terça-feira, 12 de junho de 2007

O que é o “eduquês”?

O Rato de Biblioteca, de Carl Spitzweg (1808-1885)A expressão “eduquês" entrou no vocabulário nacional, acabando por vezes por dificultar uma compreensão clara dos problemas da educação e portanto das soluções possíveis. Há dois aspectos que importa esclarecer quanto ao “eduquês”: um aspecto linguístico e um aspecto teórico. Ambos estão, como veremos, relacionados. Neste primeiro post veremos apenas o primeiro aspecto.

Como Nuno Crato explica no seu livro O “Eduquês” em Discurso Directo (Gradiva, 2006), a expressão parece ter sido introduzida pelo então ministro da educação Marçal Grilo, para se referir ao jargão que os técnicos do Ministério da Educação usavam nos seus relatórios. Trata-se de uma linguagem rebuscada, confusa, obscura, que se dá ares de sofisticação académica — mas, trocando-se por miúdos, é usada para afirmar trivialidades ou falsidades tontas que só por serem defendidas em tal linguagem podem ser levadas a sério. Este aspecto da linguagem é importante por dois motivos.

Em primeiro lugar, porque, como ficou patente no ensaio clássico de Orwell de 1946 sobre os usos políticos da linguagem (“Política e a Língua Inglesa”), sempre que estamos perante esta prostituição da linguagem é porque se procura fazer passar ideias que claramente expressas ninguém aceitaria. Trata-se, pois, de pura manipulação — e seria precisamente a isso que o ministro se referiria, pois sentia-se provavelmente impotente perante as sapiências sagradas do ministério, técnicos anónimos que ao longo dos anos sempre mandaram surdamente nos destinos da educação de Portugal, sem terem de se dar ao trabalho de dar contas públicas das suas decisões, pois quem dá a cara são os políticos.

Em segundo lugar, porque quando uma linguagem académica ou especializada não tem realmente densidade teórica, simulando apenas que o tem, algo está profundamente errado. Todas as disciplinas do conhecimento, e mesmo as chamadas artes práticas e as profissões, têm o seu vocabulário especializado. Por vezes, tal vocabulário é menos claro ou pouco inteligível para quem não o domina — isso acontece em áreas como o direito ou a filosofia ou a física. É natural isto acontecer, porque para clarificar a comunicação estas disciplinas precisam de introduzir significados precisos nas palavras e expressões usadas, que se afastam do seu sentido quotidiano. Contudo, uma das maneiras mais comuns de entrar na aldrabice intelectual é simular densidade teórica usando uma linguagem terrorista, que contudo não corresponde a uma real necessidade de maior sofisticação linguística por via da maior sofisticação teórica. Pelo contrário, trata-se de simular a densidade teórica que não se tem usando-se uma linguagem que tem como principal objectivo desviar quaisquer críticas, nomeadamente, neste caso, dos próprios ministros.

Este segundo aspecto não é de espantar. Toda a academia tende naturalmente para o disparate linguístico, para a simulação da densidade teórica que não se tem, para o ademane falsamente académico. A limpeza de expressão e a simplicidade na comunicação de ideias tem a enorme desvantagem de pôr as coisas a nu quando há incompetências gritantes por parte do emissor, ou quando o que se está a comunicar são ideias alheias mal compreendidas, pior digeridas e escandalosamente mal formuladas. A linguagem falsamente académica do chamado “eduquês” não é, pois, uma excepção na história académica nacional. Basta ler as críticas que Eça faz aos grandes lentes de Coimbra, que no tempo do romancista faziam reputação copiando livros e teses francesas que ninguém conhecia, em linguagem rebuscada -- porque em terra de cegos qualquer vesgo é rei. Portanto, o “eduquês” das ciências da educação é apenas o formalismo académico bacoco que sempre tivemos em todas as áreas académicas. Seria aliás espantoso que esta área escapasse ao anátema queirosiano da academia nacional.

Quando os ademanes falsamente académicos e a linguagem terrorista se limitam a disciplinas que não têm uma aplicação directa, a coisa passa, como argumentei em “Os Novos Paradigmas da Educação” (Público, 29 de Janeiro de 2002). Milhares de páginas de dissertações de mestrado e doutoramento ocas de densidade teórica mas plenas de linguagem marada é deitar dinheiro público à rua, mas não vem daí grande mal ao mundo no curto prazo. Mas se essas pessoas vão recitar e pôr em prática num qualquer ministério a liçãozinha que tanta dificuldade tiveram a aprender, a coisa pia mais fino: o desastre é o resultado previsível e é precisamente isso que temos hoje no ensino.

