segunda-feira, 17 de Novembro de 2008

A função da escola


O leitor Luís Ferreira escreveu um comentário que merece maior exposição. Ei-lo:

Parece-me que a Escola perdeu a sua função essencial de transmissão de conhecimentos e passou a ser uma coisa qualquer sem forma, sem função clara para a sociedade que a sustenta. A Escola não foi inventada nem para o aluno, nem para o professor, nem para o político, nem para o pedagogo, nem para o sociólogo. A Escola foi inventada para que os que não sabem possam aprender com os que sabem. Ou seja, para o Ensino.

Se centrarmos de novo a função da Escola, os problemas que hoje temos desaparecem, em grande medida. A Escola como campo de concentração, como jardim infantil, como espectáculo, como "educadora", isto é, como transmissora explicita de ideologia, destruiu a lógica da Escola de outros tempos. Por arrasto surge todo um conjunto de problemas ligados a esta descaracterização da sua função. A escola não cumpre e é geradora de desigualdades.

Ela, só por si, cumprindo estritamente o seu papel, ensinando, já teria carga ideológica que bastasse e já diria o suficiente do regime que a sustentasse. Diria que se tratava de um regime que se preocupava com as gerações mais novas e que queria que essas gerações, beneficiando dos conhecimentos acumulados, estivessem mais aptas para o seu futuro e pudessem ir mais longe que a gerações anteriores. Com essa pretensão, também iria mais longe a sociedade que essas gerações constituíssem e, assim, cumpria-se o papel civilizacional da Escola. Com essa pretensão, as gerações sucessivas das classes sociais mais baixas ir-se-iam promovendo socialmente, ao invés do que se faz hoje que é alargar o fosso que separa as diferentes bandas sociais existentes. A utopia de esquerda da sociedade sem classes poderia ser cumprida de baixo para cima, não de cima para baixo, aniquilando o existente, como se entende de muita retórica e prática. Os valores do trabalho e do esforço, que na Escola são, aparentemente, valores de direita, retrógrados, teriam que ser tomados por uma certa esquerda que anda perdida ao sabor das teorias sociais "científicas". Estes teóricos pretendem, erradamente, que o real se ajuste à teoria, em vez de pretender apenas, modestamente, que as suas teorias consigam explicar a realidade.

O que é certo é que a Escola funcionou muito bem enquanto teve principalmente os propósitos de ensinar, talvez sem o saber, e deu ao mundo grandes génios, grandes homens de cultura e fez, de facto, avançar a sociedade. Se avaliarmos a relação do desenvolvimento verificado, com os recursos materiais e humanos envolvidos no processo, percebemos que a escola, enquanto veículo de transmissão do conhecimento acumulado pela Humanidade, funcionou muito melhor do que Escola de hoje, que faz pesar exageradamente o papel ideológico da chamada "educação" na sua função.

A Escola foi inventada para os que sabem ensinem os que ainda não sabem. A Pedagogia serve apenas para que aqueles que sabem possam ensinar melhor aqueles que ainda não sabem. A Sociologia, se olhar para o passado, está a fazer História, se olhar para o presente, está a tirar retratos, se olhar para o futuro, está a fazer política. Não percebo porque é que tem havido tanto sociólogo a tomar conta da Escola.

Recentrem a função da escola e deixem os professores ensinar, dando-lhes condições para o fazerem bem.

Luís Ferreira
Ilustração: Quartos Para o Mar, de Edward Hopper

13 comentários:

  1. A escola hoje está com os principios desvirtuados não por culpa da cúpula que trabalha lá (professores, diretores, serventes...) mas sim pelos que estudam. Se você der uma voltinha numa dessas escolas púlicas irá ver o quando os alunos não ligam pro significado real da escola (o aprendizado). Isso está relacionado diretamente à forma de viver em que eles estão envolvidos.
    Gostei do texto. Escrevi alguma coisa no meu blog também pois estão dando uma responsabilidade para escola que não pertence a ela.
    Abraços

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  2. Quase que concordo com tudo. Só considero que o conhecimento não se transmite mas sim aprende-se. É o indivíduo que procura o conhecimento e não o conhecimento que procura o indivíduo. Essa é a base da escola criar condições humanas, materiais, sociais... para que as aprendizagens aconteçam.

