quinta-feira, 26 de junho de 2008

Exames fáceis?

Depoimento que prestei ao "Jornal de Leiria", que me perguntou se concordava que os exames estavam cada vez mais fáceis:

Os professores e os pais convergem na opinião de que há um esvaziamento dos exames nacionais. Quanto aos alunos, basta ver o que dizem na TV à saída das provas. Eu fui ver alguns exames deste ano e parece-me que alguém anda a brincar com o esforço de professores e alunos. Teme-se o pior: pelo caminho que as coisas levam, qualquer dia o exame de Portumática do 9º ano - uma só prova para ser mais fácil - será escrever a palavra "batata", dizer se é nome ou substantivo (a ver se sabe as TLEBS), contar o número total de letras dessa palavra e, finalmente, traçar uma circunferência à volta do resultado. Claro que vai ter a cotação toda um aluno que conte três, pois contou correctamente sílabas em vez de letras, e que desenhe um quadrado em vez de uma circunferência, pois também é uma figura geométrica. Seria cómico se não fosse trágico!

15 comentários:

  1. Segundo orientações do GAVE, que recebi ontem como classificador da prova de Matemática do 9º ano, se um aluno fizer o cálculo 3x3=38, conta-se como se estivesse certo, mas se o aluno apresentar o cálculo 3 ao quadrado igual a 8, conta-se como errado.
    Se um aluno escrever que 64+64=182, está bem (É uma dislexia). Se escrever 64+64=124, está mal.
    Também ouvi a afirmação de que se os critérios forem aplicados da mesma forma a todos os alunos, então a avaliação será justa. Será difícil perceber que se os critérios de correcção não são justos, jamais a avaliação deles resultante pode ser justa?
    O que se poderá dizer é que a aplicação dos critérios foi uniforme, mas não se diga que foi justa.
    Sou obrigado a seguir estas orientações superiores, mas que me custa muito, custa. Que é um osso difícil de roer, ou uma espinha atravessada na garganta, lá isso é.

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  2. Entretanto aqui ao lado...
    http://paulomartinsbastosdesigner.blogspot.com/2008/06/arturo-prez-reverte-permitidme-tutearos.html

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  3. Realmente, os critérios de avaliação são muito maus. Eu tenho tido oportunidade, de ver de perto os critérios de avaliação para os exames de português do 9º ano. Posso-vos dizer que é uma vergonha. Gostei bastante da parte:


    "Claro que vai ter a cotação toda um aluno que conte três, pois contou correctamente sílabas em vez de letras, e que desenhe um quadrado em vez de uma circunferência, pois também é uma figura geométrica."

    Porque isto está a ir por um caminho que Deus me livre. Depois as pessoas, chegam à universidade e dizem que não têm bases. Enfim, por um lado querem algo fácil para passar, por outro, não têm capacidades para responder à exigência do ensino superior.

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  4. É pena como o ensino em Portugal está. É pena que tenhamos de suportar isto... É pena!

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  5. Se os exames são uma vergonha, as declarações da Ministra (da Educação...?!?) ainda são mais, ao tentar tapar o sol com a peneira e ao referir o GAVE como sendo independente...

    Já as imposições de correcção são uma afronta aos professores e à verdade. Na Biologia/Geologia de 11º Ano os critérios têm aspectos que são inacreditáveis e que é preciso denunciar a todo o custo, pois corremos o risco de qualquer dia ninguém chegar à Universidade preparado para tirar um curso (talvez nessa altura a Universidade Independente possa dar licenciaturas em Engenharia ao domingo...).

