segunda-feira, 24 de setembro de 2007

SOBRE A HISTÓRIA DAS CIÊNCIAS


(cartoon de Larry Gonick)

É comum arrumar a história de um lado e as ciências num outro. Nas universidades a história aprene-se nas faculdades de letras e as ciências aprendem-se nas faculdades de ciências e de engenharia. E não é comum encontrar disciplinas de ciências nas faculdades de letras nem disciplinas de história nas faculdades de ciências e de engenharia.

Mas essa separação esquece que existe, desde há muito, uma disciplina denominada História das Ciências, que está no cruzamento preciso entre a história e as ciências. Exige tanto conhecimentos de história como conhecimentos de ciências. Onde estudar esse assunto? Pois devia ser nos dois lados. E, se existir apenas num dos lados, dever-se-ia procurar que as pessoas do “outro lado” a frequentassem.

Por que é importante a história das ciências? Em primeiro lugar, como se vê logo do lugar que ocupa, desde logo pela eliminação ou esbatimento da compartimentação rígida do conhecimento. Se a ciência é (erradamente) vista como algo de impessoal, de pouco humano, a história da ciência mostra-nos que a ciência é feita por pessoas concretas, que são bem humanas (mesmo “deuses” como Galileu, Newton e Einstein são completamente humanos!). A história da ciência, ao mostrar-nos que a ciência não caiu do céu aos trambolhões, mas resultou do desejo e do trabalho dos homens, ajuda decerto a compreender melhor o que é a ciência. A ciência, por mais “fria” e “neutra” que seja apresentada nas faculdades de ciências e engenharia, traz sempre consigo a marca dos seus criadores, assim como dos tempos e dos espaços em que foi criada. Tal facto não representa nenhum defeito ou disfuncionalidade: ajuda a mostrar que a ciência é uma forma de cultura.

A história da ciência ensina-nos sobretudo que a ciência é um empreendimento humano, realizado progressivamente ao longo do tempo, num processo que é mais de acumulação do que de ruptura (o historiador e filósofo de ciência Thomas Kuhn exagerou ao falar de ruptura de paradigmas). Contudo, o facto de a ciência ser humana não significa que que ela não se confronte com uma realidade objectiva – as ciências exactas e naturais procuram descobrir o mundo de que o homem faz parte. Significa, sim, que na contínua descoberta do mundo, na construção do edifício científico, entram elementos que têm a ver com personalidades, épocas e lugares. E, muitas vezes, nesse processo de descoberta, entram paixões, disputas, intrigas, como num enredo de ficção. ..

A ciência em nada fica diminuída por ter uma história e uma história feita de numerosos incidentes. Bem pelo contrário, a história das ciências expõe uma dimensão não desprezável da ciência, a dimensão dos sonhos, das dificuldades e e dos erros. E só com essa dimensão a ciência fica completa: não se trata apenas de um corpo de conhecimentos em ampliação constante, mas do processo da sua própria ampliação.

A história da ciência ensina-nos também a compreender melhor a ciência do presente, iluminando-a com a luz da ciência do passado. E permite-nos compreender melhor a ciência do passado, iluminando-a com a luz da ciência do presente. Embora o historiador de ciência tenha de fazer um grande esforço para ver a ciência do passado com os olhos do passado, é inevitável que a veja também com os olhos do presente. O historiador e filósofo das ciências Gaston Bachelard lembra-nos que é preciso saber ciência para fazer história das ciências:

“O historiador das ciências, para bem julgar o passado, deve apreender o mais possível a ciência cuja história se propõe escrever.”

Porém, o historiador de ciência Pascal Acot, comenta no seu livro “História das Ciências” (Edições 70, 2001) a afirmação anterior do seguinte modo:

“Mas esta necessidade não deve levar os historiadores de ciência a passarem ao crivo as obras científicas do passado, para separarem o que hoje é considerado verdadeiro daquilo que é considerado errado ou de reter apenas, na multidão de obras passadas, aquelas que, retrospectivamente, parecem progredir rumo à modernidade, como se elas ‘avançassem ao nosso encontro’ e, portanto, como se a história fosse orientada. Num jogo como este, efectivamente, só poderíamos sair perdedores, visto que o erro científico pode ser de uma espantosa fecundidade e trazer nele próprio as sementes de um discurso verdadeiro acerca dos fenómenos estudados”.