O que nos conduz aos aspectos teóricos do “eduquês”, que fica para outro post.

8 comentários:

  1. Meu Caro Desidério, a chave do problema está precisamente nisto com que concluiu o "post": "Mas se essas pessoas vão recitar e pôr em prática num qualquer ministério a liçãozinha que tanta dificuldade tiveram a aprender, a coisa pia mais fino: o desastre é o resultado previsível e é precisamente isso que temos hoje no ensino."
    A maravilhosa Revolução de Abril matou a aranha mas deixou a teia. O pecado de sucessivos governos foi julgarem-se possuidores da omnisciência. E a omnisciência presumida seca tudo à sua volta. Assisti, como o meu Caro Amigo também, a constantes mudanças no sistema de ensino. Quase invariavelmente mudando o que tinha sido feito por outros para uma versão pior ainda. Lembra-se de, na Filosofia, se ter reduzido o programa ao Platão, a Descartes e a Galileu? Claro que houve professores, como o meu amigo Manuel Sá Couto, que penso que conhece, que faziam a ligação de Platão a Descartes e avançavam com o que depois deste aconteceu. Além disso, ensinava, e ensina, os alunos a pensar. Por isso, tendo-me convidado ele um dia para dar umas aulas sobre a Teoria da Relatividade, os alunos entraram imediatamente na discussão como se conhecessem o tema havia muito tempo. Mas fora novidade absoluta.
    Como se concebe que um ministro (ou ministra) chegue ao cargo e logo comece a impor reformas? Ou durante anos pensara ser ministro, e já tinha os problemas resolvidos "a priori", ou improvisou, correndo portanto o risco de fazer disparates.
    A Educação é um projecto nacional. Pelo menos deveria sê-lo. E isto implicaria um estudo multidisciplinar e multipartidário. Tem havido situações absurdas, como bem sabe. E depois criou-se a ideia de que o diploma é mais importante do que o saber. Tenho visto erros aflitivos de doutorados cometidos nas suas próprias áreas específicas do saber. Quer ver uma demonstração do que muita desta gente pensa? Há tempos, precisei de uma informação sobre um largo de Madrid que tem o nome de Plaza de las Azores. Vem do tempo de Felipe II, nosso Filipe I. Ele não sabia, o que não admirava. O pior foi que, quando lhe perguntei se, no caso de eu descobrir o que queria, ele estava interessado em que lho dissesse, esse Sr., doutorado nos "Filipes", respondeu-me que não lhe interessava, porque já tinha feito o doutoramento, pelo que não pensava voltar ao assunto. Se eu lhe dissesse o cargo que este Sr. tem, ficaria muito mais escandalizado ainda.
    Um abraço.
    Daniel

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  2. Ainda que este blogue não tivesse mais mérito nenhum, esta denúncia implacável que aqui é feita ao eduquês seria, só por si, motivo mais do que suficiente para se manter 30 blogues como este activos na blogosfera.
    Ler aqui opiniões e denúncias (o Rei vai nu) como esta que o Desidério aqui faz são motivo mais do qeu suficiente para continuar a voltar e a ler com o maior interesse a crítica construtiva que aqui é feita.

    Muitos parabéns aos autores do blogue.

