The rules of the game: the evaluation of Portuguese research units

sexta-feira, 23 de Maio de 2008

ASSALTO NA BOMBA?


Minha crónica do "Público" de hoje:

A 2 de Janeiro passado o barril de petróleo passou a mítica fronteira dos 100 dólares. No dia em que escrevo, 21 de Maio, o preço do crude atingiu o preço recorde de 130,04 dólares. No dia em que o leitor ler este texto, estará, provavelmente, mais caro. As previsões indicam o valor de 150 dólares ainda este ano. E há quem fale já do petróleo a 200 dólares em menos de dois anos, como Arjun Murti, o “guru” da Goldman Sachs que tem sempre acertado nas suas previsões de preços. As causas são conhecidas: a baixa do dólar, a crise e a especulação nos mercados internacionais, assim como o aumento da procura (nomeadamente em potências emergentes com a China e a Índia) sem o correspondente acréscimo de oferta (no Iraque a produção nunca voltou ao que era antes da guerra e na Nigéria há instabilidade).

Quaisquer que sejam as causas, o cidadão que vai à bomba de gasolina sente no bolso os aumentos de combustíveis. O meu carro, que ficava satisfeito, quando o comprei há quatro anos, com cerca de 50 euros de gasóleo, hoje não enche a barriga com menos de 80 euros. O litro de gasóleo subiu 71,7 por cento em Portugal entre 2004 e 2007! As petrolíferas – o nosso mercado é dominado pela Galp e pela BP – atribuem a subida nas bombas à subida no crude nos países fornecedores. Será que a alta do preço do petróleo explica o grande rombo nos nossos bolsos?

É fácil perceber que não. Em primeiro lugar, se é certo que a cotação internacional do petróleo é feita em dólares, não é menos certo que nós e os europeus em geral o pagamos em euros, cujo valor tem crescido relativamente ao dólar (em Maio de 2001 o euro estava a 0,88 dólares e hoje está a 1,57). Quer dizer, o aumento do preço do petróleo é muito amortizado pelo aumento do euro. Em segundo lugar, se é certo que o aumento da gasolina e do gasóleo ocorreu em todos os países da zona euro, não é menos certo que em Portugal foi maior do que noutros (em Espanha, entre 2004 e 2007, o gasóleo só subiu 54,4 por cento, em vez dos nossos 71,7).

Facto incontestável – basta ver as bombas às moscas do lado de cá da fronteira – é que os preços dos combustíveis em Espanha são bem mais baixos do que aqui. As razões são essencialmente duas: por um lado, os nossos impostos sobre a gasolina e o gasóleo são mais elevados (não foi este governo, que se limita a manter uma situação que lhe dá jeito, mas governos anteriores decidiram, com grande falta de imaginação, taxar anormalmente os combustíveis) e, por outro lado, o mercado em Espanha é não só maior como mais aberto. Aqui ao lado há maior concorrência e esta torna os preços mais competitivos.

Os cidadãos portugueses têm razões para se sentirem assaltados nas bombas. Não pagam ainda os combustíveis mais caros da Europa, mas o que pagam nas bombas a dividir pelo produto interno bruto per capita está no topo europeu. O governo português diz-se preocupado, mas, em vez de assistir passivamente aos aumentos, pode actuar. Se o não fizer, e se na altura houver oposição, pagará decerto nas próximas eleições. O que pode fazer é claro: ser mais imaginativo na taxação do que foram os seus antecessores, aproximando-nos da situação espanhola, e abrir mais o mercado. Não há razão nenhuma para a Galp, à qual vozes indignadas na Net chamam a “Golpe”, ser a única refinadora e a principal armazenadora. É espantoso que o governo esteja à espera do relatório da Autoridade da Concorrência, pois ele está farto de saber como funciona o mercado neste sector. O ministro da Economia faz de conta que é o “marido enganado”, o último a saber, quando ele é, ou devia ser, o primeiro...

Contudo, mesmo que o governo faça alguma coisa, não nos iludamos: a crise do petróleo está para ficar. Temos de continuar a fazer o que muitos de nós já fazem – usar menos os automóveis em favor dos transportes públicos (que têm de melhorar com o dinheiro dos nossos impostos) e guiar veículos mais económicos (Murti usa um híbrido). Estamos viciados em petróleo e esse vício, mais cedo ou mais tarde, vai ter de acabar.