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  6. Já agora, permitam-me que sugira uma visita a um Blog que trato dos assuntos da Educação, um dos mais lidos e comentados em Portugal, onde estes assuntos são discutidos:
    A Educação do meu Umbigo -
    http://educar.wordpress.com/

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  7. Uma coisa que eu gostava de saber á a percentagem de alunos que passou no exame de matemática, ao longo dos últimos 30 anos, e mesmo a também sobre os exames do antigo sétimo ano.
    Gostava de ver a evolução.
    Será que alguma vez houve mais alunos a passar do que a chumbar?
    É que se a taxa de reprovação sempre foi grande isso quer dizer que os exames são demasiado difícies e desmotivantes, e então é bom que se tornem mais fáceis, que se desloque a curva de Bell para a direita!
    Ou não será assim?

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  8. Olá a todos os postantes!Li-vos,ruminei,digeri e regurgitei o pensamento iluminado que se segue:se sabemos a matéria não há exames difíceis.
    Permitem que vos lembre que há vida para além das aulas.Aproveitemos o esplêndido Verão
    que temos e sejamos felizes mesmo
    e apesar dos problemas escolares.

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  9. Nisto dos critérios há um pormenor a acrescentar. Há os critérios escritos no documento oficial e os que são transmitidos oralmente.Eses ficam no vácuo e quando um aluno requer um reanálise das provas não são considerados. De repente aquilo que foi mandado colocar correcto ao primeiro corrector aparece errado depois do recurso.

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  10. E os critérios de correcção são dados oralmente e vão mudando reunião em reunião (hoje nas reuniões dos correctores do Exame de Biologia/Geologia de 11º Ano os critérios mudaram novamente - há que espremer tudo até à última gotinha...).

    Grande GAVE - e grande Ministra...

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  11. Com tanto controlo por parte da UE, e com a facilidade com que metem o nariz em tudo o que lhes apraz, espanta-me que ainda não se tenham pronunciado sobre este assunto, mas da forma habitual (quero, posso e mando). Venha de lá uma directiva avulso (como costumam fazer), quem tem sempre 2 objectivos: desresponsabilizar o governo e fazer acontecer alguma coisa. A culpa será de Bruxelas, e como a ordem vem de quem mete cá o rico dinheirinho, é para se fazer a tempo e horas.

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  12. Carlos Grosso, por favor explique-me como é que "se um aluno fizer o cálculo 3x3=38, conta-se como se estivesse certo, mas se o aluno apresentar o cálculo 3 ao quadrado igual a 8, conta-se como errado". Como é possível considerar 3x3=38 como estando correcto? Não consigo encontrar nenhuma justificação, e prefiro acreditar que se enganou a escrever. Por favor diga-me que se enganou a escrever!

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  13. Um lamentável post, pejado de meias-verdades e tentando justificar as políticas de facilitismo da Ministra:

    "O discurso do "facilitismo", ou o ataque ideológico à escola pública
    O ataque aos sistemas públicos de saúde e educação tendencialmente universais e gratuitos (sim, eles são pagos, mas suportados diferencialmente por quem mais rendimentos aufere, logo, são serviços que resultam da redistribuição) é o primeiro passo no caminho para criar na opinião pública a ideia da necessidade do seu desmantelamento e da sua privatização.
    Nos últimos tempos, temos assistido a uma campanha contra o serviço público de educação por parte de muitos meios de comunicação e comentadores sem o conhecimento mínimo da realidade sobre a qual discursam. O discurso do "facilitismo" do ensino público é uma estratégia óbvia para retirar a confiança das classes médias no sector, e dar a ideia que só o privado é que é de qualidade.
    O 'facilitismo' tem sido avançado como problemático na matemática. Eu já tinha feito este exercício há vários meses, mas dado o calor - e a demagogia - da discussão actual, vale a pena recordar os dados do PISA 2006, que permite avaliar o nível de literacia matemática dos alunos portugueses num contexto internacional (quadro retirado deste relatório).

