terça-feira, 28 de agosto de 2007

TECNOLOGIA E MAGIA

"E visto que o homem não pode viver sem milagres ele fará os seus próprios milagres"
Fiodor Dostoiewski, "Os Irmãos Karamazov"

Foi o físico e escritor inglês de ficção científica Sir Arthur Clarke quem afirmou que, nas suas formas mais evoluídas, a tecnologia é indistinguível da magia. Para o comum das pessoas o que distingue afinal a música proveniente de um CD ou a descolagem de um Airbus ou a comunicação por telemóvel de fenómenos mágicos? Que diria um homem primitivo se, transportado subitamente numa máquina do tempo (esta sim, magia autêntica, que a tecnologia actual não proporciona), deparasse com um CD, um Airbus ou um telemóvel?

A associação entre tecnologia e magia tem algo de paradoxal. Pois não é a tecnologia filha da ciência? E não é a magia o reverso da ciência? Não está a tecnologia baseada na razão e não é, por isso, que funciona de uma forma objectiva? E não está a magia baseada na superstição sendo, por isso, subjectiva?

Pois a tecnologia é uma filha da ciência - ninguém recusará o parentesco - mas é uma filha fugida de casa. Não se sabe em muitos casos quem é o pai. A situação é tão estranha que, por vezes, a filha até precede a mãe... O inglês Francis Bacon (Sir tal como Clarke), logo no século XVII, quando nasceu a ciência moderna, previu a operacionalidade do conhecimento na vida social. A ciência permite mudar a vida, permite mudar de vida, precisamente através deosdesenvolvimentos tecnológicos.

Curiosamente, é a possibilidade de esconder a ciência, de a meter numa "caixa negra", que assegura o êxito de muitos artefactos tecnológicos que dela provêm. Com efeito, não é necessário saber sobre ondas electromagnéticas ou sobre transístores para, nos nossos dias, usufruir de uma televisão ou de um computador. Basta apenas usar o comando televisivo (e nem sequer são precisos todos os botões, mas apenas o mudador de canais e o regulador de som) ou o teclado e o rato (para muitas aplicações basta só o rato!). A invenção tecnológica que colocou vários objectos ao alcance das multidões foi a do botão que liga ou desliga, e que regula ou desregula, esteja ele no comando televisivo ou no rato do computador. As imagens e os sons ficaram ao alcance de um clique. Pura magia!

Segundo afirma Richard Stivers no seu livro "A Tecnologia como Magia. O Triunfo do Irracional" (Instituto Piaget, 2001), livro que abre com a citação de Dostoiewski que está acima, a "televisão aparece ao espectador como uma descrição da realidade; além disso, a realidade é entendida porque está na televisão". A televisão é, portanto, um espelho mágico. Para o mesmo autor, "o computador é a forma de magia final e mais poderosa; ele recapitula todas as formas anteriores". De facto, o computador inclui não só a televisão como o leitor de CD e o telefone (falta só ser o avião, embora possa servir para reservar voos).

A tecnologia consiste basicamente em alterar a Natureza, em controlar o ambiente à nossa volta, para nosso benefício. Por seu lado, a magia também é uma tentativa de interferir sobre a Natureza. Um cientista ou uma pessoa com cultura científica saberá distinguir as duas (a tecnologia só falha por vezes, só por acaso falha, ao passo que a magia falha quase sempre, só por acaso acerta). Mas muitas pessoas talvez não consigam discernir as diferenças...

Stivers fornece o exemplo de um anúncio televisivo a "airbags" que proclama: "A 90 km/h uma oração é demasiado lenta". A diferença entre tecnologia e magia seria a acreditar neste anúncio, destinado ao grande público, uma diferença de velocidade. De qualquer modo, os regulamentos oficiais de automóveis consagraram a obrigatoriedade dos "airbags", ao passo que as orações continuam a ser facultativas.

Para Stivers o segredo da identificação da tecnologia com magia não reside tanto no hardware, mas mais no software: certas imagens e palavras funcionam como passes de mágicas. Por exemplo, os anúncios de certos programas televisivos (telenovelas, "reality shows", etc.) são feitos para encantar, para hipnotizar os telespectadores. O discurso apresenta-se parcial ou completamente desintegrado; os "sound bytes" substituem frases completas e coerentes, em nome de uma lógica de rapidez e eficácia (não há tempo a perder: o discurso tem de ser rápido para o lucro também ser rápido!). Foi assim que proliferou todo um conjunto de tecnologias não materiais, que incluem técnicas de persuação psicológica, de terapia, de "marketing" e de gestão. Estas modernas formas de magia amplificaram bastante o poder dos objectos tecnológicos. A ameaça do irracional estará mais no software do que no hardware...