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  3. A sua entrada sobre o “eduquês” é interessante mas, à semelhança das análises do Prof. Nuno Crato, radicam num erro fundamental: partem do princípio de que os inúmeros males da educação portuguesa radicam na implementação na realidade escolar das estratégias e abordagens alegadamente propostas pelos teóricos das Ciências da Educação. Nada poderia estar mais afastado da verdade. Os resultados do nosso sistema educativo não são decepcionantes pela absorção de ideias pretensamente “modernas”, mas perniciosas, das abordagens “pedagógicas modernas”. Os discursos não se traduzem em práticas diferentes. Na realidade, quem conhece um pouco da realidade escolar concreta, facilmente constata que a forma como se ensina mudou muito pouco nas últimas décadas. O que cresceu não foi o eduquês. Foi a estupidez, um abaixamento dos padrões de exigência e um lento resvalar para o facilitismo que começa no 1º ciclo e termina no ensino superior.
    Quanto às suas críticas sobre as Ciências da Educação sugiro-lhe que não tome a nuvem por Juno. Como muitos, quando aborda as Ciências da Educação, parece partir do princípio de que este campo é monolítico e globalmente mau. Como as Ciências da Educação têm má fama, por vezes merecida, gosto de me inspirar em autores que são oriundos de outras áreas que, por vezes de forma mais rigorosa, chegam a conclusões que se aproximam muito do discurso do “eduquês”. Veja o caso de Erik Mazur, professor de Física em Harvard, que recentemente esteve entre nós numa magnífica conferência que proferiu em Serralves. Nesta entrevista ao Prof. Carlos Fiolhais (http://nautilus.fis.uc.pt/gazeta/revistas/26_1/entrevista.pdf) ele afirma o seguinte: "Ensinar é apenas ajudar a aprender e é esse o meu papel enquanto professor." Isto até parece eduquês, não acha?
    Se desejar conhecer melhor as ideias de Mazur quanto ao ensino, no seu caso da Física, poderá descarregar uma conferência que ele proferiu no final do ano passado e que é muito próxima daquela que ele apresentou no Porto (ver http://www.exo.net/~drsteph/brownbags.html). São 20 MB de informação, correspondente a uma hora de conferência, em formato MP3. Penso que o poderá interessar tendo em conta que, com alguma regularidade, tem afirmado que, quanto ao ensino da filosofia, é crucial ensinar a pensar bem e não apenas saber superficialmente história da Filosofia como, infelizmente, eu e muitos fomos "ensinados".
    Tenho pelo menos a certeza de uma coisa com que concordará comigo: ensinar não é dizer aquilo que se sabe…

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  4. Caros leitores

    Muito obrigado pelos comentários.

    PJ: ou não me exprimi correctamente, ou me leu apressadamente. Eis coisas que *não* penso e *não* afirmo no post:

    1) Que as ciências da educação são uma balda (ridículo quando tenho amigos e colegas que são precisamente académicos reputados nesta área). O que eu digo é que a maior parte das universidades são uma completa fraude e por isso não é de estranhar que a maior parte das Ciências da Educação o sejam também. Mas não se pode confundir o todo com a parte, ainda que seja a menor parte. Há muita gente de valor -- só que quem anda nos corredores do poder é quem tem capacidade para fazer vários fellatio por hora às pessoas certas.

    2) Que o eduquês foi fielmente implantado: não afirmei tal coisa no post nem o penso e já expliquei precisamente este aspecto noutro artigo meu. Os aspectos que são aproveitados do eduquês na escola real fazem corar os próprios defensores do eduquês, mas o que eles não entendem é que não há outra maneira de implantar aquelas ideias a não ser a balda completa actual.

    3) Que tudo o que se diz sob o "chapéu de chuva" do eduquês está errado. Tanto eu como o Nuno Crato reconhecemos que muitas coisas estão correctas, mas são banalidades sem densidade teórica. E neste post eu estive só a falar da linguagem do eduquês, dizendo explicitamente (você leu o post?) que noutro post iria falar da teoria.

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  5. Ficarei então à espera da sua próxima entrada sobre o "eduquês" para perceber melhor o seu ponto de vista.
    Contudo, tenho alguma dificuldade em compreender a sua posição quando afirma que "Tanto eu como o Nuno Crato reconhecemos que muitas coisas estão correctas, mas são banalidades sem densidade teórica." Se estão correctas mas não têm densidade teórica, então não passam de trivialidades ou encontram-se mal sustentadas no plano conceptual. Neste caso pergunto-me, e não me encontro a ser irónico, sublinho, quem são esses colegas seus, académicos reputados da área das Ciências da Educação, que afirma serem a excepção que confirma a regra da mediocridade das referidas Ciências. Defendem ideias correctas mas com densidade teórica?

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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  7. Só mais uma acha para a fogueira: em que categoria inscrevem a obrigatoriedade de se fazer um exame de Área de Projecto, no 9º ano de escolaridade, nos exames de equivalência?

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  8. Aquilo a que se convencionou chamar "eduquês" não está bem descrito, é uma grande confusão, tudo lá cabe, carece de qualquer rigor, carece de profundidade e não passa de um slogan parq vender livros sem substância.
    Partindo deste pressuposto, não seremos capazes de fazer qualquer crítica rigorosa às concepções utópicas que dominaram a educação nos últimos decénios, porque o "objecto" está mal definido, mistura conceitos, define-os mal. Continuaremos, enfim, com o eterno problema da não inscrição.

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