11 comentários:

  1. O problema é que não podemos fazer com o vício do petróleo o que fazemos com as cigarradas, ou seja, acordar uma bela manhã e dizer: - Amigos, não consumo mais petróleo!

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  2. Importar petróleo tem sido um custo pesado para o pais. Que, finalmente, este governo começou, à semelhança do que sempre fizeram todos os governos deste planeta, a transformar num processo de alavancar a exportação de produtos portugueses.

    A compra de petróleo pode ser usada para aumentar o "mercado interno", o que é vital num pequeno país como o nosso.

    O aumento de preços resulta essencialmente, está-se mesmo a ver, da impossibilidade de estabelecer a concorrencia. Se os preços são iguais é porque não há concorrência, quem controla o negócio escolhe os preços que maximizam os lucros. O resto que se diga é poeira.

    O lado pior disto é que os lucros deste negócio não são nacionais, pelo menos em grande parte.

    O nosso prejuizo deixa de estar na compra do petróleo, se este for trocado por produto nacional, mas nos lucros das companhias que o vendem, que vão para o estrangeiro.

    Portanto, ao governo interessa fazer baixar o preço dos combustíveis e esquecer a ganancia cega dos impostos

    e tem instrumentos para isso, pois pode controlar os preços através da galp.(penso eu ...)

    Repare-se que a situação é diferente da inglesa, por exemplo, pois os lucros ficam em inglaterra.

    Como este governo tem andado a corrigir os erros de todos os governos desde o 25 de Abril, eu tenho esperança de que a situação se comece a alterar brevemente... e esta hem?

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  3. A lei do mercado está para ficar e já está na hora de os portugueses comecerem a perceber isso....
    A real concorrência não está "entre as petrolíferas" mas sim entre "soluçõwa alternativas". o exemplo disto vem da telecomunicações: há uns atrás havia um monopólio da rede fixa de telefones até que apareceram os telemovéis e as suas operadoras. Hoje chamadas feitas de rede fixa são quase dadas. A verdadeira concorrência não apareceu de "mais um operador" mas sim de uma tecnologia alternativa.
    Da parte do Estado cabe financiar projectos (de investigação e empresariais) que demonstrarem serem relevantes nesta área: energias alternativas, motores mais eficientes, etc...
    Do consumidor cabe arranjar soluções menos custosas de mobilidade: transportes públicos, bicicletas, casas perto do local de trabalho, etc....
    A petrolíferas podem praticar os preços que quiserem, cabe ao consumidor saber se está disposto a pagar esse preço ou não...

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  4. Aqui vai um artigo que explica bem as causas do aumento do preço do petróleo, e parece que afinal só há uma causa, está muito interessante: ". The oil markets didn't suddenly discover China's oil demand nine months ago so this cannot explain the doubling of prices since last August. In fact, China's “insatiable” demand growth has decelerated. In 2004 it was consuming an extra 0.9 million barrels a day; in 2007 it was consuming just an extra 0.3 mbd."

    http://www.timesonline.co.uk/tol/comment/columnists/anatole_kaletsky/article3980797.ece

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  5. Já no Repertorio geral ou Indice alphabetico das leis extravagantes do Reino de Portugal publicadas depois das Ordenações, comprehendendo também algumas anteriores que se achão em observância se explicava, no Alvará de 15.07.1755, a propósito das Leis, que “A practica e intelligencia dellas muito onerosas ás partes, he alheia da intenção do Príncipe”.

    O que significa estar o Alvará em dia ao fim de 253 anos.

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  6. Venho divulgar um blog necessário a situação actual,

    http://vergonha-combustiveis.blogspot.com

    Este blog tem como objectivo mostrar a indignação pela proporção que os preços dos combustíveis estão a tomar para o consumidor comum. Surge pela falta de atitude do governo português perante esta situação. Sofremos todos os dias na carteira e no orçamento mensal das famílias portuguesas estes aumentos pouco claros.

    Obrigado ao blog, e associem-se a causa se possível!

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  7. a solução a tomar é facil de imaginar mas dificil de concretizar, já se percebeu que a dependencia mundial do petroleo tem que acabar sob risco de paralisar toda a economia.
    A unica solução é usar fontes de energias alternativas ao petroleo, as renováveis, tudo o resto são soluções falhadas.
    Veiculos a hidrogenio e a energia eletrica.
    Nenhum pais melhor que portugal para lançar um projecto pioneiro a esse nivel, localizado em portugal com parcerias e capitais de outros paises do mundo, com o objectivo de criar um veiculo de cada categoria movido a energia eletrica com viabilidade economica a transformar numa empresa privada a medio prazo.
    Fazendo um spin-off.

