domingo, 4 de novembro de 2007

Racismo e hipocrisia

Chamo hipocrisia, no sentido que quero usar, ao que Sartre chamava má-fé: o auto-engano intelectual, que consiste em mentir a nós próprios. O objectivo é, presumo, manter uma imagem ampliada de nós mesmos, para podermos continuar com a crença de que somos gente fixe. O resultado, observo, é idiotia em doses maciças. Nenhum de nós é perfeito e andar a fingir o contrário não é uma atitude sábia porque provoca um esforço inglório e constante para distorcer toda a realidade de modo a poder sustentar o insustentável.

Em parte, o que me motivou a escrever contra algumas reacções às declarações de Watson foi precisamente a minha perplexidade perante o que me parece uma atitude hipócrita. Vejamos: uma besta qualquer faz uma declaração pretensamente falsa, empiricamente, e toda a gente fica histérica, no nosso país. Hum. Mas nunca vi um jornalista negro ou uma deputada negra; tive uma única colega negra enquanto estudei na faculdade; no nosso país, praticamente só os filhos dos médicos, arquitectos, advogados e professores universitários cursam medicina — e quase nenhuns destes são negros; não há praticamente professoras e professores negros ou de outras etnias no ensino secundário ou básico — mas não faltam na construção civil. Perante este factos — estes sim, verdadeiramente abomináveis — como justificar tanta histeria perante as declarações de Watson?

Resposta: hipocrisia.

Com uma reacção histérica apropriada podemos dar um ar de alegado pensamento progressista, que fica sempre bem, numa área que na verdade não implica qualquer tipo de trabalho real para mudar seja o que for numa sociedade profundamente racista: a sociedade portuguesa. Há leis específicas que protejam as pessoas, em Portugal, da discriminação com base na raça (além da Constituição, que não é de grande ajuda se não houver leis específicas no código civil)? Há algumas políticas de apoio aos estudantes e trabalhadores negros, que os estimulem a ir mais longe? O que está a acontecer aos filhos dos negros, dos ciganos e dos membros de outras etnias? Têm protecção contra a discriminação? São estimulados a estudar e a ir mais longe? Ou são vistos apenas como futuros traficantes de droga, ladrões e trabalhadores da construção civil?

E quanto ao "eduquês"? Não é uma forma disfarçada de profundo e odioso racismo, ao declarar que os negros só podem interessar-se por música rap, por exemplo, mas não por física quântica? E o "eduquês" não é a política oficial do Ministério Pimba da Educação, desde há algumas décadas?

Perante tudo isto a malta fica indignada com o que uma besta qualquer disse num jornal estrangeiro? Haja paciência. Fazendo minhas as palavras de Hume, lançai à fogueira a vossa indignação perante as declarações de Watson, pois não podem conter senão ilusão e hipocrisia.

21 comentários:

  1. Caro Desidério Murcho

    Por momentos assustei-me com o seu post. De facto, em portugal associamos os africanos a cargos menores e profissões "físicas" ao invés de intelectuais. Tal acontece, como referiu e muito bem, pela discriminação social portuguesa que impede o igual direito de oportunidades.
    A reacção ás palavras de Watson foram ridículas. O homem errou no que disse mas não disse nada que muita gente neste país não ache também. Além disso, ao dar a importância ao que foi dito e nas circunstancias em que foi dito é sinal de falta de vontade de discutir assuntos bem mais prementes no contexto portugês...

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  2. Caros Amigos do Rerum Natura,

    Permitam-me que diga alguma coisa a respeito desta história do racismo de Watson e da suposta onda de indignação que ele levantou.

    Muito desse exaltado anti-racismo, sobretudo o que provém de consciências tidas por bem-pensantes, ressuma hipocrisia e revela a mais despudorada demagogia.

    Trata-se, a meu ver, de uma espécie de imposto que essas mentes bem-pensantes pagam com liberalidade para poderem continuar a praticar todo um estilo de vida contrário aos ideais que alegam professar.

