domingo, 29 de abril de 2007

UMA ILHA NA LUA 2


Já aqui falei de "Uma Ilha na Lua" (Antígona, 1996) de William Blake. Neste livro, o escritor, pintor e visionário inglês satiriza não só a ciência como a filosofia (não admira: os inimigos da ciência costumam sê-lo também da filosofia). Atente-se no saboroso diálogo do Cap. V, que a seguir se transcreve. Aqui um dos personagens caricaturados (Ângulo Obtuso) é o neoplatonista Thomas Taylor (1758-1835), o primeiro a traduzir para inglês as obras completas de Platão e Aristóteles, e o diálogo em que participa é tão hilariante como a experiência científica falhada do Cap. X.

Ângulo obtuso, Ardebardo, Aradobe & Tiro Léria encontraram-se todos no escritório de Ângulo Obtuso.

"Diga-me," disse Aradobe, "Chatterton era um Matemático?"

"Não, " disse Ângulo Obtuso. "Como é que podes ser tãs néscio que penses que era?"

"Oh, eu não penso que ele era - só perguntei se era, " disse Aradobe.

"Como é possível pensares que não era, & perguntares se era?", disse Ângulo Obtuso.

"Oh não, senhor. Eu pensava que sim, que ele era, antes de me dizer, mas depois fiquei a pensar que não era."

Disse Ângulo Obtuso: "Em primeiro lugar pensavas que era, & depois, quando eu disse que não era, já pensavas que não era. Bem, eu sei que-"

"Oh, nada disso, senhor, eu pensava que ele não era, mas perguntei para saber se ele era."

"Como é que isso pode ser?, exclamou Ângulo Obtuso. "Como é que podes perguntar & pensar que ele não era?"

"Bem," disse ele, "veio-me à cabeça que ele não era".

"Mas porque é que então", insistiu Ângulo Obtuso, "disseste que ele era?"

"Eu disse isso? Caramba! Não pensava ter dito tal coisa."

"Não foi o que ele disse?", perguntou Ângulo Obtuso.

"Foi", disse Ardebardo.

"Mas o que eu quis dizer - " disse Aradobe, "Eu - eu - eu não consigo pensar. Caramba! Senhor, bem gostava que me dissesse como é que isto pode ser."

Então Ângulo Obtuso pôs o queixo na mão & proferiu. "Sempre que pensares, deves pensar por ti mesmo."

"Mas como, Senhor!" exclamou Aradobe. "Sempre que penso, devo ser eu a pensar?".

2 comentários:

  1. ...os inimigos da ciência costumam sê-lo também da filosofia...


    Mas que ciência e que filosofia, ó douto Desidério?!

    Afinal, o diálogo até não termina mal, certo?!

    "Sempre que pensares, deves pensar por ti mesmo."

    Oh well... sometimes we do it, sometimes we don't... just lack of wont! ;)

    Mas o que é que Blake pensava da ciência e religião e filosofia, afinal?! Qual era o credo desse excelso visionário e libertário artista e poeta inglês? É que só assim se pode compreender melhor o significado mais fundo desses diálogos, não será?!

    Em matéria de religião, basta apenas dizer que ele somente rejeitava os convencionalismos ritualistas das religiões organizadas que, de certa forma, são a letra que mata o espírito da autêntica experiência vivificante que o êxtase místico traduz.

    Há que compreender que o pensamento desse Ser Humano genial era essencialmente libertário, ele pensava e sentia por si próprio, sem aderir a sistemas rígidos - religiosos, filosóficos ou incipientemente científicos (início do séc. XIX!) - dentro dos quais não se queria enclausurar.

    Era um espírito profundamente místico que afirmava ver para além da realidade fenomenal, algo que é uma constante afirmação dos chamados "místicos" de todas as religiões, afinal. Ora, qual é a natureza dessas íntimas visões de outra realidade transcendente - não-local, pois! - que assim parece ser comum a tanta gente?! Alucinações, fantasias, delírios da imaginação, meras elocubrações?

    May be, my be not... all or naught?! ;)

    Continuo a fazer notar e a insistir constantemente neste ponto, que a ciência actual - e já desde o Renascimento, afinal - se baseia num postulado filosófico naturalista, onde a hipótese "Deus" de há muito já não é necessária. O que não significa, naturalmente, que essa Realidade seja inexistente, mas apenas que a ciência ainda não mergulhou suficientemente fundo na complexidade - ou simplicidade inerente, talvez! - do universo fenomenal para se poder interrogar quanto ao para além do Espaço-Tempo, uma pergunta aliás que nem faz sentido nos parâmetros estritamente físico-matemáticos do Big-Bang, por exemplo os que presidem à mais recente hipótese do "instanton da ervilha" ou "flutuação quântica", de Turok e Hawking.

    Afinal, segundo ambos, não existe qualquer "fora" da ervilha, nem nenhum "antes" da ervilha. Ela apenas existe como consequência das próprias leis da física. Still... how did these laws come into existence, in the first place?

    Nós não sabemos como criar a física a partir do nada. - Turok says.

    So the enigma remains...

    Rui leprechaun

    (...mysterious all the same! :))

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  2. Sorry! Não é Desidério é Fiolhais...

    ...mas um e outro são de mais!!! :D

    Já que vim corrigir esse erro, aproveito apenas para deixar aqui a famosíssima frase de Blake que inspirou a obra "The Doors of Perception" de Huxley e o nome do conjunto de Jim Morrison, "The Doors".

    If the doors of perception were cleansed every thing would appear to man as it is, infinite. For man has closed himself up, till he sees all things thru' narrow chinks of his cavern.

    Logo, filosoficamente falando ele era um neo-platonista... same as me!...

    Rui leprechaun

    (...for the pure Idea is the only Reality!!! :))

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