Como havemos de nos proteger da magia que impera por todo o lado e que, subrepticiamente, nos tolhe a liberdade? Pois a ciência ainda é o melhor refúgio. E a escola ainda é o melhor meio para nos ensinar esse refúgio. Como escreveu Stivers:

"A minha resposta pessoal à ameaça da propagação da irracionalidade é a de dar ênfase à educação; na verdade, é a nossa última esperança na batalha pela razão".

13 comentários:

  1. Excelente post, mais um.
    Suscitou ele em mim esta tripla interrogação: 1. A importância da magia não estará na curiosidade que em nós desperta e que apela à imaginação? 2. E aqui não residirá um ponto de contacto com a própria ciência? 3. Por vezes, em ambas (talvez, mais na magia) não estará presente Bernard Shaw: "Imaginamos o que desejamos, queremos o que imaginamos e, por fim, acreditamos no que queremos"?

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  2. Já que se fala de "tecnologia" e de "educação", sugiro que se veja como se pode casar uma com a outra:

    Em
    http://sorumbatico.blogspot.com/2007/08/passatempo-com-prmio-soluo.html

    mostra-se uma máquina, dos "Anos-20" do século passado, destinada a ensinar papagaios...

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  3. A tecnologia que temos hoje filha da ciência, só foi possível graças ao projecto matemático inicidado por Descartes, Newton e Leibniz que lançou as bases do lastro matemático que empresta suporte formal à tecnologia da actualidade.

    A aparente magia está na intermutabilidade entre o formalismo matemático e a determinação intuitiva imediata das coisas. O espantoso é como se relaciona o matemático com o intuitivamente experimentável, e vice-versa. A relação do formalismo matemático com a intuição da natureza, levanta a questão do direito e dos limites do matemático em geral no interior da prodigalidade da experiência humana completa do dia-a-dia, quer quando produz artefactos que dão suporte à vida, quer quando ama, quer quando morre.

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  4. O homem primitivo não era necessariamente menos inteligente do que nós.

    Ainda hoje pasmamos com a inteligência e os conhecimentos tecnólógicos dos homens antigos.

    Eles pasmariam ao ver os nossos telemóveis ou leitores de DVDs.

    Nós pasmamos ao ver as suas pirâmides, os seus palácios, os seus navios e o modo como erguiam grandes pedras de milhares de toneladas ou como desenhavam no solo grandes figuras para serem vistas a partir do espaço.

    O facto de dipormos de mais artefactos tecnológicos não significa que somos mais inteligentes do que o homem antigo.

    Significa apenas que beneficiamos de informação acumulada ao longo de séculos.

    Se subitamente tivessemos que ir viver para uma ilha deserta, certamente não teriamos todos os artefactos da modernidade.

    A nossa vida seria semelhante à do homem primitivo, e possivelmente pior do que ela, na medida em que nem sequer teríamos a informação de que ele dispunha.

    A tecnologia é essencialmente de inteligência e design.

    Na tecnologia nada pode ser deixado ao acaso, sob pena de o mecanismo em causa pura e simplesmente não funcionar.

    O acaso não tem nada a ver com ciência e tecnologia.

    Não pode haver tecnologia sem inteliigent design.

    A tecnologia é a soma de inteligência e informação.

    A informação supõe sempre uma origem inteligente.

    O Universo apresenta-se precisamente sintonizado para a vida, como sugerem as centenas de "coincidências" antrópicas documentadas pelos cientistas.

    O DNA é o mais eficiente e miniaturizado sistema de armazenamento de informação que se conhece.

    O Universo e a Vida não podem ter sido o produto do acaso.

    O Universo e a Vida são os artefactos científicos por excelência.

    Eles foram criados pelo supremo cientista: Deus.

    É uma conclusão absolutamente lógica.

    Se Deus pode fazer milagres (o primeiro dos quais foi a criação do Universo e a vida) isso deve-se apenas ao facto de Ele saber muito mais do que nós sabemos e ter muito mais poder do que nós temos.

    Ele criou as leis naturais e está acima delas.

