terça-feira, 27 de novembro de 2007

O desporto dos jovens e o Parlamento Europeu



Mais um texto do nosso habitual colaborador Rui Baptista:

“O homem não se concebe sem movimento e de há muito que os filósofos vêm usando a imagem do anti-homem representado pela ostra fixada ao rochedo” (Jean-Pierre Gasc).

O desporto de alto rendimento exige do atleta “ser sempre o melhor e permanecer superior aos demais”, transformando-o numa espécie de máquina humana desprovida de vontade própria. A esta máquina de bater recordes e vencer campeonatos desportivos contrapõe José Esteves, no seu livro “O Desporto e as Estruturas Sociais”, a utopia “de não trocar um êxito desportivo, de repercussão internacional, de um atleta ou de uma selecção portuguesa, pelo prejuízo da iniciação desportiva de alguns milhares de rapazes e raparigas das nossas escolas primárias”. Os deuses do Olimpo jamais perdoarão a um simples mortal tamanho descaro e desafio!

Entretanto, a malfadada Educação Física, personificada na figura de um Atlas, ajoujado ao peso de um mundo de falsos preconceitos, tarda em libertar-se da funesta sombra secular perpetuada na copa frondosa do vitalismo de finais do século XVIII, que teima em estigmatizar, ainda mesmo em nossa contemporaneidade, as actividades corporais apresentando-as como fábricas de hercúleos mentecaptos, paradas de estampas físicas destituídas de racionalidade ou mesmo campos férteis da imoralidade.

A título de exemplo, basta evocar Ramalho Ortigão quando desanca o par do reino Vaz Preto por ele se opor na Câmara dos Pares à criação de ginástica nas escolas femininas… porque a considerava uma prática imoral! Embora Vaz Preto tenha sido derrotado, fez-se este alto dignitário acólito de uma forma de obscurantismo que Ramalho (o vulto das letras portuguesas que mais e melhor se bateu pela exercitação física dos escolares) iluminou com o archote de polémica prosa ateada por centelha de génio: “E francamente devo dizer que levantar trinta quilos em cada pulso, trepar a um quarto andar por uma corda, saltar a pés juntos um fosso com dois metros de largura, me parece, com relação ao domínio do homem sobre o mundo exterior, uma cousa tão importante, pelo menos, como fazer análise gramatical e a análise lógica de uma oração de Cícero”.

Hoje, mais do que nunca, numa sociedade juvenil amarrada à televisão e aos computadores e em que a obesidade dos jovens em idade escolar se transformou numa verdadeira epidemia precursora, muitas vezes, de distúrbios cardiovasculares e de diabetes na idade adulta, a educação física escolar assume um papel de grande importância que não se coaduna com um estatuto menor que teimam, por vezes, em atribuir-lhe pessoas menos informadas ou mais enfeudadas a preconceitos que desvalorizam o corpo.

Mas porque vivemos em época em que, segundo Albert Einstein, “é mais difícil quebrar um preconceito do que um átomo”, respaldo-me no formosíssimo texto de uma entrevista da jornalista Clara Ferreira Alves (CFA) à festejada escritora Agustina Bessa-Luís (ABL) no “Expresso”, corria o ano de 1989:

CFA: “Observa as pessoas como quê? Personagens? Não é bem isso, pois não?”
ABL: “Robôs divinos. O ser humano é um robô perfeito. Quando há uma determinada reacção quero saber a mola que disparou, a engrenagem que não funcionou”.
CFA: “Qual a realidade desses robôs? Que corpo têm? Têm corpo ou são só inteligentes?”
ABL: “O corpo é uma inteligência”
.

A relevância do desporto na educação dos jovens foi posta em destaque pelo Parlamento Europeu ao aprovar recentemente por ampla maioria (590 votos a favor, 56 contra e 21 abstenções) um relatório em defesa de uma carga horária de educação física no ensino básico e secundário que contempla um mínimo de três horas semanais. Este relatório refere ainda que os jovens portugueses, espanhóis e italianos excedem em 30% os níveis de peso e obesidade nas crianças entre os 7 os 11 anos. E acrescenta que este excesso de peso não se fica tanto a dever a uma elevada ingestão mas a uma declarada inactividade física: essas crianças não comem mais, mexem-se menos. Para contrariar este “statu quo” foi proposto um equilíbrio entre os períodos de tempo dedicados às actividades intelectuais e físicas nas escolas.

Este importante relatório de um parlamento directamente eleito pelos cidadãos da União Europeia para representar os seus interesses devia merecer do Ministério da Educação de Portugal a melhor das atenções para que a execução das medidas aí preconizadas fosse levada a efeito com a urgência requerida numa cultura e numa sociedade cada vez mais vitimadas pela inactividade física. Por consequência, povoada de jovens que são “ostras fixadas ao rochedo” !