A história das ciências deve, portanto, revelar a fecundidade de alguns erros...

6 comentários:

  1. Carlos,

    fico contente por trazeres de novo este importante assunto para debate. Verificamos que há quem reconheça o valor desta área de saber mas na prática não é visível a sua existência. Em que universidades portuguesas se ministram disciplinas desta índole? Porque é que em algumas universidades de ciências e de engenharia de primeiro plano se acabou com o ensino destas disciplinas? a quem é que se tem de pedir autorização/convencer para introduzir nos curricula de todos os graus de ensino, o estudo da história das ciências, da história da ciência e da história da tecnologia?

    A bem da cultura, do progresso e do desenvolvimento, por favor colaboremos com os que mandam para que se apercebam de que cada vez mais é necessário o diálogo entre as ciências exactas e as ciências sociais e as humanidades.

    A propósito perguntei a um adolescente de 13 anos de idade se considerava importante o estudo da história das ciências. Eis a sua resposta: “Sim porque ficamos mais cultos na sociedade”.

    Maria Elvira Callapez

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  2. A este respeito gostaria de pedir a sua opinião sobre os pontos de vista de um conhecido físico, autor de um livro de QFT disponível de graça na web:

    http://insti.physics.sunysb.edu/~siegel/errata.html

    Leia sobretudo o "what makes it different" ("it is not a history book", como são os outros livros de Teoria Quântica de Campo). Diga de sua justiça. Obrigado.

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  3. A Filosofia reinvindica também o papel de fazer uma história das ciências, que pode ser uma história do conhecimento, nessa perspectiva.

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  4. por lapso não mencionei no meu comentário a filosofia da ciência, e.g., história e filosofia da ciência e da tecnologia. De igual forma, imprescindível nos curricula das diversas escolas! Tem razão, Feras. Obrigada pelo reparo.

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  5. Eu penso, com o devido e sincero respeito, que o seu post labora num equívoco básico mas que é comum a muita gente, não só da "área" das ciências: a verdadeira natureza do conhecimento histórico.
    A História não tem verdadeiramente um objecto. Na verdade, arrisco dizer que apenas tem uma dimensão: trabalha na variável tempo. O seu objecto envolve toda e qualquer actividade do Homem no Tempo (há também quem acrescente Espaço, mas fiquemos pelo tempo para não complicar).
    É comum nas pessoas que apenas estudaram História no ensino básico, acharem que a História não aborda conteúdos relacionados com a técnica ou com a ciência. Isso é reforçado pelo facto dos historiadores encartados se especializarem ou em assuntos de cultura (mais ou menos livresca) ou relacionados com ciências sociais.
    Nada de mais errado: então não damos Galileu e Copérnico, a revolução técnica a propósito da Revolução Industrial, as descobertas científicas dos séculos XIX e XX nas Escola? Basta ver os programas. Claro que abordamos (sempre a correr, como em tudo). Nas próprias Faculdades estuda-se esses aspectos, embora muito ao de leve, é verdade.
    O problema reside noutro aspecto: na maioria dos casos, os estudentes que frequentam o curso de História e que depois se tornam ou historiadores, ou professores de História, etc, vêm da "área" das Letras, com pouca vocação para entenderem questões de ciência ou tecnologia de forma aprofundada. Assim como os que dominam as ciências não aplicam devidamente os métodos historiográficos(também os há) e cometem "pecados" básicos. É o velho problema da interdisciplinaridade, fundamental em História e pouco praticado nas disciplinas da FCT, e está tudo dito.
    A História da Técnica ou da Ciência é como qualquer outra "especialidade" da História: exige uma formação aprofundada nas áreas científicas mas também em História, não só em termos de conhecimentos básicos, mas também nos aspectos metodológicos específicos nesta "arte".
    Se o senhor Doutor atravessar o largo que está defronte à "sua" Biblioteca Geral tem à sua disposição os doutores Amado Mendes ou João Paulo Avelãs Nunes que têm trabalhos em Arqueologia Industrial. Só por exemplo.

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  6. Excelente este comentário de Pedro Semedo.

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