Ensinar melhor
Eis a minha habitual crónica das terças-feiras do Público:
A solidez da formação científica dos professores é um factor crucial para a qualidade do ensino. As universidades nem sempre fizeram um trabalho de qualidade, tendo formado alguns professores com carências científicas. Isto seria hoje mais fácil de colmatar, porque se pode comprar na Internet bons livros introdutórios estrangeiros; mas como alguns professores não lêem qualquer língua estrangeira (e até com a portuguesa têm dificuldades), o esforço de qualificação dos professores tem de incluir a tradução de bons livros introdutórios de física, português, filosofia, história, etc., adequados para os diversos graus de ensino. Sem bibliografia introdutória de qualidade não há ensino de qualidade.
Um segundo factor crucial para a qualidade do ensino é o modo como o professor reage às carências culturais e educativas do estudante. O professor tem de encarar como muito grave que os estudantes reprovem — não pode simplesmente declarar que os estudantes não estudam e não valorizam a escola. Se isso acontece, compete ao professor mostrar aos estudantes, à família e à sociedade o valor do estudo. Dificilmente o professor que não estuda, não tem praticamente livros em casa e não lê regularmente livros da sua área pode desempenhar este papel.
Exames nacionais rigorosos são simultaneamente uma maneira objectiva e simples de avaliar professores e escolas, e de estimular os estudantes a esforçar-se. Mas é evidente que se uma parte significativa dos estudantes reprovar nos exames, já é tarde de mais para fazer alguma coisa. Assim, deve-se associar a exames nacionais rigorosos medidas enérgicas para os professores e escolas cujos alunos reprovarem. Os exames devem ser vistos, por professores e estudantes, como um desafio importante. O que importa é encarar esse desafio como algo que dignifica a escola, os bons resultados como algo que está ao alcance de qualquer estudante e que é importante para qualquer estudante. Compete aos professores passar esta mensagem aos alunos mais carenciados, e dar-lhes mais apoio escolar.
Os responsáveis educativos têm eliminado dos curricula os conteúdos vistos como académicos, fazendo programas com conversa fiada e eliminando as próprias disciplinas centrais, para as substituir por mais conversa fiada. Isto não funciona junto dos alunos culturalmente mais carenciados porque quanto mais vagos forem os conteúdos, mais informação cultural de fundo eles precisam para os compreender. Conversas vagas sobre o mundo contemporâneo, sobre tudo e sobre nada, não estimulam alunos culturalmente carenciados — que podem contudo sentir-se fascinados por uma apresentação inteligente de aspectos fundamentais do sistema solar, trigonometria ou história. O segredo é o modo de apresentação dos conteúdos, com linguagens simples mas não simplistas e de modo estimulante mas não infantilizador. Isto exige dos professores e responsáveis educativos um domínio científico sólido das matérias e uma forte sensibilidade social e didáctica.
Um segundo factor crucial para a qualidade do ensino é o modo como o professor reage às carências culturais e educativas do estudante. O professor tem de encarar como muito grave que os estudantes reprovem — não pode simplesmente declarar que os estudantes não estudam e não valorizam a escola. Se isso acontece, compete ao professor mostrar aos estudantes, à família e à sociedade o valor do estudo. Dificilmente o professor que não estuda, não tem praticamente livros em casa e não lê regularmente livros da sua área pode desempenhar este papel.
Exames nacionais rigorosos são simultaneamente uma maneira objectiva e simples de avaliar professores e escolas, e de estimular os estudantes a esforçar-se. Mas é evidente que se uma parte significativa dos estudantes reprovar nos exames, já é tarde de mais para fazer alguma coisa. Assim, deve-se associar a exames nacionais rigorosos medidas enérgicas para os professores e escolas cujos alunos reprovarem. Os exames devem ser vistos, por professores e estudantes, como um desafio importante. O que importa é encarar esse desafio como algo que dignifica a escola, os bons resultados como algo que está ao alcance de qualquer estudante e que é importante para qualquer estudante. Compete aos professores passar esta mensagem aos alunos mais carenciados, e dar-lhes mais apoio escolar.
Os responsáveis educativos têm eliminado dos curricula os conteúdos vistos como académicos, fazendo programas com conversa fiada e eliminando as próprias disciplinas centrais, para as substituir por mais conversa fiada. Isto não funciona junto dos alunos culturalmente mais carenciados porque quanto mais vagos forem os conteúdos, mais informação cultural de fundo eles precisam para os compreender. Conversas vagas sobre o mundo contemporâneo, sobre tudo e sobre nada, não estimulam alunos culturalmente carenciados — que podem contudo sentir-se fascinados por uma apresentação inteligente de aspectos fundamentais do sistema solar, trigonometria ou história. O segredo é o modo de apresentação dos conteúdos, com linguagens simples mas não simplistas e de modo estimulante mas não infantilizador. Isto exige dos professores e responsáveis educativos um domínio científico sólido das matérias e uma forte sensibilidade social e didáctica.
Ilustração: Estúdio, de Raoul Dufy

5 comments:
Caro Desidério,
Deixe-me felicitá-lo por ter introduzido uma questão que eu considero importantíssima neste debate sobre a Educação e a Escola (com maiúscula), e que é a da competência e actualização científica dos professores.