15 comentários:

  1. Arre que é demais !!!

    Oh meu Caro Senhor !!! Então as mãmãs e os papás das "ostras" só servem para as trazer ao mundo ?!

    Mas que doença é esta que alastra imparável por aí, segundo a qual todo e qualquer problema, desde o que se come ao que se faz, tem que ter uma solução institucional ?!|

    Quem resolve ter filhos não deveria também ter consciência que isso implica disponibilidade, ou sugere que a responsabilização pela criação da criatura deve ser transferida para o Estado logo após o parto ?!

    Há mais alguma coisa que ache que o Ministério e a Escola devam fazer ?!

    ResponderEliminar
  2. Desculpem o regresso, mas ficou-me uma dúvida "atravessada": a menina que dá a cara pela legenda de "ostra fixada ao rochedo" é modelo fotográfico profissional e recebeu caché, ou autorizou de outro modo o uso da sua imagem ?

    Ou, dar-se-á o caso de ainda haver quem pense que a Ética é uma ilha no Mar Egeu ?

    ResponderEliminar
  3. Caro Manuel Rocha:
    Mudámos a imagem atendendo ao seu reparo e também à questão de direitos autorais. A rapariga da imagem deu a cara num documentário sobre obesidade que passou na MTV (série "True Life").
    Carlos Fiolhais

    ResponderEliminar
  4. Caro Carlos Fiolhais:

    Ainda que a rapariga tenho dado a cara na MTV, fica a questão de se saber se quando o fez estaria plenamente consciente do que fazia. Ela não é maior, pois não ? E chegados a este ponto tenho que o citar num post seu de há dias : " Quem defende o menino ? "


    Espero que tenha ficado claro o sentido do reparo. Com se sabe nestas coisas e muitas vezes com a melhor das intenções ocorrem "descuidos" indesculpáveis !

    Como é evidente a nova foto serve integralmente o propósito sem colocar em causa o respeito que todos devemos ao direito de reserva de imagem pública que assiste a cada um.

    ResponderEliminar
  5. Porquê este diálogo sobre um assunto perfeitamente acessório?
    Sr. Manuel Rocha, é para evitar falar sobre a obesidade?

    ResponderEliminar
  6. Eu próprio ainda me lembro de quando era (é?) "foleiro" a cultura física. Nice era o Prado Coelho. Eu compreendo que aos intelectuais lhes cause mossa e ornamento a sua preguiça física mas têem bom remédio: levantem o dito cujo da cadeira e mexam-se. Talvez se deixarem de ter aquele ar bafiento, a expressão desdenhosa e olhar assassino por detrás dos oculos redondos não vejam tanto negrume. Não percebo porque tão doutas criaturas não misguem as vantagens. Espero que pelo menos lavem os dentes.

    ResponderEliminar
  7. Ao Jorge Figueiredo:

    Como seguramente não viu a fotografia inicial que deu origem ao diálogo que refere, é natural que o tenha considerado acessório.

    Quanto ao tema da obesidade em si, terei todo o gosto em o discutir. Sobretudo se perpectivado como um sintoma do "irracionalismo à solta" de que nos fala o H Kroto no post da Palmira lá mais acima.
    A sociedade da abundância em que derivou a civilização do petróleo, manifesta-se também nestas formas de desresponsabilização pessoal, familiar, comunitária. Falar da obesidade infantil argumentando, como o faz o post, que não se trata de comer muito ou de comer mal , mas de nos mexermos pouco, para logo rematar que o problema é do Ministério da Educação que não cumpre a recomendação europeia de assegurar o minimo de tres horas semanais de educação fisica na escola, é que me parece uma forma pouco séria de abordar a questão. Que diabo, haverá seguramente melhor forma de atacar o Ministério, se é esse o objectivo.

    ResponderEliminar
  8. Meu Caro Rui Baptista
    Só agora tive tempo de ler o seu artigo. E tenho pena de que os comentários se tenham ficado mais pelo marginal ao mesmo do que à matéria que trata. Como é verdadeira aquela afirmação (mera constatação, aliás) do José Esteves! Quantas vezes tenho dito isto, raramente compreendido, porque nos Açores se gastam milhões com equipas de seniores que vêm um pouco de todo o Mundo, quando, com uma pequena percentagem dessa prodigalidade, se criariam condições para as crianças praticarem desporto mais facilmente. Sabe que há clubes nos Açores que têm uma equipa completa a viver em Lisboa, e outra cá, para não pagarem as viagens? E outros disparates do género.
    Eu era vereador na Câmara da Ribeira Grande quando foi decidido pôr um relvado no estádio municipal. Aprovei com uma recomendação: que se criasse outro campo sem relva, que poderia ser usado 24 horas por dia sem problemas de manutenção. A recomnedação não foi respeitada. Não imagina quantos jovens deixaram de praticar futebol por causa da conservação da relva.
    Obrigado por estas suas lúcidas considerações.