    (Figura)

    Vale a pena olhar com atenção. O nosso resultado global, é verdade, é fraco: 466 (linha verde), comparado com a média estandardizada de 500 (linha vermelha) para os 57 países que participaram no estudo. Mas olhemos uma segunda vez, tendo em conta este dado: o PISA é aplicado a estudantes de 15 anos independentemente do ano de escolaridade que frequentam (15 anos é a idade escolhida por ser a que corresponde na maioria dos países ao final da escolaridade obrigatória). Portugal é o único país da Europa com tantos alunos inscritos em tão diferentes anos de escolaridade (ver as várias 'bolas'), ou seja, com tantos alunos em atraso, resultado das sucessivas retenções de que foram alvo.

    Os alunos que, com 15 anos, estão no ano de escolaridade 'certo' (ano modal) - que em Portugal é o 10.º ano - têm, afinal, um bom (para não me exceder nos adjectivos) resultado: 520. Este resultado seria impossível se o ensino da matemática estivesse a ser assaltado por um qualquer 'nivelamento por baixo'. Assim, o real problema é a diferença entre o aluno médio do ano modal e o aluno médio: comparado com outros alunos, Portugal tem uma percentagem excessiva de alunos fracos ou muito fracos, para os quais o sistema não encontra resposta (a diferença entre o aluno modal e o aluno médio é de 54 pontos(!) - isto é, 520 menos 466 -, sem comparação com o que sucede com qualquer outro país). São estes os alunos nos quais temos que pensar, seja a nossa preocupação a equidade ou a eficácia, e são eles que, tendo ficado para trás - é duvidoso que um aluno no 7.º ou no 8.º ano perceba sequer muitas das perguntas que lhe são colocadas no teste do PISA, por isso não são de espantar os resultados medíocres obtidos - exigem soluções pedagógicas extraordinárias.

    Isto não significa dizer que não existe qualquer problema no desempenho dos alunos portugueses a matemática. Existe. Mas o problema não é o 'nivelamento por baixo'. O resultado médio do nosso 'aluno modal', ou seja, que não perdeu nenhum ano no seu percurso escolar, é um bom resultado (520). O verdadeiro problema é antes a dualização entre os alunos que estão onde deviam estar e os "outros", para os quais não houve nenhuma estratégia alternativa senão, claro está, retê-los. Retê-los uma, duas, três vezes. Os alunos que estão no 7.º e no 8.º ano de escolaridade, ou seja, que foram retidos 3 e 2 vezes são, respectivamente, 6,6% e 13,1% da amostra do PISA (que é uma amostra aleatória estratificada do nosso sistema), o que perfaz 19,7% de alunos muito atrasados (isto é, 1 em cada 5). Nenhum outro país europeu se aproxima deste valor (o mais próximo, quase residual, é de 7,1% em Espanha).

    O nosso problema, repito, não é ausência de alunos de boa qualidade. Nem é sequer o facto do nosso sistema não ser selectivo. É, antes, muito selectivo - no sentido em que separa os alunos, deixando uma grande fatia deles para trás.

    O nosso problema está, para usar a esclarecedora expressão usada pelo representante da persecutória Sociedade Portuguesa de Matemática ontem num programa da SICNotícias, os alunos "mais fraquinhos" (expressão seguida de risadas adolescentes - que serviram de inequívoco marcador ideológico). O problema é sempre este: enquanto estivermos obcecados com a produção de uma 'minoria de excelência' e não procurarmos estratégias centradas na resolução dos problemas dos alunos "fraquinhos", eles vão continuar sempre a existir (por desatenção político-pedagógica cristalizada nas práticas, e não por qualquer 'efeito da natureza'). E a retenção, enquanto estratégia pedagógica, nada pode contra este problema*.

