunciar sobre os objectivos que ele proprio se fixou. E mesmo crucial que assim aconteça. Uma avaliação puramente externa é também uma avaliação contraproducente. Quem tem que perceber o que esta mal, o que pode ser aperfeiçoado, e como, é primeiro o proprio avaliado. Isto é mais valido ainda no dominio do ensino, porque a correlação entre o trabalho do professor e os resultados alcançados não é simples. Como noutras matérias (e mais até que na maioria delas) é impossivel fazer uma avaliação correcta do trabalho do professor sem recorrer à experiência adquirida... por quem ensina.
No resto, concordo com o seu texto.
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