    ResponderEliminar
  9. Lendo o texto e os cometários produzidos, ficam-me duas ideias.

    A primeira é a de que as opções de afectação dos recursos dedicados ao desporto não é a melhor. Mas aí estou com o comentário do Manuel Rocha, pois não me parece que caibam ao Estado todas as responsabilidades. O Daniel de Sá dá disso um excelente exemplo quando nos informa do que não conseguiu enquanto vereador.

    Não sei se era esse o intuito do autor, mas a principal conclusão que retiro do texto é a de que há responsabilidades concretas do Ministério da Educação na obesidade infantil porque não promove adequadamente o desporto escolar.

    Bem, tenho que dizer que discordo. Não conheço parvónia que não disponha de recinto desportivo polivalente, pavilhão coberto, piscina municipal ou tudo junto. Tendo passado recentemente algum tempo em Angola, não observei que a falta de infraestruturas iniba os meninos de jogar á bola na rua em qualquer recanto. Portanto, tenho que alinhar novamente com o Manuel Rocha, pois o post parece-me claramente um "tiro na água". haverá certamente outras razões mais ponderosas na atitude perante a actividade fisica. E Também não me parece que seja só por aí que se justifica a obesidade.

    Mariano

    ResponderEliminar
  10. Peço desculpa pelo acessório mas será que alguém poderia colocar aqui a citação original de Jean-Pierre Gasc? Obrigada.

    ResponderEliminar
  11. À Joana :

    Tem aqui um voluntário para colocar aqui a citação original e até para a escrever dez vezes como castigo e só com um dedo da mão esquerda. Mas para isso a Joana terá que me demonstrar que o post trata efectivamente de desmontar o enunciado da citação e que não se monta nela para derivar para outros campos que não justificam o problema. Pode ser Joana ?

    Mariano

    ResponderEliminar
  12. Cara Joana: A citação original poderá ser consultada no livro "A aventura prodigiosa do nosso corpo", Jean~Pierre Gasc, Universo da Ciência, Edições 70, 1987. p. 71
    Cordiais cumprimentos
    Rui Baptista

    ResponderEliminar
  13. Prezados comentaristas:
    Manuel Rocha:Passando ao lado da expressão "arre que é demais!!!", detenho-me na substância da sua pergunta:"Há mais alguma coisa que o Ministério e a Escola devam fazer? Há sim! A escola e o ministério da tutela (seja este ou outro qualquer) devem estar atentos ao desenvolvimento integral dos jovens, não se circuncrevendo a uma educação borolenta mais vocacionada para a educação de eusebiozinhos macários do que de Carlos da Maia, retratados magistralmente por Eça, em "Os Maias".
    Daniel de Sá: Lamento tanto como o meu bom Amigo o tratamento preferencial dado nos Açores às equipas profissionais de futebol em claro detrimento de instalações extra-escolares para a prática desporiva de jovens vitimados por uma civilização hipocinética. Em Roma Antiga dizia-se "panem et circenses". Com a criação de grandes estádios e perante a dificuldade económica que assola a população portuguesa, receio bem que se esteja a assistir a uma situação bem pior: espectáculos circenses sem...pão!
    Mariano Feio: Julgo haver uma certa contradição no seu comentário (dou de barato que o defeito de interpretação possa ser meu) quando escreve que lhe parece não ser a melhor solução a afectação de recursos dedicados ao desporto para logo acrescentar não ser este estado de coisas da responsabilidade do Estado. E fundamenta-se para o efeito no comentário de Daniel de Sá. Salvo melhor opinião, julgo que Daniel de Sá responsabiliza precisamente o Estado por não tomar as opções que sirvam preferencialmente a exercitação das crianças gastando milhões de euros com equipas seniores. Por outro lado, oexemplo de Angola não se pode aplicar a papel químico a Portugal. Naquele país, as crianças têm espaços livres para fazerem as suas peladinhas. Neste território europeu, as crianças vivem entaipadas em andares sem possibilidade de usufruirem de simples brincadeiras ou jogos da nossa juventude, quais sejam, por exemplo, jogar ao berlinde, à macaca, ao lenço. Por outro lado, o tempo que passam na escola, feita "armazém de crianças", não lhes permite mais que o cumprimento dos trabalhos de casa. Assim, compete à escola providenciar para que a exercitação física das crianças assuma a importância das outras disciplinas sendocontemplada com uma carga horária que sirva o desiderato de as não transformar em "ostras agarradas ao rochedo" da falta de exercício. Daí a tese que a Comunidade Europeia defende renegando eu para o meu post o epíteto de "tiro na água".
    Rui Baptista