Parece-me que a necessária e constante actualização nas respectivas áreas do saber pelos professores, deve ser um dos pilares fundamentais da formação dos professores.
Não me parece que o tenha sido, minimamente sequer, estimulado por parte do Ministério da Educação, onde pululam hordas de funcionários cuja única linguagem é o eduquês - conceito atacado por Nuno Crato.
O que eu tive que penar para que o ME me reconhecesse o Mestrado, na área científica que lecciono, pois não fazia parte da lista de cursos directamente relacionado com a Pedagogia...
Aguardo igual travessia do deserto para o Doutoramento...
Luís Azevedo Rodrigues
Desidério,
Gostei do seu comentário, especialmente pela parte inicial em que afirma que sabe que as universidades nem sempre fizeram o seu trabalho como deviam, tendo distribuído diplomas a quem não os merecia (a quem não os podia e devia ter!). Sou da opinião que hoje a desgraça do ensino secundário e do ensino básico é a desgraça também das universidades. Sei que é Professor universitário e é por isso que comento. Já deve ter notado que é fácil criticar os coitados dos professores do ensino “inferior”. Tenho é pena de não ver ninguém a chamar a atenção devida para a realidade interna do ainda chamado ensino superior. Posso ser dos poucos, mas tenho uma profunda descrença nele, e sou estudante “universitário”. Os professores de amanhã vão ser alguns dos meus colegas e dá-me vontade de nem ter filhos. Basta imaginar noutros locais, outras disciplinas e outras pessoas que, com as carências que levam do ensino secundário, chegam à universidade e se deparam com professores cientificamente débeis, onde, pela massificação dos estudantes e pela deficiente valência intelectual dos formadores, o facilitismo começa a ganhar foros de cidade e a universidade com que alguns ainda sonhavam (eu incluído) parece uma ideia tola vinda de qualquer outro planeta. Também não estou a dizer nada de novo, por exemplo para a minha área é ver o Prof. Gomes Canotilho na RTP1 dizer que o ensino universitário passou a ensino secundário reforçado, e ver o Prof. Paulo Ferreira da Cunha escrever num seu livro que a “universidade foi tomada de assalto pelos bárbaros” – os ignorantes. No meio disto tudo, fico sempre com a sensação que há uma espécie de lobby universitário que impede um debate sério e profundo sobre o estado calamitoso da universidade portuguesa. Por mim a atenção não estava em primeiro lugar nas escolas, estava nas universidades.
Diz o Desidério :
“Exames nacionais rigorosos são simultaneamente uma maneira objectiva e simples de avaliar professores e escolas e de estimular os estudantes a esforçar-se.”
Estou totalmente de acordo.
Aliás, no sábado passado, depois de ler o artigo do Miguel Sousa Tavares, no Expresso, acerca da saga da avaliação dos professores, artigo com o qual discordei em absoluto, enviei uma carta ao jornal, via e-mail, defendendo a ideia da implementação de exames nacionais rigorosos, concebidos e classificados por entidades independentes.
Com efeito, os resultados dos alunos parecem ser a única forma objectiva de avaliar os professores. E se os professores recusassem ser avaliados através dos resultados dos alunos, obtidos num sistema de exames sério, que contemplasse as necessárias correcções por via da normalização estatística para o todo nacional, bom, então sim, teríamos o caldo entornado.
O problema é que implementar um sistema sério de exames nacionais obrigaria o Ministério da Educação a retomar conceitos que há anos vem desvalorizando. Mas não é admissível que, para evitar maçadas ao Ministério, se lance toda esta perturbação na classe dos professores.
foi com satisfação que li este post. Fico satisfeita por ainda encontar bons blogs que se centram em assuntos importantes. E como aluna do secundário (prestes a terminá-lo) e vivendo um secundário atribulado (desde 'estatuto do aluno' à 'avaliação dos professores') digo que concordo em pleno com o seu artigo. Pena minha, que a maioria da classe de professores nao pense assim. E infelizmente, os alunos é que ficam prejudicados, fazendo então mais professores iguais aos que já existem. E entramos, portanto, num ciclo vicioso, num túnel onde não se avista luz nem ao fundo nem pelos lados. Creio que os professores a nível secundário estão como que mal acostumados. De quem é a culpa? Não me cabe a mim apontar dedos. Sou uma mera aluna que se preocupa com o seu futuro e gostaria de ver os seus professores mais interessados nos seus alunos e não tanto em si próprios. Porque admito que por vezes sinto dificuldades (felizmente não muitas) e que tenho colegas com bastantes dificuldades... e infelizmente, professores que nem sequer se dão ao trabalho de preparar uma mera aula de noventa minutos. Onde chegam, se limitam a ler a matéria nos manuais escolares e ainda procuram (ali mesmo à frente) por exercícios que se adequem à matéria dada para que os alunos os façam. Infelizmente, caro professor, existem professores assim e que por muito que custe, não devem ligar o mínimo à área que ensinam... infelizmente, não são todos como o senhor.
Obrigado pelas suas palavras, Elizabete. O que podemos fazer é cada um de nós ter uma atitude construtiva e fazer bem o que vemos outros fazer mal.
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