    O que se passa com o racismo, que os ditos bem-pensantes supostamente abominam, passa-se com o socialismo que remotamente desejam ou preconizam, se é que alguns ainda o desejem, a não ser como algo cada vez mais etéreo, mais indefinível, mais quimérico e distante.

    Ao mesmo tempo, quando têm oportunidade de o pôr em prática ou de preparar o seu advento, vendem o mais grosseiro neo-liberalismo, que já se aproxima, perigosamente, nalguns pontos, do capitalismo do século xix. É triste ter de dizê-lo, depois de se haver saudado o fim do Comunismo em 1991.

    O alarido contra um determinado tipo de racismo, supostamente aquele que ofende os negros ou os diminui nas suas capacidades intelectuais, contrasta com a benevolência ou indiferença ante sevícias ou prepotências praticadas por negros contra brancos, vide o que se passa no Zimbabué e noutras paragens africanas ou do mundo islâmico, aqui contra cristãos, principalmente.

    As afirmações de Watson são criticáveis, principalmente pela sua credibilidade científica, mas não são nenhum crime de lesa-majestade e ninguém pode ver cerceada a sua liberdade de emitir opiniões, mesmo se incorrectas, desagradáveis ou destituídas de fundamentação científica, salvo se o fizer com intenção malévola, destinada a acirrar ódios ou violências contra esta ou aquela comunidade étnica, rácica ou religiosa.

    Há por aí muito polícia do pensamento disfarçado de militante de boas cuasas.

    Felicito o autor deste texto, como de outros que aqui lhe tenho lido, pelo seu bom senso, sentido de equilíbrio e, neste caso do suposto racismo, pela sua coragem intelectual também, num tempo de marcado obscurecimento científico e cultural, que igualmente pretende cercear a liberdade de pensamento, muito paradoxal que isto nos pareça, por vivermos numa era de imaginada liberdade ilimitada, da tecnologia que opera maravilhas, etc., etc.

    Como se vê, em matéria de liberdade, a do Pensamento e as outras, nada está definitivamente adquirido...


    AV_04-11-2007

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  3. Se o Dério, neste tempo todo, nunca viu «um jornalista negro, ou uma deputada negra», a única coisa que se lhe pode recomendar é um bom oculista. Sugira o Oculista do Conde Redondo, que solucionou problemas do mesmo tipo a diversas gerações de lisboetas. Mas sei que há concorrência à altura noutras cidades do país - e até, aqui ao lado, em Espanha. Os russos são campeões em cirurgia correctiva, quando o caso não pode ser resolvido de outro modo.
    É claro que fica outro problema por resolver: como justificar tamanha hipocrisia? Ou será pura ignorância?
    E será que há remédio para isso?

    Q. Rico

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  4. Dério,

    Texto muito fixe, em linguagem acessível. Aponta para uma camada da população que todos designamos por “bestas”, no sentido nominal da definição. Acrescento apenas que sou contra o discurso racista pela simples razão de NÃO SER racista ainda que seja uma besta, possibilidade que parece não estar prevista no seu pensamento.

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  5. Vivo ha ja algum tempo no Reino Unido . E no meu ponto vista sigo essa hipocrisia ou "ma fe" de perto.Embora penso que por terras Lusitanas seja muito mais nua e crua. Pois a ignorancia predomina.
    Peco desculpa pela pontuacao mas este pc e Ingles.
    Adoro este Blog.Os meus parabens.

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  6. o antónio costa, actual presidente da camara e de lx e exministro e deputado, não é de todo branco.

    o jornalista manuel domingues da tvi também não é branco.

    Com isto não quero dizer que o racismo não exista em portugal!!

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  7. Caros leitores

    Obrigado a todos pelos comentários.

    Uma das regras da escrita é tentar exprimir ideias de tal modo que a mais desatenta e até hostil interpretação não possa distorcer o sentido original. Como é evidente por algumas reacções, não consegui tal coisa.

    Do facto de haver um ou outro jornalista ou médico ou professor universitário de etnias minoritárias em Portugal não se segue que a sociedade portuguesa não é racista e discriminatória. Pois o que conta não há haver um ou outro, mas a deproporção entre a percentagem de pessoas de uma dada etnia e a percentagem de pessoas dessa etnia que têm essas profissões.