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  3. ...tanto sociólogo a tomar conta da Escola.

    Quais sociólogos? não é isso que consta. Antes fossem sociólogos, pode crer que não estaríamos aqui a comentar!

    O que está a acontecer é que a Escola e o Ensino estão completamente minadas pelas corrosivas e manipuladoras ideias do que é o psicanalítico e porque assistido pela recente Universidade da Psicologia e Ciências da Educação, como a única autoridade (em seus ditos de especialistas) validada pelo Ministério de Educação. E são estes, que formam e formatam como muito bem lhes apraz e a fazerem deste mesmo Ensino como se de uma negociata experimental se tratasse. E assim intrometem-se em todas as áreas e sem qualquer incumbência para tal, como foi o caso do Ensino Artístico...
    E por isso, todo o Ensino está como está: pior que nunca!
    Se nada se fizer e a ir-se ao fundo da questão para alterar todas estas incompetências e prepotências ministeriais, com certeza que iremos pior ainda mais!

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  4. Luís e Desidério,

    Peço apenas permissão para assinar a matéria. Ensino é palavra interditada no discurso dos pedagogos. E as bobagens centradas no aluno estão a produzir uma ignorância que essa gente acha que é conhecimento construído pelos estudantes. Já é mais que hora de as escolas voltarem a ser centrosd e promoção doss aberes que os homens (e mulheres) produzem na história. Abraço, Jarbas.

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  5. O maior problema além da burocratização das escolas, é mesmo a qualidade dos educandos. Cada vez mais os pais se demitem do papel de educadores, e os meninos chegam à escola com muito pouco respeito pelos professores, atitudes completamente desadequadas e motivação zero para aprenderem certas matérias. É impossível ensinar quem não quer aprender rigorosamente nada e que acha à partida que a escola é uma seca.

    E não me venham agora aqui dizer que é dever do professor educar os meninos e motivá-los para a aprendizagem. Também é, mas o principal desse trabalho deve ser feito em casa pelos pais. As escolas não são repositórios de pedantes mal-educados sem exemplos de autoridade em quem ninguém tem mão!... Apre. Venha a ministra aturar os "meninos".

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  6. Para que a escola volte a exercer a função que lhe coube desde o início, a sociedade precisa realmente acordar, exigir os seus direitos e fazer a sua parte.
    Bastam as teorias. Necessita-se de práticas eficazes.
    Um abraço!

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  7. É com grande tristeza que vejo pessoas cultas e instruídas, que provavelmente sabem escrever melhor que eu, fazer melhores cálculos, ou mesmo melhores experiências físicas e químicas, a falar desta forma da escola.
    A escola não se trata de saberes assimétricos. Não se trata de ensinar e aprender. Mas sim de partilhar! Quando me instruíram para formar pediram para falar para as audiências como se estivesse a falar para bebés de 3 anos. Só passados uns anos percebo a dificuldade que acarreta transformar o complexo em simples, e o antes inapropriável em algo em algo ao alcance de todos.
    Se os alunos não querem aprender não será apenas por sua culpa, parece-me a mim que um sistema sem sentido os perdeu por falta de capacidade de os cativar.

    Enfrentem-se os desafios. A mudança começa em nós!

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  8. Sem querer aborrecer com uma análise a todo o texto, que em minha opinião contém algumas verdades esquecidas, permito-me alertar para o que considero um erro grave implícito mesmo na última frase, que contém "deixem os professores ensinar".

    Escrevi noutro sítio: «A expressão tão ouvida nestes dias – "Deixem-nos ser professores" – quer dizer basicamente isto: o nosso trabalho é ensinar, não é avaliar os colegas, a avaliação é desperdiçar tempo que seria útil a ensinar por causa de coisas inúteis que são laterais à nossa função. Mas essa ideia está radicalmente errada: a escola é uma organização, os professores trabalham em equipas e, em qualquer organização e qualquer equipa deve haver cooperação e, para isso, parte das tarefas essenciais são precisamente organizativas. Como, vitalmente, é o caso da avaliação.»