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  5. Acção à distância, materializações a partir do nada, teletransporte, ubiquidade, retroacções no tempo. Magia? Não, óptica quântica contemporânea.

    Contrariamente a que alguns vendilhões querem aqui vender, já a algum tempo que a razão pura foi afastada da física.

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  6. ....já há algum tempo que a razão pura foi afastada da física.

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  7. Realmente isso da razão e da ciência tem que se lhe diga.

    Alguns cientistas, entre os quais o falecido Fred Hoyle, defenderam a teoria da retro-causação do Universo: Deus evoluiu a partir do Universo e depois criou esse mesmo Universo!


    Outros, defendem que o nosso Universo, tendo uma sintonia para a vida tão infinitesimalmente improvável, é apenas um entre múltiplos Universos anteriores ou paralelos. Dessa forma as probabilidades de existência do nosso Universo aumentam.

    Só que isso de explicar o Universo apelando a múltiplos Universos não explica a origem de nenhum deles. Qual o mecanismo para a produção do nosso e dos demais Universos? Onde é que eles estão?

    Outros ainda sustentam que o Universo é possível porque nós estamos aqui para o observar. Se a moda deste tipo de explicações pega, podemos imaginar:

    A: "como é que sobreviveste a esse acidente?"

    B: "que pergunta idiota! Como é que eu estaria aqui para te responder se não tivesse sobrevivido?"

    Como se vê, está tudo explicado!

    Isto, para não falar naqueles, como o físico norte-americano Paul Davies, que acaba de reiterar a tese de que fomos nós próprios que criámos as leis do Universo no preciso momento em que as observámos e medimos os seus efeitos! (Davies, P., ‘Laying down the laws’, New Scientist 30 June 2007 pp 30–34)

    Ou seja, a ideia científica mais "cool" parece ser: como não foi Deus que criou o Universo, só podemos ter sido nós!!

    Nada mal, para quem não gosta nada de magia!

    Realmente, quando afastamos o supremo LOGOS da ciência, tudo é possível.

    Também na ciência e na filosofia, se Deus não existe todo o disparate é permitido.

    E a separação entre a razão e a loucura deixa de existir.

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  8. Ó anónimo. A existência de Deus em nada nos ajudar nas questões epistémicas, ou mesmo ontológicas. É óbvio, desde Kant, pelo menos, que somos nós que criamos as leis. Ou, no mínimo, temos imensa dificuldade em provar que não é. A ideia de Deus em nada nos ajuda na nossa tarefa. É apenas uma almofada.

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  9. "A tecnologia consiste basicamente em alterar a Natureza"

    Eu diria antes: "A tecnologia consiste basicamente em usar as leis da Natureza"

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  10. Apenas para não comentar apenas quando o assunto é a religião,


    Deu-me que pensar este post...
    Não concordo com o dizer-se que o racionalismo científico se está a tornar ele próprio uma religião fundamentalista;existe de facto uma fronteira imaginária que separa a ciência da magia e também a religiosidade com outros comportamentos como a intolerância -e outros ; explicam o mundo de maneira diferente, seria tão simples, bastava ter essa consciência.
    A educação parece ser aquilo que é a melhor arma contra essa característica psicológica, mas também parece que nunca vai desaparecer nem com educação, quanto mais sem ela.

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  13. Interessantes observações. A única coisa que não percebemos é a nossa dependência de nosso próprio processamento mental. Aparentemente o Universo não precisa de nossas elucubrações e ruminações matemáticas para funcionar do modo como funciona. Somos tentados a "explicar" tudo a nossa volta, pois essa é a armadilha que nos mantem firmemente na Existência. Pensar é uma função tanto quanto o caminhar, nadar, comer, etc... que nos proporciona satisfação e nos a ilusão de que estamos a nos mover para algum sítio qualquer fora da Realidade. A MAGIA por outro lado, nos impulsiona a perceber estes "espaços" entre os pensamentos e incita-nos a buscar o cerne da Realidade e não dos efeitos proporcionados pela Tecnologia. Esta é a grande distinção. O conceito de MAGIA é muito diferente da concepção geral. MAGIA não busca provocar "efeitos" mas sim TRANSMUTAR o próprio Homem. Em sua nova percepção da Realidade, já próxima do GÊNIO, concebe NOVAS TECNOLOGIAS para facilitar a sua expressão na Existência...

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