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  8. Segundo o autor do post, eu só posso criticar as declarações de Watson no dia em que a sociedade portuguesa deixar de ser racista, caso contrário estarei a ser hipócrita. Tem piada, tinha a impressão que a filosofia da lógica era uma das especialidades de Desidério Murcho.

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  9. Vejo a realidade tal qual o Desidério a tratou aqui neste texto. Acções ? népias... mas discursos elegantes e progressistas existem até nos aborrecer. Lembro que, no período de estudante,já me impressionava ver os jovens esquerdistas da JSR (actual BE) com discursos ideológicos a favor dos direitos dos animais, mas vestindo casacos de pele. Com porcarias de campanhas SOS racismos, mas viviam em apartamentos de luxo. E esses gajos, hoje em dia, estão todos bem empregados. Ideologia da caca e hipócrisia da boa. E estes tipos vinham todos de gente bem na sociedade lisboeta. Tinha eu 18 anos e foi a minha primeira grande desilusão urbana. Depois percebi que os tipos são todos uns ruras mais ruras que os da minha terra, que pelo menos só querem vinho e não se escondem atrás dos esquerdismos e outras hipócrisiaS.
    Abraço
    Rolando Almeida

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  10. Não. De facto o Dério não conseguiu tal coisa. E não é a primeira vez. De modo que a filosofia da lógica não é, evidentemente, uma das suas especialidades.

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  11. Olá anónimo,
    qual é o seu nome? mostre-se. Tem medo do quê? vão-lhe comer a língua se assinar o seu nome, é isso? ou é pura cobardia esta coisa dos anónimos? ou , então, é do medo dos pedófilos
    Rolando Almeida

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  12. A peidofilia não é para aqui chamada. Ou é?

    Gan Dacena

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  13. Hipocrisia não tem assento. Pesso desculpa pela minha gralha anterior.

    Rolando Almeida

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  14. É claro que quando escrevi «mostre-se» também não era exactamente isso que eu queria dizer.

    Rolando Almeida

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  15. Nem todas as reacções ao caso Watson focaram a questão do racismo.

    Aliás, poderíamos dividir o movimento de reacções em dois:

    aqueles que só comentaram a questão racista (onde se incluem aqueles que falaram do «politicamente correcto» e, como é o caso deste post, das «hipocrisias»);

    e aqueles que só comentaram a questão na sua fundamentação científica.

    Mas suponho que o «politiquês» ganhe ponto no que toca a ser fixe.

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  16. Ora bem, este comentário foi o anónimo cobarde que o escreveu por mim:
    "Anónimo disse...
    É claro que quando escrevi «mostre-se» também não era exactamente isso que eu queria dizer.

    Rolando Almeida
    "
    Se desejar eu envio-lhe uns textos para assinar. Mas se quiser ainda pode assinar por mim na minha presença. Era melhor. Enfim...
    Rolando Almeida

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  17. Odeio ter de estar permanentemente a desmentir-me, mas a verdade é que o comentário anterior não foi comentado por mim.
    Rolando Almeida

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  18. Por mim também não.

    Rolando Almeida

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  19. isto é como dar milho às galinhas. quanto mais se dá, mais elas querem. podem comer até morrer.
    e agora? quem assina?

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  20. Ok anónimo, ganhaste. Não tenho, pois modo de te apanhar.Pelo menos dá para rir um bocado.
    :-)
    Keep on Punk ;-)
    Rolando Almeida

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  21. Ave!
    Comento a frase de um anónimo daí de cima que mora há algum tempo no Reino Unido: oxalá preconceito fosse somente fruto de ignorância. Assim seria facilmente corrigível com mais estudo e informação. Mas não é o caso. Como disse o falecido e vivíssimo Norberto Bobbio, "a força do preconceito está nos meus desejos, nas minhas paixões, nos meus interesses". Há uma boa dose de irracionalidade nessas crenças tão falsas quanto aceitas.
    Saudações,
    Pires d'Almeida

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