    Debruço-me sobre isto em 10 teses sobre a crise da avaliação docente .

    Cumprimentos.

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  9. A escola é, hoje em dia , uma aprendizagem mútua de saberes mas para isso é necessário que se criem condições para que esse aprendizado se faça naturalmente e de um modo satisfatório para todas as partes, alunos e professores,criando-se entre eles elos motores de motivação para quem aprende e gosto por quem ensina, certo que na correspondência biunívoca entre os diversos elos do conhecimento e dos saberes, estará o caminho para o sucesso. Não vale é desviar cada um, dos papéis que representa neste teatro da vida que é o Ensino, inventando regras e atarefando-os com tarefas e burocracias que nada tem a ver com as aprendizagens. E aqui acho que corremos celeremente para um abismo do qual poderemos não nos safar. E aí a responsabilidade maior é de quem governa que não percebe os sinais, muitas vezes bem marcados e visíveis, que são transmitidos pela sociedade civil.

    Daniel Braga

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  10. Caro Porfírio,
    Tenho lido algumas coisas que tem defendido da avaliação de professores e já pude notal que não percebe nem o que é a actividade docente no ensino secundário e está algo deslocado do que é que este modelo propõe e envolve. Espero ir esclarecendo alguns pontos. Em primeiro lugar não se trata de chegar todos ao topo da carreira: trata-se:
    1) do modo como tal se faz
    2) que esta medida chega para punir mesmo os professores que estavam a fazer a sua carreira e não somente para os novos.
    Creio que sabe do que é que isto acarreta para as pessoas. Imagine-se lá a meio da carreira e de repente ver todas as suas expectativas ir por terra. Depois, se pensar um pouquinho facilmente perceberá a subtileza do processo: ora, até estamos de acordo que nem todos devem chegar ao topo da carreira, mas não estamos assim tão certos de que só uma percentagem muito pequena o consiga. Daí que a existência de cotas para o topo afaste automaticamente a maioria dos professores da corrida. Resultado: em vez de premiar o mérito desmotiva a maioria pois sabem que não chegarão lá. Mais: um professor para chegar ao topo da carreira nem sequer precisa de ser um bom professor. Precisa, por exemplo, de ser ambicioso em termos de poder para chegar a ocupar cargos de chefia na escola. Esse chega lá, ao passo que outros que são bons, mas não exercem cargos directivos jamais serão professores titulares. isto para não falar de professores que vão avaliar colegas que setão a concorrer exactamente para o mesmo escalão. Não é racionalmente possível defender-se uma psicofoda destas, a menos que:
    1) se esteja desinformado
    2) se seja estúpido.
    Espero tê-lo ajudado a compreender melhor o que envolve esta avaliação.
    abraço

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  11. MARAVILHOSA MATÉRIA, ESTOU FORMANDO-ME EM PEDAGOGIA E E SEMPRE QUE NECESSITO, ACESSO ESTA PÁGINA. PARABÉNS E POR AQUI SEI QUE TENHO MUITO PRA APRENDER.

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  12. Concordo com parte do que disse a Alice. "Que sociólogos?" Antes fossem sociólogos! Em maioria dos casos estão dirigindo escolas aqueles de "QI", ou seja, que são indicados por conveniência, troca de favores (votos) em tempos de politicagem...

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  13. Esse artigo tem muita semelhança com a linha de penamento de Olga Pombo em O insuportável brilho da escola, onde a autora enfatitiza as três razões desveladas por Hannah Arendt, na compreenssão da escola escrito em seu único sobre a educação intitulado Acrise da Educação.
    Sabemos que a escola está perdendo a sua identidade que é ensinar e se tornando cada vez mais multifuncional em absorver funções que são meramente de responsabilidade da família e da sociedade como um todo.
    Ruth Aglaiss

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