    ResponderEliminar
  14. Por lapso de que me penitencio,até por uma possível ingratidão de que se possa revestir, não respondi ao comentário do anónimo que estabelece como que uma relação entre a intelectualidade e o desprezo pelas coisas do “físico”. Mas porque é sempre perigoso generalizar a partir de casos pontuais, não podemos tomar um simples exemplo como regra pois existem muitos casos que a desmentem. Ramalho Ortigão, citado no meu post, dizia que tinha nascido para Hércules de feira e Almeida Negreiros, exorta: “É preciso criar a adoração dos músculos”. Como é uso dizer-se, cada um é para o que nasce. Querer transformar um potencial Prémio Nobel num medalhado olímpico, ou vice-versa, faz com que se perca um e outro. Compete à Escola potenciar as qualidades inatas de cada um deles sem o amputar de uma educação equilibrada que o transforme num adulto apto a responder aos desafios da vida. Recordo-me aqui, do caso de um camarada meu do Curso de Oficiais Milicianos de Mafra, finalista de Medicina, que tinha dificuldade em marchar com a oscilação assimétrica dos braços sendo incapaz de saltar um obstáculo de um mero palmo de altura. Será que podemos isentar a Escola da sua juventude desta inabilidade física? Infelizmente, muitas pessoas ainda perspectivam as práticas físicas como uma escola de hercúleos mentecaptos. Mas isso não justifica, de forma alguma, que se perspective num intelectual menos dados a essas práticas um proscrito de um templo que se ajoelha perante uma informe massa bruta, ainda que lave os dentes… Grato pelo seu contributo, que compreendo e louvo na essência, embora julgue poder este meu modesto comentário contribuir para evitar falsas interpretações que desvirtuem as suas boas intenções.
    Rui Baptista

    ResponderEliminar
  15. SIM - Antigamente, para pôr o motor de um carro a trabalhar, usava-se uma manivela, havia necessidade de dar várias voltas com a mesma, até que o motor roncasse. Muita energia gasta
    NÃO - Hoje, metemos a chave, damos uma voltinha e, sem qualquer esforço,o motor ronca. Não se gastam energias.

    SIM - Antigamente, subíamos e descíamos escadas. Gastávamos energias.
    NÃO - Hoje,temos as escadas rolantes. Para quê gastar energias?

    SIM - Antigamente tínhamos que suar para cortar tábuas com o serrote.
    NÃO - Hoje há serrotes eléctricos que poupam o suor.

    SIM - Antigamente, lavávamos o carro, consumindo alguma energia.
    NÃO - Hoje, vamos a uma estação de serviço e vamos tomar um café, enquanto aquela maquinaria lava o carro.

    SIM - Antigamente, íamos a pé à mercearia mais próxima fazer as compras, mas íamos a pé.
    NÃO - Hoje não há mercearias, mas hipermercearias lá longe, o que nos obriga a ir de transporte particular ou público.

    SIM - Antigamente, mugiam-se as vacas, o que era um pouc cansativo
    NÃO - Hoje há máquinas de ordenha.

    SIM - Antigamente sachava-se a terra, do nascer ao pôr do sol, ou arava-se com a ajuda de um muar ou um boi.
    NÃO - Hoje compra-se uma máquina que faz tudo, que polui, mas é cómoda e não cansa.

    SIM - Antigamente sabia-se a taboada e com ela, fazer contas e cálculos. Punha a cabeça a trabalhar.
    NÃO - Hoje, a cabeça não precisa trabalhar; a máquina de calcular faz tudo.

    SIM - Antigamente lavava-se a louça à mão e enxugava-se com um pano.
    NÃO - Hoje há máquinas que lavam, e máquinas que secam.

    SIM - Antigamente lavava-se a roupa e punha-se a mesma a secar.
    NÃO - Hoje a máquina de secar espera que a de lavar faça a sua parte.

    SIM - Antigamente as pessoas levantavam-se para mudar o canal da TV
    NÃO - Hoje há um comando que nos ata à cadeira ou ao sofá.

    SIM - Antigamente... ... ...
    NÃO - Hoje... ... ... ...

    O simplex tecnológico transportou-nos da alguma actividade para a total inactividade.

    SIM - Na Austrália, e em Singapura, as escolas têm todos os dias, no plano curricular, actividades físicas
    NÃO - Em Portugal, havendo dois ou três buracos no horário escolar, plantam-se ali umas actividadezinhas, e, como dizem alguns diplomas, desde que haja instalações adequadas, porque em primeiro lugar estão os adultos (estádios).

    João Boaventura

    ResponderEliminar

1) Identifique-se com o seu verdadeiro nome.
2) Seja respeitoso e cordial, ainda que crítico. Argumente e pense com profundidade e seriedade e não como quem "manda bocas".
3) São bem-vindas objecções, correcções factuais, contra-exemplos e discordâncias.