    *Esta não é uma opinião caída do céu. Só para dar um pequeníssimo exemplo, em 2001, num artigo que recenseava os estudos feitos sobre os efeitos pedagógicos da prática da retenção ao longo do tempo em diferentes sistemas de ensino, concluía que «over 50 years of educational research has failed to support any form of grade retention as an effective intervention for low achievement», in Dalton, M., P. Ferguson and S. Jimerson (2001), “Sorting out of Successful Failures: Exploratory Analyses of Factors Associated with Academic and Behavioural Outcomes of Retained Students”, Psychology in the Schools, Vol. 38(4)."

    in
    http://pensamentodomeiodia.blogspot.com/2008/06/o-discurso-do-facilitismo-ou-o-ataque.html

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  14. O cenário futuro apresentado pelo Carlos Fiolhais pode parecer exagerado, mas já andamos lá perto: no ano passado a minha irmã corrigiu exames nacionais de Português do 9.º ano e pôde verificar isso mesmo.

    Em primeiro lugar, «do 9.º ano» é uma maneira de dizer, pois não havia um único conteúdo que fosse posterior ao 8.º. (A minha irmã confirmou isso mesmo: no início do ano lectivo que agora acaba usou o exame em causa como teste diagnóstico das suas turmas de 9.º ano — que, obviamente, ainda nada tinham aprendido desse nível de ensino — e a grande maioria teve nota positiva, alguns obtiveram mesmo notas elevadas.)

    Em segundo lugar, para além das perguntas muito simples (e até ao 8.º ano apenas), os próprios critérios de correcção potenciavam o «sucesso» (a martelo): por exemplo, em cada resposta, por mais breve que fosse, os alunos poderiam dar até 4 erros ortográficos diferentes, sem que os correctores pudessem descontar 1% que fosse. (Como os erros teriam de ser diferentes, usar N vezes a mesma palavra erradamente escrita constituía um único erro.)

    Uma pergunta tinha mesmo um critério de correcção caricato: apelava à «criação», mas a simples cópia ainda garantia alguns pontos. Concretamente, um texto abordava a campanha do Banco Alimentar Contra a Fome, citando o slogan «Alimente Esta Ideia». Aos alunos era pedido que criassem um novo slogan para o BACF: segundos os critérios de correcção, o aluno que simplesmente escrevesse «Alimente Esta Ideia» teria direito a 20% da cotação da pergunta; aplicando o critério dos erros ortográficos, aquele que nessas 3 palavras desse 4 erros (p. ex., Halimente Écheta Hideia) ainda teria direito aos 20% (ou até mais, não sei: talvez os erros fossem sinal de criatividade e não de plágio mal feito...).

    Os exemplos poderiam continuar...

    Com estes critérios e este grau de exigência, os alunos da minha irmã tiveram notas no exame substancialmente melhores do que as obtidas ao longo do ano lectivo (houve quem passasse de 2 para 4 e de 3 para 5). Resultado: foi visitada por «Inspectores» da DREN, que vinham verificar as razões de, segundo eles, ela dar notas tão fracas. (A Matemática, na mesma escola, houve alunos que passaram de 5 para 1 e 2, mas os respectivos professores não foram «visitados».) A minha irmã expôs a sua visão das coisas, mas os ditos inspectores avisaram: se no final do 1.º Período as notas não melhorassem significativamente, seriam obrigados a enviar «um técnico» para auditar os seus métodos de ensino... (A minha irmã perguntou: «Técnico de quê?», mas não obteve resposta.) Durante todo o ano lectivo nunca foi visitada por ninguém, mas por duas vezes lhe telefonaram na semana anterior às reuniões avaliativas, naquilo que a minha irmã entendeu como uma tentativa de intimidação. (Parece que afinal estavam pouco interessados nos seus métodos de ensino, apenas os preocupando as notas propriamente ditas.)

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  15. É boa esta esquerda não é? Mas depois admiram-se que estão a criar a geração 500 euros. Quem se chega à frente e dá trabalho a esta geração de acéfalos acríticos que a dra. MLR está a obrigar a entrar nas nossas U´s? Como pequeno empresário recuso-me a pagar mais do que o salário mínimo, e a recibo verde, a malta que não sabe ler, escrever, contar mas que se dizem doutores e engenheiros.

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