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  8. Quem comenta fala muito, como os papagaios, em energias alternativas, mas nunca diz quais são, talvez com medo de se expor ao ridiculo. Pelo menos já não se fala da vigarice, em termos de balanço energético, dos bio-combustiveis, pelo que há uma certa desorientação em nomear a moda que se segue. Ultimamente tenho ouvido falar do motor a ar comprimido, motor eléctrico carregado em casa, e o inevitável hidrogénio. Esquecem-se de dizer qual a FONTE de energia usada na produção destes meios, simples pormenor...
    Em vez de falarem de energias alternativas, talvez fosse mais util falar de alternativas de vida - andar de bicicleta, viver em aglomerados pequenos, tomar banho com menos frequência...

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  9. A surpresa ao ler o artigo do Prof. Carlos Fiolhais no jornal Público, tem razão na ausência de uma abordagem científica e técnica ao problema do preço do petróleo. Esperava tal visão de um cientista. Surgiu-nos antes, o Professor economista. Ficou-se pelos números , os euros, e pela espuma dos dias "estamos a ser assaltados" !
    E as alterações climáticas ? A acidificação dos Oceanos ? A poluição por partículas provocada pelos motores de combustão interna ? As crianças asmáticas e com bronquite ? As cidades congestionadas pelo número idiota de veículos ? Nem uma palavra sobre os desperdícios ( desconfio que nem com a gasolina a 10 euros os portugueses deixariam de viajar em carros potentes , pesados , velozes (passam por nós a 160 - 200 km/h na AE)...porque o nosso imediatismo não consegue ver os problemas globais causados pelo nosso egoísmo: queremos é gasolina barata ! O resto é conversa.

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  10. Este comentário do João Miguel Vaz é perfeito para ilustrar o autismo frio dos nossos ambientalistas. O retorno da fome, o drama dos portugueses da agricultura e pescas, nada disso lhe importa. Diz-se que não importam "só" os números, e descamba-se na crítica moral de quem nos quer impor o que deveria ser um "consumo normal", a 50 km/h e em 5ª, provavelmente. O que importa a este ambientalismo é citar os efeitos indirectos com que apenas nós, ricos de barriga cheia, nos queremos importar, muitos deles altamente duvidosos.

    Ambientalistas inteligentes e construtivos são bem-vindos. Mas fascistas do Ambiente, não obrigado.

    Melhor que as minhas, ficam aqui as palavras do Professor Carlos Aguiar na lista Ambio:

    "O cimento ideológico que sempre faltou ao movimento ecologista não está na luta contra OGM, touradas, globalização ou na produção de CO2. Também não se encontra na conservação da natureza ou na promoção do comércio justo. Muito menos ainda em mantras, vedas, Ísis, Santíssima Trindade ou no Deepak Chopra. O cimento reside, no meu entender, numa simples pergunta: como atravessar a "grande simplificação" imposta pelo fim dos combustíveis fósseis sem um colapso social. E nas perguntas que dela emergem, por exemplo: Como impedir o incremento da desigualdade social e o "encastelamento" das elites com a escassez de recursos? Como fortalecer os sistemas democráticos e evitar eco-ditaduras? Como antecipar a reforma das sociedades contemporâneas e escapar à pedagogia da catástrofe?"

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  11. Fiolhais diz que:

    "...mas o que pagam nas bombas a dividir pelo produto interno bruto per capita está no topo europeu..."

    Fiolhais sabe de física; de economia, claramente não. Dividir o preço da gasolina pelo PIB por cabeça (já agora: a taxas de câmbio correntes, ou padrões de poder de compra?) tem tanta lógica como dividir pela temperatura média do ar. (Poder-se-ia dizer que o preço que os portugueses 'pagam nas bombas a dividir pela temperatura média em Agosto' é bastante mais baixo que a média europeia. Ainda assim a Espanha batia-nos.)

    Fiolhais diz que:

    "...estamos viciados em petróleo e esse vício, mais cedo ou mais tarde, vai ter de acabar..."

    Deduzo que ele fica feliz por o preço do petróleo estar a aumentar (é a melhor maneira de reduzir o vício -- conhece outra?). Fico assim sem perceber o teor da prosa de Fiolhais.

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